SAÚDE
| RICARDO
GIRALDEZ |
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| GRAÇA
MARQUES: "Parece que a vida não é
do paciente, mas do médico. E o doente não
tem informações" |
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Virada
de jogo
Depois
de lutar contra o câncer, a psicanalista Graça Marques
cria em São Paulo um núcleo de apoio e de representação
das vítimas da doença
Cilene
Pereira
A psicanalista Graça Marques, 47 anos, é uma dessas
pessoas obstinadas pela vida. Nascida em Porto Velho, desde cedo
conviveu com a adversidade. "Quando não tinha o que
comer, ia para o rio, pescava e levava o peixe para o jantar",
lembra. Hoje, Graça continua com o dom de transformar o ruim
em algo muito bom. Psicoterapeuta, trabalhando com pa-cientes com
câncer, ela teve diagnóstico de câncer de mama
recebido há cerca de um ano. Não se deu por vencida.
Lutou, venceu a doença e a utilizou para iniciar um movimento
de apoio ao paciente. Ela é a presidente do Núcleo
de Apoio ao Paciente com Câncer (Napacan), criado com a finalidade
de abrir espaço para as necessidades do doente. Uma das iniciativas
do núcleo é distribuir cartilhas com endereços
onde o paciente pode pedir ajuda. Graça falou a ISTOÉ
sobre o Napacan.
ISTOÉ - Quem criou o Napacan?
Graça - Eu e um anjo amigo. Sou ex-paciente de câncer
de mama e psicoterapeuta e psicooncologista. E tive a "sorte"
de ter um câncer de mama.
ISTOÉ - Sorte?
Graça - É brincadeira. Mas, de acordo como se encara,
o câncer dá oportunidade para se rever profundamente.
ISTOÉ - O que aconteceu com você?
Graça - O câncer apareceu no dia 10 de abril do ano
passado. De manhã estava bem, porque sempre faço o
auto-exame de mama. De noite, no banho, saltou uma bola de gude
do meu seio esquerdo. Sabia que era câncer pela textura, pela
forma que estava preso.
ISTOÉ - O que você imaginou?
Graça - A primeira coisa foi: "Por que estou tendo um
câncer com essa idade?" Estou querendo morrer? O câncer
é uma boa desculpa. Ou seria algo para me acordar? Fiquei
em conflito, chorei, tive medo. Até que entendi. O câncer
foi uma deixa para realizar coisas importantes na área da
saúde, como estudar mais a área de psicooncologia,
já que não tinha tempo de frequentar uma nova universidade.
E entendi que era importante chegar perto da morte e saber que ela
é um merecimento, não desculpa para fugir de uma responsabilidade.
Perguntei para Deus: "Posso morrer agora, devo morrer agora,
mereço morrer agora?" Meu inconsciente me respondeu
a cada noite: "Não. Você não merece morrer
agora, não pode morrer agora, mas quer morrer agora, porque
não quer assumir uma responsabilidade grande." E eu
não tinha idéia de qual seria essa responsabilidade.
ISTOÉ - Como você descobriu?
Graça - A responsabilidade surgiu a partir da minha inquietação.
Quando iniciei o tratamento, encontrei muitas falhas no sistema
de saúde. Comecei a questionar o tratamento. Quando o primeiro
cirurgião me disse que tinha de retirar todo o seio, disse
que faria um tratamento e uma cirurgia menos radical. Levantei e
saí.
ISTOÉ - Por quê?
Graça - Tinha de consultar pelo menos três médicos
e depois tomar uma decisão. Mas no segundo ouvi a mesma barbaridade.
Cheguei no terceiro e ele me disse a mesma coisa. Respondi que faria
um tratamento e não operaria enquanto não sentisse
que devesse operar.
ISTOÉ - O que a fazia tomar essa decisão?
Graça - Meu coração. Se prego tanto no meu
trabalho psicoterápico que trato da alma do paciente, consigo
salvá-lo das enrascadas da vida, na hora em que vivo um momento
desse tenho de ter essa mesma verdade. E tomei alguns cuidados.
Fiz quimioterapia e um tratamento complementar. Usei produtos considerados
alternativos, como megadose de vitaminas, orientada por uma profissional,
e meditação.
ISTOÉ - Quais foram os resultados?
Graça - Passei bem. Fiz a quimioterapia e a cirurgia conservadora.
Comecei a radioterapia 30 dias depois e a terminei em novembro.
ISTOÉ - E você não tem mais nada?
Graça - Já tinha encerrado quando operei, mas a radioterapia
complementou o tratamento. Faço exames mensalmente para controle.
ISTOÉ - Foi nesse processo que você pensou
em criar o Napacan?
Graça - Durante o tratamento, pediram que escrevesse algo
sobre os deveres, direitos e cuidados com o paciente com câncer.
Escrevi a partir da minha experiência. Parece que a vida não
é do paciente, mas do médico. Ele determina: "É
um câncer, você tem de tratar assim, senão você
morre e sou eu que estou mandando." O paciente não tem
informação sobre a doença, o tratamento. Decidimos
criar o Núcleo de Apoio ao Paciente com Câncer.
ISTOÉ - Vocês também estão
trabalhando numa frente parlamentar?
Graça - Sim. A frente foi criada com a deputada Teté
Bezerra (PSDB-MT) e tem mais de 70 congressistas, que votarão
leis em defesa do paciente, como a que prevê a distribuição
gratuita, nos hospitais filantrópicos, de remédios
à base de morfina para pacientes terminais. Hoje, ele só
recebe se estiver hospitalizado. Em casa, morre de dor, se não
puder comprar. Também estamos trabalhando em um projeto que
determine que os planos de saúde cubram os remédios
do doente. Eles só cobrem os injetáveis e de uma forma
ambulatorial. Mas há algumas vitórias na Justiça.
Um convênio teve de pagar um remédio para uma paciente
depois que ela fez uma denúncia ao Ministério Público
de São Paulo.
ISTOÉ - O que há na cartilha preparada
por vocês?
Graça - Direitos e deveres do paciente com câncer
e endereços dos centros de atendimento do Brasil, públicos
e filantrópicos. As pessoas podem também acessar nosso
site www.napacancer.com.br
ISTOÉ - Quais os direitos do paciente?
Graça - Enquanto ele está em tratamento, não
paga Imposto de Renda. Se for considerado inválido, mesmo
depois do tratamento, não paga mais Imposto de Renda. Ele
pode retirar o seu Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.
Pode quitar o financiamento da casa própria. Tudo depende
do laudo médico e do tipo de câncer que ele tem.
ISTOÉ - Como obter esses direitos?
Graça - O médico fará um relatório dizendo
a que tipo de tratamento você está se submetendo. E
pode-se procurar o Ministério Público do Estado de
São Paulo, onde há um grupo voltado para a saúde
pública do consumidor (tels: 256-2287/ 257-2899 ramal 231).
ISTOÉ - Os direitos são só para
casos graves?
Graça - Sim. Para aqueles que impossibilitam o paciente de
trabalhar, de ter uma vida social.
ISTOÉ - Por que só agora foi criada uma
entidade como o Napacan?
Graça - O câncer é uma doença antiga.
As pessoas perderam a sensibilidade em relação ao
problema. O câncer ainda traz o estigma da morte. Sofri muito
preconceito dos meus colegas.
ISTOÉ - Médicos, psicólogos?
Graça - Todos. Eles diziam: "Não acho legal você
falar por aí que tem câncer. Não vai pegar bem.
Dizia: "Vou ter medo de que, vergonha de quê? Não
é um defeito ter câncer." E se eu não puder
contar às pessoas o que é ter um câncer sem
me deixar vencer, como posso ser digna de respeito? Quero ser uma
referência para o paciente com câncer.
Links relacionados:
www.inca.org.br
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