IATISMO
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Um
brasileiro na fera do mar
Com trabalho brilhante de Torben Grael, a equipe
italiana Prada tira o barco dos EUA da final na centenária America's
Cup pela primeira vez e chega à final com os neozelandeses
Eduardo
Marini
Os minutos finais da nona regata da Louis Vuitton Cup, em Auckland,
Nova Zelândia, no domingo 6, despertaram a curiosidade dos telespectadores
que acompanhavam a prova em todo o mundo. A melhor de nove regatas,
disputada entre os barcos America One, dos Estados Unidos, e o italiano
Luna Rossa, da equipe Prada, estava empatada em quatro a quatro.
O Luna liderava na reta final e alguns dos 16 componentes da tripulação
explodiram de alegria no convés, a 100 metros da chegada. Levados
de volta ao trabalho pelo alerta educado de um dos tripulantes,
cruzaram a linha de chegada 39 segundos antes do adversário, cravaram
os 5 a 4 e fizeram uma festa ainda maior. Com a vitória confirmada,
o dono da voz da razão que recolheu os amigos, o brasileiro Torben
Grael, pegou sua garrafa de cham-panhe e saiu para o abraço. Torben,
campeão olímpico da Classe Star em Atlanta, é o tático da equipe,
o braço direito que passa informações para o comandante Francesco
de Angelis (leia entrevista). Foi ele o principal criador da estratégia
que tirou pela primeira vez os americanos da final.
A Louis Vuitton Cup é a semifinal que define a decisão da Ame-rica's
Cup, a mais antiga e importante prova de iatismo do planeta. Tudo
começou em 1851, num desafio de comandantes ingleses ao iate America,
para uma corrida em torno de uma ilha ao Sul da Inglaterra. Nesses
149 anos, os barcos dos EUA foram derrotados apenas duas vezes,
nas finais. Em 1983, perderam para os australianos. Na última edição,
em 1995, levaram uma surra de 5 a 0 do barco neozelandês Black Magic
em pleno mar da Califórnia. Agora, o Black Magic irá defender o
título contra o Luna a partir do próximo dia 19, também em Auckland,
em outra melhor de nove. "Eles são uma incógnita para nós. Não treinaram
com qualquer desafiante", revela Torben. "Competi ao lado deles
em outras ocasiões. São excelentes velejadores e trabalham juntos
há dez anos. Será parada duríssima", completa.
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| O
barco Prada/Luna Rosa, com manobras precisas, colocou
39s de vantagem sobre o American One na nona disputa da
semifinal |
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A America's Cup é disputada a cada quatro anos (os neozelandeses
pediram mais um ano para fazer a prova em 2000). As regatas envolvem
três trechos de ida e volta com 3,18 milhas náuticas, cerca de 5,9
quilômetros. Duram em média duas horas e meia, com largadas no contravento
e chegadas a força total. As eliminatórias envolvem dois concorrentes.
A equipe que vence todos os desafian-tes enfrenta o último campeão,
no território do adversário. Se o Luna Rossa vencer, levará a Copa
para Nápoles. Os barcos, pérolas da tecnologia atingem velocidade
de 18 nós, ou 33,3 quilômetros por hora.
O Luna Rossa chegou a fazer 3 a 1. O America One empatou
em 3 a 3. Na sétima regata, Torben abandonou o estilo cauteloso
e tentou levar os adversários a faltas e punições. Não deu certo
e o barco do comandante americano Paul Cayard fez 4 a 3. A tripulação
do Prada não se desesperou. Após uma reunião, seguida de doses de
uísque, Torben, de forma brilhante, organizou estraté-gias conservadoras
e virou a parada. O empate veio com apenas nove segundos de diferença.
No ponto cinco, as orientações de Torben transformaram os três segundos
de vantagem da largada em 39 segundos no final. Os italianos confiam
neste brilhantismo para verem o Luna Rossa, a fera do mar, nas águas
esverdeadas do Mediterrâneo.
Links relacionados:
www.torben-grael.com
www.americascup.org
www.louisvuittoncup.com
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"Jamais
perdemos a confiança"
Torben Grael foi entrevistado duas vezes por ISTOÉ.
No primeiro contato, após a derrota que empatou o match
em 3 a 3, estava sério, mas calmo como sempre. "Precisamos
de dois pontos. Estamos na mesma situação." No segundo,
feito na terça-feira 8 e reproduzido abaixo, o iatista
estava exausto, mas feliz com a vitória.
ISTOÉ - Os americanos fizeram 4 a 3. Vocês chegaram
a temer o pior?
Torben Grael - Jamais perdemos a confiança.
Acho que tive papel importante. Além de cumprir a função
de tático, passava confiança e explicava como poderíamos
reagir.
ISTOÉ - Explique o papel do tático.
Torben -Ele é um braço direito que municia o
comandante com informações estratégicas. Isso exige
análises e conclusões constantes. Antecipo variações
de direção e intensidade do vento em função da nossa
posição e também da localização do adversário. Também
antecipo os movimentos do adversário em relação ao Luna
Rossa. Tudo isso é dinâmico, daí a complexidade. O tempo
para tomar e implantar uma decisão é mínimo. Quatro
Olimpíadas na bagagem ajudam muito. A equipe do Luna
Rossa abriga 24 pessoas - 16 participam da regata e
oito ficam na reserva. A tripulação é unida. Treinamos
juntos há três anos e somos amigos fora do barco.
ISTOÉ - O Luna Rossa é a Ferrari dos mares?
Torben - Nossas cores são mais próximas da McLaren...
É brincadeira. O Luna Rossa representa tudo o que há
de mais avançado em tecnologia náutica. Mastro, retranca,
roda de leme e outros detalhes são feitos em fibra de
carbono. O design foi trabalhado em computadores e testado
em tanques da Universidade de Roma. Alguns projetistas
e engenheiros vieram mesmo da Ferrari. O interior é
espartano, pois o peso é inversamente proporcional à
performance. Não temos banheiro. Abaixo do convés, temos
velas, material de reposição e equipamentos eletrônicos.
ISTOÉ - Você pensa em montar uma equipe brasileira?
Torben - Esses resultados me animam. O trabalho
consumiria tempo e dinheiro, mas, a médio prazo, quem
sabe?
ISTOÉ - Você acha que seu irmão, o iatista Lars
Grael, que perdeu uma perna num acidente de barco em
1998, teria condições de participar de uma prova como
a America's Cup?
Torben - Sim. Ele é um dos melhores velejadores
que o Brasil já teve e possui duas medalhas olímpicas.
Nosso preparador físico tem uma prótese de perna semelhante
à dele e veleja normalmente. Mas o trabalho que ele
faz no Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto,
o Indesp, tem sido elogiado. Sua importância para o
futuro da vela no Brasil continua a mesma.
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