VIOLÊNCIA
A
cara da barbárie
Acusados
de matar homossexual, 30 carecas do ABC são presos e revelam
crescimento do racismo
Daniel
Rittner
| JOSÉ
MARIA DA SILVA / FOLHA IMAGEM |
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Os
18 carecas acusados de matar Edson (à dir), são
indiciados por homicídio: Plínio Salgado
como leitura
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Foi um ataque fulminante. Na madrugada do domingo 6, o adestrador
de cães Edson Néris da Silva tentou cruzar a praça
da República, no centro de São Paulo, ao lado do companheiro
Dario Pereira Netto. Um grupo de jovens com cabeças raspadas
avançou sobre os dois dando chutes e pauladas. Como que por
milagre, Dario conseguiu fugir. Ficou escondido até os agressores
se dispersarem e voltou para socorrer o amigo. Edson, 35 anos, teve
hemorragia interna e morreu. Pouco depois, a polícia prendeu
30 skinheads que portavam soco inglês e correntes de aço
num bar das imediações. Doze eram menores e 18 foram
indiciados por homicídio e formação de quadrilha.
Os rapazes pertencem aos Carecas do ABC, movimento criado nos anos
80 que prega o nacionalismo exacerbado para "dar mais dignidade
aos brasileiros". Uma ex-integrante, que prefere não
ser identificada, contou a ISTOÉ como funciona o grupo. Para
entrar, os candidatos passam por um "batizado", eufemismo
para o espancamento a que são submetidos. "Quanto mais
reagir, mais apanha." Como quase todos são cristãos,
abominam drogas e moram com a família, os carecas despertam
uma imagem de moralistas. Muitos trabalham em empresas de segurança.
Segundo ela, dois carcereiros e um policial militar também
pertencem ao movimento. "A PM sabe quem bate, mas é
conivente", acusa. A maioria pratica lutas marciais e faz reuniões
aos fins de semana para debater idéias racistas. As poucas
leituras se resumem aos livros de Plínio Salgado e Gustavo
Barroso, os dois principais ideólogos do integralismo - versão
tropical do fascismo europeu dos anos 30.
Os negros e os nordestinos não fazem parte das vítimas
da violência - há inclusive alguns deles no grupo.
Os alvos preferidos dos Carecas do ABC são homossexuais em
bares e boates. Também andam à procura de shows de
bandas punks ou góticas para provocar seus simpatizantes.
M.M., um homossexual de 25 anos, foi espancado em 1996 na porta
de uma casa noturna. "Provocaram um amigo. Quis defendê-lo
e, quando percebi, havia mais de cinco me chutando. Ainda tenho
sinais do espancamento", revolta-se.
Juliano Sabino, um despachante alfandegário nascido
no interior paulista que é apontado como líder do
movimento, nega ter participado do assassinato de Edson. Insiste
que no momento do assassinato já estava com os outros carecas
no bar em que foi preso. "Pregamos o Brasil para todos. Fazemos
campanha do agasalho e distribuímos alimentos nas favelas",
defende-se. A advogada de Sabino, Neide Vieira, acha impossível
especificar quem participou ou não do crime. Por isso, acredita
que conseguirá o relaxamento da prisão dos envolvidos.
O Ministério Público quer criar nos próximos
dias uma força-tarefa, com promotores, delegados e deputados
estaduais, para investigar a atuação das gangues neonazistas
em São Paulo. "Eles propõem ações
discriminatórias e já apuramos que alguns fazem treinamentos
paramilitares com seus militantes", constata o promotor Carlos
Cardoso, assessor de direitos humanos do Ministério Público.
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