| ALAN
RODRIGUES |
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| Canhedo:
"A revista Veja foi usada por meus concorrentes
e divulgou mentiras" |
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Guerra
Suja
Wagner
Canhedo anuncia reduções nos preços das
passagens e acusa os concorrentes de promoverem uma campanha
de baixo nível contra a Vasp
Mário
Simas Filho
O empresário Wagner Canhedo, presidente da Vasp, ainda
não teve tempo para comemorar o fantástico índice
de 89% de ocupação em seus jatos na ponte aérea
Rio-São Paulo, o filé mignon da aviação
nacional. Na última semana, ele precisou dedicar-se
integralmente para administrar algumas turbulências.
"Nossa política comercial mais agressiva deu resultado
e incomodou a concorrência que resolveu bater abaixo
da linha da cintura", acusa Canhedo. O empresário
se refere ao bombardeio a que a Vasp ficou exposta nos últimos
dias, quando foram amplamente divulgadas supostas dívidas
da empresa e ameaças sensacionalistas da Infraero -
a estatal responsável pela maior parte dos aeroportos
brasileiros - de proibir os pousos e as decolagens de suas
aeronaves. "Nenhuma empresa aérea brasileira está
voando em céu de brigadeiro. A Vasp tem dívidas
como tem dívidas a Varig, a Transbrasil e a TAM. Mas
não estamos em situação de risco. Os
ataques vieram como resposta de baixo nível a uma maior
ocupação de mercado."
Certo de que seu plano de vôo está absolutamente
correto, em entrevista concedida a ISTOÉ, Canhedo assegura
que não irá arremeter. "Vamos manter o
desconto de 50% nos bilhetes da ponte aérea e nos próximos
dias anunciaremos promoções semelhantes para
as cidades de Ribeirão Preto (SP), São José
do Rio Preto (SP), Campo Grande (MS) e Uberlândia (MG).
Como na ponte aérea, o cliente pagará a ida
e a Vasp dará a volta", promete. O presidente
da Vasp também garante que não irá reduzir
a premiação aos agentes de viagem e acusa Varig,
Transbrasil e TAM de não estarem amadurecidas o suficiente
para entender a necessidade de fusões entre as empresas
aéreas nacionais. A seguir, a entrevista com Wagner
Canhedo.
ISTOÉ - Na última semana, cartazes
espalhados pela cidade o definiam como um piloto de cheques
voadores. Como o sr. se sentiu ao ver esses cartazes?
Wagner Canhedo - Não é nada agradável
e não ficarei quieto. Os cartazes espalhados pela revista
Veja são abomináveis e mentirosos. É
lamentável que uma revista se arvore em juíza
da moral alheia, como se estivesse acima do bem e do mal,
sendo usada por meus concorrentes que se empenham em mover
uma campanha contra a Vasp porque perderam mercado. É
inaceitável que uma revista se preste a esse serviço,
principalmente sabendo que estava divulgando alguns dados
mentirosos e distorcendo outros. Trata-se, claramente, de
uma reportagem assinada por meus concorrentes. Lanço
o desafio para que apresentem um cheque do Canhedo ou da Vasp
que tenha sido emitido sem fundos.
ISTOÉ - A Infraero diz que recebeu do sr.
24 cheques pré-datados e ao apresentar o primeiro o
pagamento estava sustado.
Canhedo - Mais uma mentira divulgada pela revista Veja. De
fato fiz os cheques pré-datados, mas a Infraero apresentou
os 24 no mesmo dia. Por causa disso os pagamentos foram sustados,
pois o comportamento da Infraero rasgou qualquer compromisso
anterior.
ISTOÉ - O sr. credita aos concorrentes os
ataques sofridos pela Vasp nos últimos dias. Diz que
tudo não passa de uma resposta de baixo nível
à sua política comercial mais agressiva. O que
a Vasp fez que incomodou tanto?
Canhedo - De dezembro para cá, tomamos algumas medidas
que irritaram muito meus concorrentes. Depois de algumas reuniões,
todos resolveram abaixar de 10% para 7% as comissões
dos agentes de viagem. A Vasp, que em outubro havia elevado
essas comissões para 13%, não aceitou. Temos
muito claro que são esses agentes os responsáveis
por 80% de nossas vendas e eles precisam ser valorizados.
Isso é política comercial. Irrita a concorrência,
mas nada me obriga a seguir o que fazem as outras empresas.
ISTOÉ - E já houve tempo suficiente
para essa postura provocar algum reflexo no mercado?
Canhedo - Sem dúvida. Quando elevamos a comissão
para 13%, nossas vendas aumentaram em torno de 10% e agora
que elas abaixaram nossas vendas subiram mais 30%. É
isso que tem deixado TAM, Varig e Transbrasil bastante aborrecidas.
Mas vamos ignorar os reclamos e continuar a implantar essa
política agressiva.
ISTOÉ - Como?
Canhedo - Agora começamos com a promoção
na ponte aérea. O passageiro paga a ida e a Vasp paga
a volta. É o mesmo que se estivesse dando 50% de desconto.
Ora, eles têm linhas que dão até 40% de
desconto. Por que não posso dar 50% de desconto na
ponte?
ISTOÉ - É que a ponte Rio-São
Paulo é o filé mignon da aviação
nacional.
Canhedo - Mas eles também estão com promoções
na ponte.
ISTOÉ - TAM, Varig e Transbrasil estão
dando descontos no trecho Rio-São Paulo?
Canhedo - Indiretamente sim. Elas aumentam a milhagem. É
o mesmo que estamos fazendo, só que com resultados
a médio e longo prazos para os clientes. A Vasp optou
pelo benefício imediato ao passageiro.
ISTOÉ - Qual o resultado concreto dessa
promoção?
Canhedo - O resultado é maravilhoso. Tínhamos
um aproveitamento na ponte de 25% e estamos com 89%. A Vasp
está ganhando. Veja bem. O número de passageiros
continua o mesmo e meus vôos que saíam com ocupação
de 25% hoje saem com 89%. Isso significa que as pessoas deixaram
de voar pelas outras empresas. Foi a gota d'água para
desencadear essa campanha odiosa contra nós. Meu crime
é levar a sério o fato de vivermos em uma economia
de mercado na qual o consumidor ganha com a competição.
ISTOÉ - A Infraero participa dessa campanha.
Muito do que se tem dito contra a Vasp diz respeito a dívidas
da empresa com a estatal?
Canhedo - Não. Nós, por decisão do ministro
da Defesa e do comandante da Aeronáutica, seremos tratados
como os demais. Vamos pagar todas as sextas-feiras e não
diariamente como queria a Infraero. O problema é operacional
e não falta de caixa.
ISTOÉ - Na semana passada, o presidente
da Infraero criticou essa promoção da Vasp na
ponte aérea. Ele disse que o sr. estava praticando
dumping.
Canhedo - Isso é descabido. A Vasp está trabalhando
com essa tarifa e está ganhando muito dinheiro.
ISTOÉ - O sr. não está operando
abaixo do custo?
Canhedo - Ao contrário. Antes, com poucos passageiros
nos aviões, estávamos perdendo no mínimo
R$ 140 mil por dia na ponte e agora estamos ganhando R$ 140
mil.
ISTOÉ - E a dívida com a Infraero.
As ameaças de proibir os vôos da Vasp?
Canhedo - Isso é outra grande bobagem. Estão
confundindo tudo. O que a Infraero pode efetivamente fazer
é nos cobrar cash e por causa disso estamos brigando
na Justiça. Mas, se perdermos, vamos pagar dia a dia
sem nenhum problema.
ISTOÉ - Estou me referindo não às
taxas atuais, mas à dívida antiga da Vasp com
a Infraero.
Canhedo - Temos dívidas como todas as outras empresas
do setor. A Varig tem, e a Transbrasil e a TAM também.
Nossa dívida com o governo de maneira geral está
em torno de R$ 1,5 bilhão e temos créditos com
a União em torno de R$ 1,6 bilhão. Então,
o que estamos buscando é um acerto de contas e depois
dessa negociação as coisas ficarão zero
a zero.
ISTOÉ - Quais são esses créditos?
Canhedo - São créditos de defasagem tarifária
do passado, já reconhecidos pela Justiça. Estamos
apenas aguardando um chamado do governo para negociar. O nosso
direito já está assegurado. O problema é
que o governo, ao contrário dos cidadãos comuns,
tem um maior número de recursos. Na verdade, são
ações que visam apenas a ganhar tempo e não
interferem no reconhecimento do direito.
ISTOÉ - O que está faltando para
resolver?
Canhedo - Vontade política da área econômica
do governo.
ISTOÉ - O sr. diz que, assim como a Vasp,
as demais empresas do setor também têm dívidas.
Elas também não têm esses mesmos créditos
provenientes da defasagem tarifária?
Canhedo - A Transbrasil, por exemplo, tinha uma ação
contra a União e ganhou. Nossa ação é
idêntica e o processo está no mesmo estágio
que o da Varig. Exigimos isonomia.
ISTOÉ - E as demais dívidas?
Canhedo - Nenhuma empresa aérea está voando
em céu de brigadeiro. Todas têm dívidas,
mas não estou à beira do abismo. Nenhum avião
da Vasp foi tomado por empresa de leasing. Somos donos de
75% de nossa frota. A Varig, que já chegou a ser dona
de todos os seus aviões, hoje tem apenas seis 737.200.
A Transbrasil tem apenas três dos 21 jatos de sua frota
e a TAM arrenda seus 56 jatos. Ninguém que arrecada
em real e paga em dólar pode estar absolutamente tranquilo.
ISTOÉ - É verdade que a Vasp perdeu
um contrato com a Empresa de Correios e Telégrafos
porque apresentou falsas certidões negativas do INSS?
Canhedo - Essa é mais uma mentira dessa campanha sórdida
promovida por meus concorrentes. Já pedi novas certidões
e assim provarei que nada há de falso. Nossa dívida
com o INSS está sendo depositada em juízo todos
os meses sem nenhum atraso. O problema é que estamos
questionando a forma de pagamento, pois quando boa parte dessa
dívida foi feita a Vasp era estatal e como tal tinha
um prazo maior de pagamento. Lutamos pela manutenção
desse prazo.
ISTOÉ - E o contrato com o Correio?
Canhedo - Nós temos um serviço, o Vaspex, que
concorre com o Correio. Portanto, esse contrato era um problema,
pois a ECT nunca viu com bons olhos a concorrência direta.
Os valores já estavam defasados em pelo menos 40%.
Desde agosto do ano passado temos feito tratativas para o
reajuste e nunca encontramos boa vontade por parte deles.
O corte iria acontecer de uma forma ou de outra. Não
teve nada a ver com a fantasiosa denúncia de certidões
falsas. Para mim, o importante é que o que perdemos
com o Correio já ganhamos com o incremento do Vaspex.
Em janeiro crescemos mais de R$ 6 milhões.
ISTOÉ - O sr. está distribuindo uma
carta aos passageiros em que fala em reestruturação
da empresa. O que está acontecendo?
Canhedo - Não é só a Vasp, mas o setor
todo precisa ser reestruturado. Não é fácil
arrecadar em real e pagar em dólar. Estamos agora devolvendo
quatro dos oito MD-11 e vamos reestruturar a malha internacional.
É possível cumprir as rotas com metade da frota.
Isso significará uma economia de US$ 1,6 milhão
mensal em leasing. Com a desvalorização do real,
esses aluguéis se tornaram muito caros. Isso tudo tem
o objetivo de aumentar receita e diminuir despesas.
ISTOÉ - O sr. planeja alterar o número
de funcionários da empresa?
Canhedo - A Vasp é uma empresa bastante enxuta. Me
dói demitir um empregado. Eu vim de baixo e gosto de
quem trabalha comigo.
ISTOÉ - Dizem que a Vasp está canibalizando.
Como anda a manutenção de seus aviões?
Canhedo - Mais uma maldade. Dizem isso por causa dos MD 11.
Ora, sempre um deles está em manutenção.
É absolutamente normal que as empresas recolham suas
aeronaves para revisão e manutenção.
Com a Vasp, isso vira sinônimo de canibalização.
Não é nada disso. A empresa aérea de
médio e grande portes que não estiver com pelo
menos um avião em manutenção está
negligenciando com a segurança. A acusação
é tão falsa quanto lamentável.
ISTOÉ - Como a Vasp se posiciona em relação
à fusão das companhias aéreas nacionais,
discurso feito com frequência pelo governo?
Canhedo - Sou totalmente favorável. Com qualquer uma
das outras três empresas. Temos conversado bastante,
mas essas conversas não têm caminhado. Acho que
estamos vendo dez anos à frente, mas meus concorrentes
não pensam assim. Nossos cálculos já
checados e rechecados indicam que com a fusão das empresas
nacionais poderíamos economizar cerca de US$ 15 milhões
por mês. Uma economia que certamente seria revertida
em benefício ao usuário, com a redução
no preço final da passagem.
ISTOÉ - Por que essas conversas não
avançam?
Canhedo - Tenho impressão de que falta amadurecimento
aos meus concorrentes, pois não vejo como as empresas
poderiam perder com isso.
ISTOÉ - Como o sr. pretende reagir a essa
campanha contra a Vasp?
Canhedo - Vamos continuar fazendo as promoções
e não iremos alterar as comissões dos agentes
de viagem. Nossos passageiros irão ser beneficiados
imediatamente. Nos mesmos moldes da ponte aérea, vamos
implantar nos próximos dias promoções
para Ribeirão Preto, São José do Rio
Preto, Campo Grande e Uberlândia. O passageiro pagará
a ida e a Vasp a volta.
ISTOÉ - Qual a taxa de ocupação
atual nesses vôos?
Canhedo - Temos pouca ocupação. Cerca de 35%
e apenas um vôo diário. Com a promoção
vamos chegar a 70% de ocupação, com certeza.
Dessa forma, linhas que por vezes pareçam deficitárias
começarão a dar retorno imediato.
ISTOÉ
- Isso vai afetar a TAM?
Canhedo - Com certeza. Mas, afete a quem afetar, o passageiro
Vasp será o maior beneficiado dessa guerra suja.
Links relacionados:
www.vasp.com.br
www.varig.com.br
www.tam.com.br
www.transbrasil.com.br
www.infraero.com.br
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