SAÚDE
| ANDRÉ
DUSEK |
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Miséria
tropical
Meningite
e cólera no Nordeste mostram que o Brasil ainda não
consegue eliminar males típicos do Terceiro Mundo
Thiago
Lotufo e André Dusek (foto), de Teresina
A frase estampada na entrada do Hospital de Doenças Infecto-Contagiosas
(HDIC) de Teresina, no Piauí, é emblemática:
"Os homens adoecem porque são pobres. Mantêm-se
pobres porque estão doentes e continuam doentes porque são
pobres." Cunhada no século passado, a frase continua
mais válida do que nunca. Há duas semanas, em São
Paulo, enquanto o senador Antônio Carlos Magalhães
se tratava de um princípio de pneumonia no Hospital Israelita
Albert Einstein - considerado um dos melhores do País - centenas
de pessoas se aglomeravam no HDIC, em Teresina, em busca de tratamento
para a meningite, doença que está assolando a cidade.
E o problema não é só ali. O Brasil convive
com males que deveriam ter sido riscados do mapa há tempos.
Na região amazônica, malária; em Alagoas, cólera;
em Pernambuco, cólera; e, em Goiás, febre amarela.
Esses são os principais problemas que os Estados enfrentam
neste início de ano. Na verdade, eles somam-se a outros tantos
como dengue, leptospirose etc., que frequentam principalmente as
estatísticas dos Estados do Norte e Nordeste. São
doenças de quem está na rabeira do processo social,
decorrentes da falta de saneamento básico e higiene pessoal.
Em Teresina, por exemplo, somente 10% da cidade tem esgoto tratado.
Boa parte da população faz do chão um banheiro.
Na periferia da capital é comum a convivência dos moradores
com lagoas de esgoto e lixo acumulado. Em oito anos, de 1991 a 1999,
o número de favelas pulou de 50 para 150, abrigando um total
de 38 mil domicílios, dos quais 15 mil sem um único
banheiro. Essa combinação, aliada às chuvas
que caem nesta época do ano, é o que explica o surto
de meningite viral que ataca a cidade. Desde outubro do ano passado
foram registrados cerca de 800 casos, sendo que mais de 300 apenas
em janeiro. "É o maior surto dos últimos dez
anos", afirma Eliane Aboim, coordenadora executiva de Saúde
municipal. Uma das formas de contaminação é
a fecal-oral. Ou seja, as fezes do doente, contendo o vírus
da meningite, se espalham pelos locais sem saneamento e os vírus
se proliferam contaminando quem entra em contato com as águas.
A maioria dos casos é atendida no HDIC, centro de referência
do Piauí, mas que recebe também portadores das mais
diversas moléstias vindos de Estados vizinhos como o Maranhão.
Na quarta-feira 2, o hospital se transformou num caos. Seus 137
leitos estavam lotados e não havia capacidade para atender
os mais de 50 casos que chegaram ao local. Nesse dia, Dorotéia
Martins acompanhava o filho Elton, cinco anos, com meningite. "Ele
não me deixa nem almoçar. Quer que eu fique grudada
o tempo inteiro." Como os exames que são feitos para
detectar se a meningite é viral ou bacteriana demoram cerca
de cinco dias para ficarem prontos, todos os pacientes são
tratados com antibiótico preventivamente. O atendimento no
hospital, porém, é precário. As mães
ficam amontoadas com os filhos em quartos que chegam a ter até
dez pacientes. O banheiro é coletivo e fica dentro do quarto,
não há ventiladores e o estoque de antibiótico
(ampicilina) esteve ameaçado. O hospital, inclusive, recebeu
até um paciente com febre amarela: o caminhoneiro baia-no
Rômulo Passos, 27 anos. Ele viajava do Pará em direção
a Petrolina, em Pernambuco, quando começou a sentir febre,
sensação de cabeça pesada, diarréia
e fraqueza. "Nunca tomei vacina", conta.
Para conter o avanço da meningite, a Fundação
Municipal de Saúde de Teresina promove campanhas educativas,
criou um serviço telefônico de informação
e distribuirá hipoclorito de sódio para esterilizar
a água. "Poderíamos fazer mais. Só que
falta dinheiro", lamenta Eliane Aboim. Perto do Piauí,
o cenário não é muito diferente. Em janeiro,
no Recife, o presídio Aníbal Bruno passou por um surto
de cólera que custou a vida do detento Emanoel Gomes de Oliveira,
32 anos. Houve 300 casos suspeitos da doença, que também
está ligada à falta de saneamento básico e
a maus hábitos de higiene. O preso Marco Antonio de Melo,
39 anos, foi uma das vítimas e ficou três dias internado
num hospital: "Comecei a passar mal depois de ter comido um
peixe no almoço", diz. Foram encontrados dois focos
do vibrião da cólera no presídio: no esgoto
e numa cela do pavilhão A. Na cela, o microrganismo foi encontrado
na água que os presos armazenam em tanques improvisados.
Essa prática é comum no local por causa de um problema
crônico no Recife: a falta de água. Na cidade, onde
só 18% dos moradores dispõem de rede de saneamento,
é comum o uso de carros-pipas e de poços artesianos
para abastecer as residências e o comércio, que recebem
água encanada a cada quatro dias. No presídio, a água
só chega uma vez por semana e o abastecimento é reforçado
por três poços artesianos. Para evitar novos casos
de cólera, a direção ordenou que se fizesse
um redimensionamento da capacidade do esgoto e passou a distribuir
hipoclorito de sódio para colocar na água. "Infelizmente,
só tomamos medidas depois que o ladrão arromba a porta
e leva tudo", admite o coronel Geraldo Severiano da Silva,
superintendente do Sistema Penitenciário de Pernambuco.
O que aconteceu no presídio, no entanto, é uma pequena
amostra do que se passa do lado de fora dos muros. Somente em 1999,
Recife registrou 2.315 casos de cólera, o dobro do que foi
constatado em 1998. E isso depois de ter passado por um surto em
1993 que atingiu quase dez mil pessoas e causou 137 mortes. O bairro
mais atingido no ano passado foi o de Brasília Teimosa, com
39 casos. O local, que leva esse nome por ter sido fundado à
época da inauguração de Brasília e pela
luta travada com o governo para a ocupação da área
(depois de muita "teimosia" eles ergueram as casas), abriga
um dos lugares mais pobres do Recife. São mais de 500 palafitas
que ficam na orla, onde moram quase duas mil pessoas. Nas casas
não há banheiro, nem cestos de lixo, nem torneira,
nem nada que se assemelhe a condições de vida digna.
E o rastro de doenças percorre o País. Em Alagoas,
só este ano já são 113 notificações
de casos de cólera. Em 1999, foram 838, com cinco mortes.
No Rio, o panorama também é lamentável. No
ano passado, houve 8,7 mil casos notificados de dengue e mais de
dois mil de meningite. Neste ano, os casos notificados de meningite
já são 99. Entre os fluminenses, a tuberculose também
atingiu mais de 12 mil pessoas no ano passado. E, na Amazônia,
seis milhões de habitantes estão expostos à
malária. Infelizmente, as causas desses números são
conhecidas. "É notório que o governo prefere
saciar seus desejos capitalistas de ascensão ao poder e autopropaganda
a investir na saúde e na educação", afirma
Marcos Boulos, professor da Universidade de São Paulo (USP).
"Essas doenças são um problema sistêmico
que há vários governos atrasa o Brasil", completa
Vasco de Lima, um dos diretores do Hospital Emílio Ribas,
em São Paulo. Contundente, as críticas dos médicos
são compartilhadas por outros especialistas. "Gasta-se
muito com medicina para tratar doenças e pouco com medicina
preventiva", diz Delsio Natal, professor da USP. Os médicos
também lamentam o péssimo hábito das autoridades
em agir somente quando o problema ganha dimensões maiores.
"Em relação à febre amarela, por exemplo,
deveria haver o combate do mosquito transmissor da doença.
Campanha emergencial não resolverá o problema",
opina Carlos Osanai, epidemiologista da Fundação Oswaldo
Cruz, no Rio.
Apesar da gravidade do problema, o Ministério da Saúde
se enrosca em dificuldades até para levantar, de fato, o
tamanho das doenças no Brasil. Na terça-feira 1º,
ISTOÉ solicitou à Fundação Nacional
de Saúde os números totais de casos de vários
males que assolam o País nos últimos anos. Até
a quinta-feira 3, a entidade ainda não tinha pronto o levantamento.
Pior, ninguém da fundação ou do Ministério
da Saúde respondeu a ISTOÉ para explicar as ações
do governo para controlar essas doenças. "Até
nós, médicos, ficamos sem acesso a informações
imprescindíveis para nosso trabalho. Sem a dimensão
correta do problema nenhuma medida de controle será eficiente",
critica Marcelo Burattinni, infectologista da Faculdade de Medicina
da USP.
Colaboraram: Marina Caruso (SP) e Francisco Alves Filho (RJ)
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TEM
REMÉDIO
Algumas
das doenças que castigam o Brasil e que poderiam ser
evitadas
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Cólera
Transmissão
Ingestão de alimentos ou bebidas que tenham contato com
água contaminada com a bactéria Vibrium cholerae
(presente nas fezes depessoas infectadas)
Prevenção
A vacina é disponível para quem viaja a regiões
endêmicas e tem eficácia aproximada de 60%. Lavar
bem os alimentos e beber água descontaminada com cloro
ou fervura prolongada
Sintomas
Diarréia aquosa e vômito. Nos casos graves perdem-se
até 20 litros de água por dia. A desidratação
pode causar a morte em 24h
Solução
Saneamento básico.
O tratamento dos dejetos humanos e o fornecimento de água
potável são indispensáveis no combate à
cólera |
Dengue
Transmissão
Pelo mesmo mosquito da febre amarela urbana, o Aedes aegypti.
Só que no caso da dengue, o Aedes pode transmitir quatro
tipos diferentes de vírus causadores da doença
(tipos 1, 2, 3 e 4)
Prevenção
Não há vacina. Evitar o acúmulo de recipientes
com água parada e usar inseticidas em locais com mosquitos
transmissores são as melhores formas de prevenção
Sintomas
Febre alta, dor de cabeça e no corpo. Se a pessoa é
infectada novamente por outro
tipo do vírus, a doença pode aparecer na forma
hemorrágica, que algumas vezes leva à morte
Solução
Pulverização, campanhas de esclarecimento sobre
a doença. Mais verbas deveriam ser destinadas à
pesquisa para o desenvolvimento de uma vacina |
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Febre
amarela
Transmissão
A silvestre é transmitida pelo mosquito Haemagogus,
que pica macacos com a doença e contamina humanos.
A urbana é transmitida entre humanos pelo mosquito
Aedes aegypti
Prevenção
A vacina tem eficácia de 90%, é indicada a quem
viaja ou mora em regiões endêmicas. Evitar deixar
recipientes que acumulem água (meio de cultura dos
mosquitos) também é importante
Sintomas
Vômito, dor no corpo, febre e pele amarelada. Em estágio
avançado, provoca hemorragias e lesões no fígado
e no rim, que podem levar à morte
Solução
Além de aplicação de inseticida, campanha
para se evitar o acúmulo de água parada e vacinação
abrangente nas áreas de risco
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Leptospirose
Transmissão
Pela bactéria Leptospira sp presente na urina dos ratos.
As epidemias ocorrem mais em épocas de enchente, quando
há contato com águas sujas pela urina do animal
Prevenção
Evitar contato com enchentes e lugares infestados de ratos.
Pessoas que trabalham com esgoto devem usar roupas impermeáveis
Sintomas
Febre, dores no corpo calafrios e vômito. Podem surgir
insuficiência renal, hepática e respiratória,
que podem levar à morte
Solução
Acabar com enchentes. Medidas para o controle da população
de ratos e a limpeza de terrenos baldios são importantes
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Malária
Transmissão
Fêmeas dos mosquitos Aenopheles transmitem quatro diferentes
espécies do protozoário Plasmodium
por meio de picadas
Prevenção
Não há vacina. Evitar proximidade com ambientes
hídricos, usar roupas de manga comprida e repelente no
entardecer (quando o mosquito ataca)
Sintomas
Dor de cabeça, calafrios, febre intermitente (que vai
e volta)
Solução
Controle da migração de pessoas infectadas; medidas
de combate ao mosquito |
Meningite
bacteriana
Transmissão
Tipos distintos da bactéria meningococo provocam a
inflamação da meninge (membrana que reveste
o cérebro) depois de entrarem pela via respiratória
Prevenção
Existem vacinas contra os tipos A-B e A-C da bactéria
meningococo. Evitar contato com pessoas doentes e procurar
um médico quando isso ocorrer
Sintomas
Dor na nuca, dor de cabeça, vômitos e febre alta
Solução
Aumentar a cobertura de vacinação
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Meningite
viral
Transmissão
Diferentes vírus chegam ao corpo pela via respiratória
ou por água contaminada
e provocam a inflamação da meninge
Prevenção
Alguns tipos possuem vacina, como as provocadas pelo vírus
da caxumba. Contra as outras, após contato com pessoas
doentes procurar um médico
Sintomas
Dor na nuca, dor de cabeça, vômitos e febre alta
Solução
Aumentar a cobertura de vacinação e ampliar
medidas de saneamento básico
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Tuberculose
Transmissão
Via respiratória. Pessoa infectada elimina o bacilo
Mycobacterium tuberculosis no ar quando expira. Outra pessoa
que respire o mesmo ar pode ser infectada
Prevenção
Vacina que deve ser administrada no primeiro mês de
vida. Tem eficácia de 80% a 90%
Sintomas
Febre vespertina, perda de peso e tosse. Se
a doença for mal curada, as bactérias podem
atacar outros órgãos além do pulmão.
Pode levar à morte
Solução
Ampliar vacinação
e medidas para garantir aumento da aderência ao tratamento,
para que a bactéria não crie resistência
às drogas
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