CAPA
O
poder da mente
|
DUKE
UNIVERSITY
|
 |
O
cientista brasileiro Miguel Nicolelis tente criar elo
biônico entre o cérebro
e uma prótese mecânica |
|
Nascidas na floresta Amazônica, com hábitos noturnos
que justificam seu nome, duas fêmeas da espécie macaco-coruja
representam o maior tesouro do laboratório de neurobiologia
da Universidade Duke, na Carolina do Norte. Com menos de dois quilos
e córtex motor semelhante ao humano, as macacas são
a segunda fase de uma pesquisa que provocou uma revolução
entre neurologistas americanos. Os dóceis animais comprovaram
o que meia dúzia de ratos havia demonstrado antes: é
possível mover um braço mecânico e tocar objetos
usando a força do desejo.
Com 100 eletrodos conectados ao cérebro, as macacas conseguiram
controlar a distância um braço robótico. A máquina
recebia os impulsos elétricos neurais através de ondas
de rádio emitidas a partir de um aparelho controlado pelo
cérebro. As macaquinhas aprenderam a usar, em tempo real,
o estímulo nervoso do cérebro para empurrar uma alavanca
distante, que acionava um bebedouro de onde pingava uma gota d'água
como recompensa. As macacas usaram apenas os estímulos neurais
responsáveis pela motricidade. A conclusão é
um sopro de esperança para um paciente paraplégico
aproveitar suas células neurais sadias para acionar próteses
biônicas controladas por ondas de rádio.
O responsável pela boa notícia é um paulistano
e palmeirense frequentador assíduo de cantinas italianas.
Miguel Nicolelis, que mora na americana Durham há "longos
11 anos", é professor do departamento de neurobiologia
da Faculdade de Medicina e chefia as experiências na Universidade
Duke. Seu colega, o americano John Chapin, repetiu a mesma bateria
de testes feita por Nicolelis. Dessa vez, estudou uma outra ninhada
de ratos na Escola de Medicina Hahnemann, na Filadélfia.
O resultado virou tratado científico em julho de 1999, quando
foi publicado na respeitada revista Nature Neuroscience. "Demonstramos
pela primeira vez que se pode criar um meio de comunicação
para transformar a atividade elétrica do cérebro em
movimento mecânico", traduz Nicolelis. "É
a tão sonhada interface entre o homem e a máquina."
Pai de três meninos e casado com uma ex-colega da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo, o neurologista
de 38 anos faz parte da elite dos neurocientistas. "Assim como
outros cientistas brasileiros que vivem fora, meu trabalho continua
praticamente desconhecido no Brasil", reclama o professor,
cuja proeza foi uma ousadia notável. Em vez de implantar
um único eletrodo num orifício feito no cérebro
das cobaias, como os demais cientistas faziam, Nicolelis e Chapin
introduziram 16 eletrodos em cada orifício de 2 milímetros.
Com isso, acompanharam a atividade de centenas de neurônios
ao mesmo tempo, através de vários buraquinhos feitos
na caixa craniana dos animais. "Deu para analisar o córtex
motor como se fosse um minitelescópio cerebral em busca de
estrelas, que são os neurônios", compara o professor
Nicolelis.
Foi desse mergulho nas entranhas do cérebro que surgiu a
idéia de ligar células nervosas a próteses
mecânicas. Os primeiros resultados indicam que o projeto pode
ser viável em humanos. "O cérebro funciona como
um circuito elétrico contínuo. Primeiro há
a intenção do movimento, aí vem o planejamento
e só depois as células nervosas enviam a ordem para
determinado músculo exercitar uma ação",
ensina o professor-titular Milberto Scaff, chefe do departamento
de neurologia da Faculdade de Medicina da USP e antigo mestre de
Nicolelis. Obcecado, Nicolelis trabalha há quase uma década
para aprimorar seu telescópio cerebral. Pretende colecionar
mais dados para saber como construir um aparelho que funcione como
via biomecânica de comunicação entre os sinais
do cérebro e a prótese. Até final do ano, o
neurologista espera publicar os resultados de suas pesquisas em
artigo científico. "Ainda vão uns dez anos para
a interface biomecânica virar realidade", diz Nicolelis.
Enquanto isso, ele tenta recolher resultados práticos. Aproveitou
meia dúzia de ratos com 50 eletrodos implantados no cérebro
e descobriu uma forma de evitar crises epilépticas enviando
estímulo elétrico para o nervo trigeminal, responsável
pela mastigação e outros movimentos faciais. Ao receber
os sinais, os ratos deixaram de ter crises. "O implante detecta
a chegada da alteração elétrica e da crise
e só aí estimula o nervo", garante Nicolelis.
Sua técnica não foi ratificada pela comunidade científica
ainda porque os resultados serão publicados em revista especializada
apenas em março.
Sua
experiência não é a única técnica
de alívio da epilepsia, doença que afeta 1% da população,
cerca de 1,6 milhão de brasileiros. Nos EUA e na Europa,
existem empresas que vendem implantes digitais para aplacar as crises.
A Cyberonics é uma delas. Seu sistema é composto por
um chip implantado no cérebro, que é abastecido de
energia por um gerador fixo no peito. A geringonça funciona
como um marca-passo inteligente, enviando corrente elétrica
para estimular o nervo vago, um dos responsáveis pela digestão.
Na realidade, ninguém sabe ao certo por que determinados
procedimentos funcionam e outros não. Talvez por isso, mais
uma vez, o cérebro, centro das sensações e
das atividades mentais humanas pode abocanhar a mais gorda fatia
do orçamento reservado à pesquisa cientifica da próxima
década.
Leia também:
Quase um homem biônico
De Marte ao consultório
|