CAPA
| AMÉRICO
VERMELHO |
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Christine
Niemeyer marcou ponto na praia: "Quem reclama tem
inveja"
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O verão
do topless
A moda
dos seios de fora é liberada no Rio depois que a polícia
reprime uma banhista em clima de show
Valéria
Propato
Houve o verão da barriga grávida de Leila Diniz.
Da tanga de crochê de Fernando Gabeira. Das latas de maconha
prensada lançadas ao mar. Do arrastão promovido por
gangues de favelas. Do apito que maconheiros de plantão sopravam
quando a polícia aparecia. Para batizar um verão,
a criatividade do carioca parece não ter fim. No ano 2000
não será diferente. Este, sem dúvida, vai ser
o verão do topless. Seios de fora foram liberados nas areias
cariocas para quem tiver - ou não - o que mostrar. Na quarta-feira
19, o secretário de Segurança Pública do Estado,
Josias Quintal, fez publicar no Diário Oficial do Estado
do Rio de Janeiro portaria determinando que a Polícia Militar
não reprima as banhistas que ousarem ir à praia sem
a parte de cima do biquíni. Em outras palavras, liberou geral.
A heroína dessa conquista feminina é a representante
comercial Rosimeri Moura Costa, 34 anos. Três dias antes,
ela havia, literalmente, peitado mais de 20 PMs armados reivindicando
o direito de bronzear-se sem o sutiã na Reserva Biológica
do Recreio, zona oeste do Rio. O detalhe é que a operação
poli-cial - comandada pela 7ª Companhia Independente da Polícia
Militar a pedido de banhistas que se sentiram incomodados com os
seios de Rosimeri - foi comunicada por uma fonte da PM à
Rede Globo. Os policiais esperaram pacientemente a equipe de reportagem
chegar para armar o circo. Na frente das câmeras, Rosimeri
teve o braço torcido e foi arrastada para a delegacia de
polícia mais próxima. Embora não haja nenhuma
referência explícita ao topless no Código Penal,
elaborado em 1940, época em que as mulheres frequentavam
as praias com pudicos maiôs, Rosimeri foi autuada com base
no artigo 233, que considera crime a prática de ato obsceno
em lugar público.
Para muitos advogados, o enquadramento foi tecnicamente correto.
"Enquanto o código estiver vigente, ele deve ser acatado",
afirmou o presidente da Associação Brasileira dos
Advogados Criminalistas, Luiz Flávio Borges D'Urso. O problema
é que, como não especifica o que seja ato obsceno,
a lei sugere ampla interpretação. "Ela pode permitir
a assimilação de novos costumes e também dar
abertura para que preconceitos e valores pessoais sejam externados",
explica a procuradora do Estado e professora de Direito Constitucional
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo Mônica de Melo. As autoridades, entretanto, preferiram
ficar do lado de Rosimeri. O governador Anthony Garotinho chegou
a pedir desculpas pela truculência dos agentes da lei. "Foi
um exagero. Não há nenhuma orientação
do governo para combater isso à bala", disse. O prefeito
Luiz Paulo Conde foi mais longe e prometeu liberar por decreto áreas
para a prática de nudismo. "Não vejo nada de
mal e não tem erotismo nisso. E quem quiser, pode fazer topless",
tranquilizou Conde. O cardeal-arcebispo do Rio, dom Eugênio
Salles, entretanto, não engoliu essa liberação
toda e esbravejou durante entrevista após a missa de São
Sebastião do Rio de Janeiro, realizada no dia 20, aniversário
da cidade. Para ele, a prática do topless e a idéia
de se criar uma área de nudismo é absolutamente infeliz.
"Isso só vem aumentar os males que nos afligem. Há
tantos problemas a serem resolvidos por nossos governantes que eles
não deveriam criar mais um como este", disse. Logo após
a declaração do cardeal, Anthony Garotinho voltou
atrás em suas idéias liberais. O governador afirmou
nunca ter sido a favor do topless, mas sim contrário ao armamento
pesado para reprimi-lo. "A PM poderá ser acionada se
alguém se sentir incomodado, mas não agirá
com violência", ressaltou.
Protesto
Bastou Rosimeri ser reprimida cinematograficamente para que mulheres
e mocinhas, com a típica irreverência carioca, desamarrassem
o sutiã em protesto. "É ridículo que a
polícia se preocupe com isso. E as banhistas que reclamam
têm inveja", alfinetou a modelo Christine Niemeyer, 35
anos, que fez plantão na praia exibindo os dotes que a natureza
lhe deu. "Esse foi o grande mico do verão. A polícia
só quis chamar atenção", esperneou a atriz
e cantora Daniele Daumerie (a moça da capa e ex-mulher do
cantor Lobão), 31 anos. Até quem nunca tinha experimentado
exibir os seios em público curtiu a liberdade. "Criei
coragem. Não vejo nada demais em mostrar uma das partes mais
bonitas do corpo da mulher", diz a estudante Paula Moretti,
26 anos.
No Posto 9, um grupo de estudantes cobriu os seios com cartazes
de protesto: "Mulher de peito tem que ter respeito; No meu
corpo mando eu; Abaixo a hipocrisia." Alguns homens entraram
na briga e vestiram os sutiãs das amigas. Outros, assanhados,
gritavam "tira, tira, tira tudo". Ninguém jogou
pedra ou foi expulso, como acontecia na década de 80 com
mulheres que se atrevessem a tirar o sutiã. "O Rio sem
topless é muito suburbano", pixou o poeta Guilherme
Zarvos, 42 anos. "Coisa bonita é para se ver",
resumiu o aposentado José de Oliveira, 65 anos. A manifestação
das adolescentes, claro, foi em Ipanema, berço das principais
transformações comportamentais do País nos
últimos 30 anos. Só que, há três décadas,
a arte de exibir os seios nas areias escaldantes era um hábito
cultivado por gente tida como excêntrica ou no mínimo
exibicionista na ótica da maior parte da população.
Na época, o topless integrava uma pauta de reivindicações
que incluía, entre outros temas explosivos, o amor livre
e a liberação do uso de drogas.
Bem-comportadas
No verão do ano 2000, o gesto de mostrar os seios no meio
de banhistas não é privilégio de nenhuma vanguarda.
É protagonizado por pessoas bem-comportadas e que vivem longe
dos arroubos modernistas dos intelectuais da zona sul - Rosimeri
mora em Anchieta, na zona norte do Rio. "É uma evolução.
Mulheres simples, que não fazem bronzeamento artificial nem
desfilam no Sambódromo, estão ultrapassando os limites
da sexualidade reprimida. E os homens estão apoiando",
festeja o sexólogo ca-rioca Marcos Ribeiro, autor do livro
Sexo e mistério. "Isso não aconteceu antes porque
o movimento feminista não atingiu as classes populares. A
entrada no mercado de trabalho e a discussão da sexualidade
provocada pela Aids é que fizeram as mulheres encarar o corpo
com mais naturalidade", acrescenta Ribeiro. Fernando Gabeira,
que abandonou suas performances no Posto 9 para virar deputado federal
pelo PV e conseguiu aprovar um anteprojeto que regulamenta o naturismo
no Brasil, também comemora a mudança. "Houve
um avanço inegável na sociedade. A coisa mudou. Mas
ainda há muito a fazer. A cabeça dos policiais que
reprimiram o topless na praia é uma espécie de bomba-relógio
prestes a explodir contra a cidade", afirma.
Rosimeri passou um bom tempo praticando topless na piscina de sua
casa. Há quatro meses, resolveu ficar mais natural também
na praia, na companhia do namorado, Antonio Saraiva, 62 anos, e
dos dois filhos adolescentes. "Trabalho de segunda a sexta-feira
e não vejo nada de mais em estar à vontade no fim
de semana", observou Rosimeri. "Os peitos das mulheres
aparecem em revista, televisão, escola de samba. É
inacreditável que nos tenham prendido por causa disso",
queixou-se Saraiva, que também foi agredido por defender
a amada. Depois dessa confusão, ele ficou tão orgulhoso
da namorada que resolveu pedi-la em casamento.
Solução
A liberação do topless e a criação
de áreas de nudismo parecem ter sido a melhor solução
que Garotinho e Conde encontraram para proteger a imagem e o bolso
da cidade. O governo da Bahia aproveitou a oportunidade para tirar
uma casquinha do episódio, publicando nos principais jornais
do País na quinta-feira 20 um anúncio de meia página
onde aparece uma índia seminua, com o dizer "Topless
na Bahia pode desde 1500."
Os turistas estrangeiros não aprovaram nem um pouco a hostilidade
policial contra Rosimeri. E o Rio está cheio deles. Em 1999,
dois milhões de estrangeiros desembarcaram na cidade e a
expectativa é de que esse número cresça 30%
em 2000. Até o Carnaval, deverão entrar na cidade
pela mão da turistada US$ 120 milhões. "As pessoas
devem ser livres para fazer o que querem. Vim para o Brasil em busca
de liberdade e é uma vergonha o que vi aqui. Não combina
com o Rio", reclamou o estudante israelense David Cohen, 24
anos, cabelo pintado de violeta. "Fui assaltado com uma faca
em Copacabana e não tinha um policial por perto. Agora já
sei onde eles estavam. Isso repercute muito mal. Na Europa o topless
e o nudismo são comportamentos naturais", lamentou-se
o inglês Keath Pirelli, 46 anos. Se voltar ao Brasil, Pirelli
vai ter uma boa surpresa. Na próxima semana, o prefeito Luiz
Paulo Conde deve assinar decreto criando uma praia de nudismo -
o local ainda não foi definido - com guarita, placa informativa
e guardas municipais.
Não
é difícil entender por que o nu ainda provoca tanta
polêmica no Brasil. Existe entre os brasileiros um costume
arraigado de ver a sexualidade como único atributo do corpo.
"É muito difícil para o brasileiro desvincular
o corpo de sua função sexual. O corpo nu é
a promessa de um relacionamento sexual sempre", declara a antropóloga
da Escola de Comunicação da UFRJ Ilana Strozemberg.
A estudante Monique Evelin, 25 anos, já decidiu que irá
mudar de areia quando topar com um par de peitos sem sutiã.
"É vulgar. A praia está cheia de crianças
e não acho legal", confessa. O psicólogo paulista
Mauro Hegenberg não vê mal nenhum na prática
do topless. "A mulher está apenas exercitando a sua
sexualidade, o prazer de ser olhada, admirada. Quem ataca certamente
sente inveja dessa felicidade, tem dificuldade de usufruir de sua
própria sexualidade", opina. Entre as mulheres, Monique
também parece estar mais para exceção que para
a regra. A julgar pelos comentários entre um mergulho e um
chope, o topless vai esquentar a praia neste verão. E as
mulheres já se preparam para enfrentar a concorrência.
"Me aguardem, porque agora que liberou vou caprichar no silicone.
Quero deixar o meu seio empinado também quando estou deitada",
planeja a atriz Daniele Daumerie. Com essa deixa de Daniele, dá
para prever que o verão de 2001 promete ser ainda mais sensual
e tem grandes chances de ganhar o apelido de verão do silicone.
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bons tempos rebeldes
A onda do topless aportou por aqui ainda no início
da década de 70, quando algumas das frequentadoras
mais ousadas do píer da praia de Ipanema, como
a modelo Monique Evans, escandalizavam ao tomar sol
sem a parte de cima do biquíni. Mas foi no verão
de 1980 que o topless ganhou fama nas praias brasileiras.
"A primeira vez que fiz topless foi por acaso",
conta a produtora Patrícia Casé. Ela tirou
o sutiã para livrar-se de um lacinho que a estava
machucando.
Eu, o Caetano (Veloso) e a turma estávamos no
Posto 9 e ninguém reparou que eu estava sem o
sutiã. Aí, minha irmã (a atriz
Regina Casé) apontou e falou: 'Ih, olha lá
minha irmã.' Aí todo mundo começou
a reparar", lembra ela. Depois desse dia, Patrícia
aderiu de vez ao topless. "Mas a polícia
caiu matando. Afinal, vivíamos um momento de
transição entre a ditadura e a abertura",
conta.
Patrícia não foi a única perseguida.
Naquele mesmo ano, a gaúcha Verônica Mieski
foi vaiada e expulsa de Ipanema sob os gritos de "Geni",
a prostituta da música de Chico Buarque, e Isabel
Cristina Rosa Amorim enfrentou banhistas inconformados
com seus seios à mostra, que atiraram latas de
cerveja, copos e areia.
A
evolução da sensualidade
1874 A roupa de banho cobria a mulher da cabeça
aos pés, o que na verdade a impossibilitava de
nadar
1920 As calças são trocadas por
uma espécie de saia. É nessa década
que as mulheres se libertam mais e Coco Chanel "inventa"
o bronzeado, o que antes era considerado um tributo
de classes baixas
1946 O engenheiro mecânico francês
Louis Reard, que tomava conta do ateliê de sua
mãe, escandaliza o mundo com duas peças
mais ousadas - as quais ele batizou de biquíni
por causa dos testes atômicos no Atol de Bikini,
nas Ilhas Marshall
1950 Embora usado por estrelas como Marilyn
Monroe, Brigitte Bardot e Anita Ekberg, o biquíni
ainda era considerado roupa de strippers. Os biquínis
ficaram maiores e ainda assim foram banidos de muitas
praias da Europa
1960 Apesar de usado pelas atrizes do teatro
rebolado já nos anos 50, o biquíni explode
nas praias cariocas nessa década para logo em
seguida ser proibido pelo presidente Jânio Quadros
(é a lei Suntuária). Em 1964, surge nos
EUA o monoquíni, uma espécie de calcinha
com suspensórios e os biquínis entram
definitivamente na moda. As francesas inventam o topless,
tendo La Bardot como inspiração. A moda
logo se espalha pela Espanha e Itália
1970 A manequim Rose di Primo cria a tanga
por acidente. Ela foi fazer seu próprio modelo
e errou o corte. A moda da tanga revolucionou a confecção
de roupa de banho no mundo inteiro e projetou a beleza
da mulher brasileira. No final dessa década,
o topless se torna mais popular e chega ao Brasil
1980 Os modelos fio dental e asa delta são
as novas manias das praias brasileiras
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Colaboraram: Angela Oliveira, Cláudia Amanda, Lu Gomes,
Rita Moraes (SP), Liana Melo e Paulo César Teixeira (RJ)
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