Nº 1539 – 31 de março de 1999 

Foto: MARCELO MIN

DOIS PESOS Leonardo não emagreceu, mas seu pai, Leonardo Coutinho, diminuiu quatro quilos

M E D I C A M E N T O S
A febre do Xenical
Há três meses no Brasil, o remédio virou mania nacional, mas não funciona em todos os casos

 

MARINA CARUSO

Desde o dia 11 de janeiro, quando passou a ser comercializado no Brasil, o Xenical tornou-se a febre do verão. Prometendo ser uma das fórmulas mais milagrosas contra os quilos a mais, o remédio chegou para dominar o mercado. Estima-se que a venda do mês de janeiro tenha sido em torno de 285 mil caixas. Embora o laboratório Roche, fabricante do remédio, não divulgue os números do últimos meses, sabe-se que a empresa está vendendo mais do que o esperado. E o motivo de tamanha procura se justifica. De acordo com o IBGE, 40% da população brasileira está acima do peso, e 32% é obesa. Mas, apesar de eficiente, o medicamento nem sempre responde às expectativas. Ou seja, para alguns casos o Xenical simplesmente não funciona.

Em primeiro lugar, ele é indicado principalmente para pacientes obesos. O que significa ter a massa corpórea (IMC) superior a 30. Para pacientes com excesso de peso (IMC em torno de 25) o tratamento é desaconselhável. "Nesses casos o ideal é a uma dieta levemente balanceada e pobre em calorias, pois não existe a necessidade de expor o paciente ao uso de remédios" explica Antônio Roberto Chacra, endocrinologista titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Além disso, os fanáticos por doces e massas não levam muita vantagem. É fácil entender por quê. O Xenical age bloqueando a absorção de 30% das gorduras ingeridas, por meio da inibição da enzima lipase, responsável pela digestão das gorduras. Assim, pacientes que costumam ingerir compotas e geléias (doces com pouca gordura) ou mesmo pães e massas não sentirão grandes efeitos.

Foto: EPITÁCIO PESSOA

Gugu Liberato tomou o medicamento antes de chegar ao País e perdeu dez quilos

O Xenical, portanto, cumpre uma função específica dentro de um regime de emagrecimento. E, de acordo com especialistas, de nada adianta tomar caixas e caixas do medicamento (que, aliás, pesa no bolso. A caixa com 42 cápsulas custa R$ 118 e a com 84 cápsulas, R$ 213) sem que se esteja sob acompanhamento médico e seguindo uma dieta leve. "Se o paciente deixar de absorver gorduras, mas continuar comendo carboidratos e açúcares é claro que o efeito do remédio não será satisfatório", explica Walmir Coutinho, vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos da Obesidade (Abeso). A dieta ideal segundo o endocrinologista Alfredo Halpern, presidente da Abeso, é uma alimentação pobre em gordura e deficiente em calorias. "Ninguém emagrece só tomando o remédio, e as calorias devem ser balanceadas de acordo com cada caso, por isso a importância do acompanhamento médico", justifica Halpern. A psicóloga Maria da Glória Pacheco é a prova de que o Xenical não funciona sem a dieta. Depois de ter perdido nove quilos em seis meses, seguindo uma dieta hipocalórica e tomando outro medicamento, Maria da Glória foi viajar e durante dois meses não apareceu no endocrinologista com quem se tratava. Nesse meio tempo, ela ouviu falar do sucesso do Xenical e decidiu tomar o remédio por conta própria. "Eu fiquei tão tranquila porque estava tomando o remédio que achei que podia comer de tudo. Com o tempo, fui vendo que minhas roupas estavam apertadas. Conclusão: engordei três quilos", lamenta Maria da Glória.

Outros exemplos da variação do Xenical são os do operador de turismo Leonardo Coutinho e de seu filho, Leonardo Coutinho Filho. O pai está tomando o medicamento há 40 dias e já perdeu quatro quilos, mas seu filho tomou durante 15 dias e não sentiu grandes mudanças. Ambos foram a um clínico-geral que prescreveu o mesmo tratamento para os dois: Xenical e dieta leve. Segundo Coutinho, o remédio não funcionou com seu filho porque ele não seguiu a dieta. Mas Leonardo se defende: "Quando eu faço regime, costumo emagrecer quatro ou cinco quilos. Não acho que o Xenical tenha me ajudado." Leonardo continua pesando 125 quilos.

Foto: RICARDO GIRALDEZ

Solange emagreceu bastante, mas reclama dos efeitos colaterais

Sem dependência
Mas, apesar de não funcionar em todos os casos, o sucesso do Xenical é incontestável. Uma das principais razões disso se deve à maneira pela qual ele age. Ao contrário de outros remédios para emagrecer, a maioria derivada da anfetamina, o Xenical não atua no sistema nervoso central, e sim no intestino. Ou seja, o remédio não interfere nos centros da fome, mas na absorção da gordura no intestino delgado. Assim, o paciente não perde a fome, não cria dependência ao medicamento e deixa de absorver 30% do total de gordura ingerida. E nesse processo são eliminados também algumas calorias e colesterol, cujos excessos são um fator de risco para as doenças do coração. Mas, como nada é perfeito, o Xenical também tem efeitos colaterais, sendo que o principal é a diarréia, já que a gordura passa pelo intestino sem ser digerida. Alguns especialistas acreditam que esse processo possa ser prejudicial à saúde. "O medicamento não deve ser receitado à toa. A gordura é uma das principais causas do câncer de cólon (intestino grosso). E pelo fato de estar deixando de absorver parte da gordura ingerida é como se o paciente sofresse de má digestão, o que pode contribuir ainda mais para esse quadro", explica o clínico-geral Aparecido Zatari Haddad, de São Paulo. Outro efeito colateral é a queda nos níveis de vitaminas A, D, E e K, pois precisam de gordura para serem absorvidas. "Além disso, é preciso atentar ao fato de o Xenical não ter sido liberado pela Food and Drug Administration (FDA), órgão americano que controla medicamentos e alimentos. Ainda existem suspeitas de desenvolvimento de câncer de mama", lembra Haddad. "Dentro desse quadro eu acredito que o paciente sofra menos riscos fazendo apenas a dieta leve", complementa.

Nem todo mundo, entretanto, sente efeitos colaterais – nem mesmo diarréias. O apresentador Augusto Liberato (o Gugu) não gosta muito de falar sobre o assunto, mas não esconde que tomou Xenical antes mesmo de o remédio chegar ao Brasil. Em seis meses, Gugu perdeu dez quilos. O regime foi feito sob acompanhamento médico e incluiu uma dieta levemente balanceada e algumas séries de exercícios. E, pelo que se sabe, não houve efeitos colaterais. Não foi o que aconteceu com a decoradora Solange Tavares Guerra. Ela toma o Xenical há três meses e conta que já passou por situações constrangedoras. "A pior delas foi quando eu decidi comer à vontade numa churrascaria. Senti uma dor de barriga muito forte e quase não consegui chegar até o banheiro." Ela já perdeu 13 quilos, mantendo assim grande distância dos 105 quilos que a fizeram buscar o tratamento. "Sem dúvida alguma o Xenical me ajudou, mas faço uma dieta que contribui. Além do remédio, são necessárias força de vontade e disciplina."


 
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