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Prensa Três    
Campeão sul-americano em 1947, Antenor Ferreira da Silva posa ao lado do recordista mundial dos 1.500 metros, Hironoshin Furuhashi, em 1950, no Pacaembu  

Mestres do esporte - Natação
No peito
Por Celso Fonseca

No momento em que a porta da garagem do sobrado na Vila Clementino, zona sul de São Paulo, se abre, o olhar se volta primeiro às paredes forradas por recortes de jornais, fotos e mais de 500 medalhas, registro dos feitos de Antenor Ferreira da Silva, 82 anos, o Pará, um dos pioneiros da natação brasileira e professor de várias gerações entre os anos 50 e 70. Ele se aproxima de uma destas medalhas, com o dourado escurecido pelo tempo, e relembra sua maior glória: o recorde sul-americano de nado livre, nos 1.500 metros, conquistado no Club Gimnasia Y Esgrima de Buenos Aires, em 1947. Lembra que, ao entregar-lhe a medalha, o então presidente argentino Juan Domingo Perón disse que fora “valente”. Seu tempo foi de 20 minutos e 18 segundos. Marca que hoje foi obviamente superada – o atual recorde sul-americano é de 15 minutos, 15 segundos e 05 centésimos. Mas os tempos são mesmo outros. Os atletas nadam, nos treinamentos, pelo menos 80 quilômetros por semana, cercados por técnicos, médicos e nutricionistas. Em sua época, Pará, como Antenor gosta de ser chamado, nadava cinco quilômetros por dia, e quando quebrou o recorde sul-americano nem sequer usava óculos para proteger do cloro. “Era tudo no peito”, diz ele, que nunca ganhou dinheiro nas competições. “Quando me deram um agasalho de presente, fui obrigado a devolver pelo Sylvio Magalhães Padilha, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro. Ele disse que, se aceitasse, seria considerado profissional.”

Hélcio Nagamine
Aos 82 anos, Pará ainda tem fôlego para nadar mil metros todo dia

Pará só ficou chateado quando foi preterido na Olimpíada de 1948, em Londres. “Era para eu ter ido, mas eles preferiram utilizar na natação um jogador de pólo, para economizar. Na verdade fui traído pela Confederação Brasileira de Desporto.” Pará, porém, não se queixa da falta de reconhecimento. Na piscina do Tênis Clube, em São Paulo, há uma placa em sua homenagem. É a mesma piscina em que ele nada mil metros por dia, e depois anda, mais mil metros, em volta dela. Ele nada desde criança. Começou nas piscinas do Corinthians para se livrar de uma bronquite asmática. Pará nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, e veio com a família inteira para São Paulo com dez anos. “Estranho um lugar de seca dar bom nadador”, brinca. Dos 13 irmãos, só ele deu para a natação. A mulher, a professora Valquíria de Abreu Ferreira da Silva, mãe de seus três filhos, detesta água. Fez travessias no rio Tietê, em que ficava na frente de um nadador carioca, João Havelange, presidente da Fifa de 1974 a 1998. “Tive cãibras na chegada, mas ganhei dele em 1943 e 1944”, alardeia. Outro rival foi o nadador Tetsuo Okamoto, primeiro nadador brasileiro a ganhar a medalha olímpica, o bronze em Helsinque, Finlândia, em 1952. “Era meu freguês”, diz Pará, que também foi técnico de Tetsuo. Com 1,68 m, ele fazia de seu forte, mais do que a batida de pernas, o vigor das braçadas. Aponta então para outro feito, registrado pelo jornal interno do Tênis Clube. Quando tinha 62 anos, Pará salvou um garoto que, vítima de uma congestão, se afogava na piscina. “Fiz um boca a boca. O engraçado é que só consegui porque tinha lido dias antes sobre o assunto na revista Seleções.”