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Fotos: Dárcio de Jesus    
No domingo, uma das pista da Sumaré é liberada para pedestres  
O mapa dos parques
 

Desafio urbano
Fé para andar
Caminhar em São Paulo é sempre
difícil. Mas ainda vale a pena
Por Felipe Gil

Andar é a atividade humana mais básica e a primeira a ser recomendada por médicos. “A caminhada, como a corrida, o esqui na neve, a natação e o remo, trabalha todos os grupos musculares ao mesmo tempo e é o melhor esporte para o condicionamento físico e cardiovascular”, ensina Milton Mizumoto, especialista em medicina esportiva. A prática de andar e correr leva vantagem porque não são necessárias piscinas ou viagens a picos nevados. Mas, para correr em São Paulo, é só sair de casa que começam os problemas.

Sem praia nem calçadão, quem não é sócio de clube tem dificuldades de encontrar espaços abertos. São apenas 32 parques municipais, que, segundo o Atlas ambiental do município divulgado pela prefeitura em 2002, acompanham a desigualdade social da cidade – a maioria está nas regiões mais ricas. Além deles, há sete estaduais, contando os dois zoológicos, e a Cidade Universitária. Em uma cidade com mais de dez milhões de habitantes e 1.500 quilômetros quadrados de área, os parques lotam e estão distantes dos usuários. “No fim de semana, é quase impossível treinar no Ibirapuera. Aos domingos, corremos na rua”, afirma Armando Santos, diretor executivo da Corpore (Corredores Paulistas Reunidos), entidade que organiza provas e reúne corredores. Nos fins de semana, o parque recebe cerca de 200 mil visitantes.

As opções são as esteiras ergométricas ou as ruas. E aí, em regiões com grande circulação de veículos, o problema é a emissão de gases poluentes. “A poluição pode agravar doenças cerebrais, cardíacas e respiratórias, além de afetar o condicionamento”, explica Roberto Stirbulov, presidente da Sociedade Paulista de Pneumatologia e Tisiologia. Ainda há o mau estado das calçadas, que são esburacadas, sujas, irregulares e obstruídas. “Tente andar 100 metros ou 100 passos pelas calçadas da cidade sem encontrar riscos de tropeçar ou até cair.” O convite é feito por Philip Anthony Gold, inglês especialista em segurança viária radicado no Brasil há 26 anos. Segundo ele, a façanha é impossível. Em uma pesquisa do ano passado sobre o impacto dos acidentes de trânsito na economia para o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) foram verificadas nove quedas de pedestres por grupo de mil habitantes. A má qualidade das calçadas, cuja responsabilidade é dos moradores, leva os esportistas para o asfalto, o que aumenta o risco de atropelamentos.

Dárcio de Jesus

Calçada esburacada na zona oeste, próximo ao shopping Villa-Lobos: acidentes à vista

Apesar da dificuldade, a prática continua recomendada. “Estudos comprovam que praticar por 40 minutos, cinco vezes por semana, já diminui muito o risco de infarto”, diz Stirbulov. “As chamadas lesões de overuse, causadas pela repetição do movimento, vão ocorrer mais cedo ou mais tarde com atletas de ponta e corredores despreparados. O benefício cardiovascular é tão grande que é melhor praticar de forma incorreta do que ficar parado”, garante Mizumoto.

Alguns projetos da Prefeitura tentam tornar a cidade mais agradável para os corredores e caminhantes, como o Domingo na Paulista. “A idéia é derrubar a cultura do automóvel, pelo menos aos domingos, e incentivar as pessoas a andar”, diz Celso Marcondes, presidente do Anhembi, empresa responsável pela organização do evento. A iniciativa, no entanto, é mais voltada ao lazer e às crianças do que ao esporte. Outro projeto dominical é o Nossa Rua Sumaré, que dá mais espaços para ciclistas e corredores. “É uma forma de dar vazão a uma demanda enorme, utilizando os poucos recursos que temos”, diz o secretário de Esportes, Julio Filgueiras. O programa do candidato José Serra (PSDB) prevê a multiplicação das ruas e praças de lazer em moldes semelhantes aos atuais. O problema é que na segunda-feira já não há interdição.