 |
|
|
Em seu escritório na
zona sul, em SP, Said comanda uma pequena equipe e realiza grandes
disputas, como a recém-encerrada Ecomotion Pro na Costa
do Dendê, na Bahia
|
|
 |
| Corrida de aventura |
| O profissional |
A corrida de aventura se tornou uma
competição ideal para os fartos
recursos naturais do brasil, que já
abriga provas internacionais |
 |
| Celso Fonseca |
Esportes existem para testar limites físicos e psicológicos.
Poucos deles, porém, são tão contundentes quando
o assunto é superação quanto a corrida de aventura.
Criada nos anos 80, pelo francês Gerárd Fusil, reproduz,
através de modalidades como trekking, mountain bike, canoagem
(em botes infláveis), técnicas verticais e até
cavalgadas –, uma espécie de enduro humano que consome
em média dez dias de muito esforço, através
de cerca de 500 quilômetros percorridos entre lugares exóticos,
belos e inóspitos. Durante uma prova, dorme-se pouco ou quase
nada, se enfrentam temperaturas oscilantes e se conhecem o desconforto
físico e a dor. Há que ter muito autocontrole. Curiosamente,
foi o cigarro, Gauloise – marca preferida dos existencialistas
franceses, como o escritor Albert Camus –, que patrocinou
um dos primeiros circuitos do gênero, o Raid Gauloise. Quem
percebeu que a corrida poderia ser um espetáculo televisivo
foi o americano Mark Burnnett, o nome atrás do Ecochallenge.
No Brasil, quem ultimamente tem melhor personificado o esporte –
pelo menos no que diz respeito a sua profissionalização
– é o paulistano de 42 anos Said Aiach Neto, que se
tornou um dos principais responsáveis pela organização
de provas no País. O próprio Said se apressa a atribuir
o pioneirismo idealista a Alexandre Freitas, organizador da Expedição
Mata Atlântica, primeira competição do gênero.
Freitas, no momento, está fora de combate. Ele contaminou-se
com um parasita em outubro de 2002, durante o Ecochallenge nas ilhas
Fiji e foi vítima de grave infecção que deixou
sequelas. Said começou a tomar gosto pelo esporte em 1998,
justamente na primeira Expedição Mata Atlântica,
criada por Freitas.
Hoje, Said organiza eventos de peso planetário, como o Ecomotion
Pro, que aconteceu na semana passada na Costa do Dendê, no
litoral sul da Bahia, e promove provas para iniciantes chamadas
de Short Adventure, realizadas em apenas um dia. A ele mesmo, só
reserva uma hora por dia – 13 quilômetros em 50 minutos
no Parque do Ibirapuera e só. Em seu escritório, na
Ecomotion, com apenas sete funcionários, trabalha intensamente
para tornar a corrida de aventuras um projeto atraente para investidores
e praticantes. “Meus eventos são totalmente seguros,
têm risco zero e tenho o maior cuidado com o impacto ambiental”,
alardeia, lembrando que já fez parcerias com empresas do
porte da Vivo, Fiat, Nestlé e Natura. Para se manter no momento
como principal organizador de corridas de aventura de grande porte
no País, ele não descuida de nada. Define o traçado
das provas detalhadas em mapas confeccionados em papel especial,
que pode molhar e não rasga. Confere a modelagem e a elasticidade
dos coletes de competição. Cuida da enorme lojística
que envolve cada uma das provas. No ano passado, reuniu 164 atletas
do Brasil
e do Exterior, no Ecomotion Pro realizado na Chapada Diamantina,
também na Bahia, tema de um livro recém-lançado.
A um custo, segundo Said, de R$ 1,5 milhão, a prova tinha
um staff de 421 pessoas – todas remuneradas –, o apoio
de dois helicópteros, além de um sofisticado aparato
de comunicação. “Para participar de corridas
de aventura é preciso ser rústico, não ter
certas frescuras. São cinco dias sem tomar banho e se jogando
em qualquer lugar para descansar. Um cara fresco não vai
aguentar”, diz Said, que já dividiu um tacho de arroz
de corda com famílias pobres na Paraíba. Além
da disposição para o desconforto, os praticantes têm,
de acordo com Said, que contar com horários mais flexíveis
de trabalho e uma boa condição financeira. A inscrição
para as competições de ponta costumam ficar em torno
de
R$ 4,5 mil, sem contar as despesas com viagens. “E ainda tem
que achar mais três malucos para formar uma equipe.”
E é por atuar em equipe, segundo Said, que emergem as melhores
lições do esporte: aprender a respeitar as pessoas
e a aceitar suas deficiências. “Minha vida mudou”,
diz ele. Mudou mesmo. De acordo com Said, depois que começou
a se envolver com estas competições, nada mais foi
problema em sua vida. Já sentiu o osso do pé após
um trekking, o pulso dilatado de tanto remar e suportou dores à
base de analgésicos. Para evitar tanto sofrimento, Said tem
desenvolvido provas de Short Adventure, aquelas em que após
seis horas de competição – de trekking, mountain
bike e canoagem – se pode ir depois, segundo ele, com “a
namorada ao cinema”. Haja fôlego.
 |
|