| ARTES
& ESPETÁCULOS |
17/12/2003
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| Personagem |
É preciso saber viver
Aos 57 anos, Wanderléa quebra o jejum
dos estúdios com novo CD, prepara show e retoca sua autobiografia
Eliane
Lobato
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“Enquanto
a saia da Mary Quant era um palmo acima do joelho, a minha era
um palmo abaixo da pélvis” |
Depois de 11 anos sem gravar, Wanderléa volta com novo
álbum, O amor sobreviverá, e anuncia outros
planos. Prepara um show em grande estilo e promete que, no final
do primeiro semestre de 2004, vai finalmente lançar a autobiografia
Soltando os laços. A renda do disco será destinada
à entidade beneficente Pequeno Cotolengo, que atende crianças
e adultos com necessidades especiais. A primeira tiragem de cinco
mil exemplares se esgotou rapidamente com venda exclusiva pela internet
e na própria instituição. Diante da procura,
a gravadora BMG assumiu nova tiragem que começa a ser distribuída
por todo o Brasil.
Várias das canções foram selecionadas a partir
dos shows da cantora. Trazem sucessos dos tempos da jovem guarda
e duas composições inéditas assinadas por ela.
A faixa-título é uma homenagem ao filho Leonardo,
morto por afogamento na piscina de sua casa, em fevereiro de 1984.
Hoje, aos 57 anos, a mineira de Governador Valadares está
em paz com a vida e é exemplo de mulher à prova do
tempo. Wanderléa recita uma receita básica: não
fuma e tem uma boa alimentação. “Sou natural.
Passo bucha vegetal e vinagre de maçã no corpo, de
manhã e à noite, e tomo banho frio. Não adianta
emplastar de creme ou fazer plástica se não cuidar
da alma.” Wanderléa deu a seguinte entrevista a ISTOÉ.
ISTOÉ – Por que, mesmo sem gravar, você
não cai no esquecimento?
Wanderléa – Junto com Roberto e Erasmo Carlos
marcamos uma
época. Fomos um acontecimento completamente novo no Brasil,
isso compôs uma figura, uma personagem marcante para mim.
Hoje, essa turma nova já chega com estereótipos, coreografias
copiadas do
que se faz lá fora. Eu não tinha referencial. Não
existia nenhuma
pop star feminina no mundo. Então, tinha uma naturalidade
que
agradava. Os movimentos que eu fazia em cima do palco eram
inventados na frente do espelho, em casa. Meu irmão Bil desenhava
as roupas. No Brasil, não existia um mercado diferenciado
de moda para jovens. Eu esquentei o mercado jovem da moda, da música.
E inovei bastante. Enquanto a saia da Mary Quant era um palmo acima
do joelho, a minha era um palmo abaixo da pélvis.
ISTOÉ – Ganhou muito dinheiro?
Wanderléa – Sim, ganhei, mas não tanto
quanto seria hoje. E ganharam muito dinheiro a minha custa também.
Nós éramos muito ingênuos. Para você ter
uma idéia, fui boneca da Estrela. Para mim era uma homenagem.
Não era um negócio! Olha a ingenuidade. A grife Staroup
começou a fazer roupas inspiradas na gente, a indústria
da moda como um todo passou a investir no estilo. Mas a gente nunca
faturava nada.
ISTOÉ – Guardadas as devidas proporções,
seu sucesso na época pode ser comparado ao da Xuxa?
Wanderléa – Pode. Só que a Xuxa tentou
pegar o adolescente e ele
não a acompanhou. Nós atingimos uma faixa maior, dos
três anos em diante, incluindo o adolescente rebelde. Naquela
época, nós éramos transgressores. Para usar
uma minissaia como as que eu usava, dançar daquele jeito,
não era fácil. No fim, acabamos atingindo a família
inteira e até outros setores não tradicionais. Por
exemplo, os gays, que me reverenciam até hoje, aonde quer
que eu vá. Se o mercado jovem
do Brasil de hoje é promissor, deve a nós. Em São
Paulo, os rapazes andavam de cinza, azul-marinho, camisa branca,
sapato preto.
O Roberto e o Erasmo vinham com aquelas roupas vermelhas,
coloridas. O Roberto usava umas blusas de babado. E as minhas botas?
Não tinha no mercado, eu mandava fazer.
ISTOÉ – Você não tinha problemas
com seus pais?
Wanderléa – Tenho descendência árabe
e mineira. Para eles, realmente era um pouco demais. As mulheres
não usavam calças compridas para trabalhar. Também
fiz o primeiro nu grávida no mundo, sem saber. (Ela apareceu,
em1985, com barriga de sete meses na capa da revista Status, da
Editora Três, que publica ISTOÉ). Quando fizeram aquele
estardalhaço todo porque a Demi Moore apareceu nua e grávida
numa capa de revista, eu achei engraçado.
ISTOÉ – Quantos discos você fez?
Wanderléa – Não sei. Nunca tive o compromisso
de fazer um disco a cada dois anos. Não coloquei esse cabresto
em mim. Vivo de fazer shows. Tenho um critério: não
vou aparecer de qualquer jeito. Me chamam para falar de tudo, de
beleza, de filhos, de unha encravada.
Não tenho interesse.
ISTOÉ – É sua estréia como compositora
neste disco?
Wanderléa – Eu já tinha feito alguma
coisa muito timidamente. Veio mostrar eu fiz há 15 anos,
mas nunca consegui incluir nos discos. Descobri que posso fazer
sozinha um disco, não preciso ficar esperando a indústria
me chamar. Não vou parar mais. A soltura desse trabalho me
estimulou a liberar o resto, abrir a gaveta, desovar um belo show
nacional e o meu livro, que só falta 20% para terminar.
ISTOÉ – É uma autobiografia?
Wanderléa – Soltando os laços não
é uma biografia com cronologia. São fatos que vivi,
públicos ou não, que marcaram minha vida, me libertaram,
fizeram me conhecer melhor, solucionar determinadas pressões
psicológicas, ações. Eu mesma estou escrevendo.
Falar na primeira pessoa não é fácil. Ainda
não assinei com ninguém, mas lanço em 2004.
ISTOÉ – A música O amor sobreviverá
foi escrita para o seu filho Leonardo, que morreu em 1984. Como
foi cantar essa letra hoje?
Wanderléa – Eu e o Lalo (Lalo Califórnia,
marido dela há 23 anos) escrevemos essa canção
quando o Leonardo estava vivo. Durante muitos anos, minha garganta
travava quando tentava cantar. Só consegui distraindo, pensando
em outra coisa. Mas não é uma emoção
de tristeza, é de beleza. Hoje, penso que essa música
passa uma mensagem bonita. Comecei a aprender sobre a vulnerabilidade
do ser humano. Outra grande lição é quando
digo, na música, que “a Terra continuará a girar”.
Parece que sou eu falando para mim mesma. Vejo a Jade (16 anos)
e a Yasmin (18), duas lindas filhas que Deus me deu, e entendo o
refrão. Tive gravidez tubária. Não imaginei
que ainda pudesse ter mais filhos depois do Leonardo. Mas temos
que seguir em frente. A vida é como um riacho. Se deixar
entulho, daqui a pouco fica tudo entupido.
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