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 ENTREVISTA
17/12/2003
Jim Wygand
O país do presente

Especialista em análise de risco, o americano Jim Wygand
afirma que o Brasil está mais perto dos países desenvolvidos
do que dos emergentes

Luiza Villaméa

  Ricardo Giraldez

Formado em economia pela Universidade da Carolina do Norte, o americano Jim Wygand desembarcou pela primeira vez no Brasil em março de 1965 por motivos emocionais. Abalado com o assassinato do presidente John Kennedy, dois anos antes, deixara a faculdade de letras para engajar-se em trabalhos humanitários. Como voluntário do Peace Corps, a organização idealizada por Kennedy quando ainda era senador, Wygand trabalhou e morou na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. No morro, acabou se interessando pela política econômica dos chamados países emergentes. Voltou para estudar nos Estados Unidos, mas nunca mais se desligou dessa parte do mundo. Especializado em analisar e gerenciar situações de risco, nos últimos dez anos comandou no Brasil os trabalhos da empresa americana Kroll e, depois, da sua principal concorrente, a inglesa Control Risks. “A análise do Brasil acabou virando minha profissão”, comenta Wygand. Convencido de que entender o jeito brasileiro de gerenciar é fundamental para que o investidor tenha sucesso por aqui, Wygand acaba de criar sua própria empresa, a Risk Solutions Group, com sede em São Paulo.

ISTOÉ – Como foi o seu primeiro contato com o Brasil?
Jim Wygand –
Vim num grupo de 20 jovens americanos, em março de 1965, enviado pelo Peace Corps para trabalhar em comunidades carentes. Na época, o Peace Corps também tinha projetos em Serra Leoa, na África. Sorte minha ter sido escolhido para o Brasil. Descemos no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Na época, parecia cenário do filme Casablanca. Fui morar na favela do Jacarezinho. Dessa experiência nasceu meu interesse pela política econômica dos países emergentes. Com o tempo, o Brasil acabou virando minha profissão.

ISTOÉ – De lá para cá, são 38 anos. O que mudou nesse período?
Wygand –
Quando cheguei pela primeira vez, 50% da pauta de exportação era o café. O Brasil era essencialmente produtor e
exportador de commodities. Cerca de 75% da população morava em áreas rurais. Dez anos depois, quando voltei em 1975, 75% dos brasileiros viviam em áreas urbanas. Hoje, o índice de moradores
urbanos é ainda maior. Na pauta de exportações, 57% são produtos manufaturados. O café responde por mais ou menos 2%. O Brasil tem, sem dúvida alguma, o setor agrícola mais moderno do mundo. A herança colonial ficou para trás.

ISTOÉ – E, depois de tanto tempo fazendo análises sobre a economia brasileira, o sr. decidiu virar concorrente da Kroll e
da Control Risks?
Wygand –
Espero que não. Quero entrar nas lacunas que existem na área. Pretendo aplicar as idiossincrasias. O Brasil tem uma maneira de agir, uma forma própria de gerenciamento, que precisa ser incorporada na análise de risco para os investidores. A idéia é apresentar um modelo alternativo, que leva em conta essa questão da brasileirice do modelo.

ISTOÉ – Por que prefere essa abordagem?
Wygand –
Os investidores internacionais que triunfaram no Brasil são
os que se esforçaram para entender as singularidades do País. Os que fracassaram são aqueles que evitaram as turbulências geradas
por instabilidades de curto prazo. Eles não entenderam que esses fenômenos se devem muito mais às rápidas mudanças do que às fraquezas da economia brasileira.

ISTOÉ – E o que o sr. está dizendo aos seus clientes?
Wygand –
Primeiro, que a instabilidade reportada lá fora é muitas vezes fictícia. Basta olhar para a história. A tendência do Brasil é de se comportar direitinho no longo prazo. Além disso, acredito que as rápidas transformações dos últimos 40 anos mudaram a referência como o país do futuro. O Brasil é, de fato, o país do presente.

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