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‘‘O
diabo fez o Leão’’
- continuação
Chico
Silva e Eduardo Marini
ISTOÉ
Quem deveria ser o técnico da seleção?
Socrátes Neste momento, apostaria
no Felipão (Luiz Felipe Scolari, técnico do Cruzeiro).
Ele é centralizador, mas tem produzido os melhores resultados.
ISTOÉ
O poder do técnico, hoje, é exagerado?
Sócrates Sim. Não há investimento
em recursos humanos nem pessoas capacitadas para dirigir uma equipe
de futebol. Então todo o poder se centraliza no técnico,
inclusive a estratégia do clube, o que é um grande
absurdo. O técnico chega e manda cinco, seis jogadores embora.
Como um empresa permite que um funcionário temporário
determine sua política? Esse poder é decorrente da
falta de gente capacitada. Treinador tem que ser bom nos aspectos
técnicos e táticos e fazer o negócio funcionar.
Não precisa se meter em mais nada.
ISTOÉ
Como você vê o jogador brasileiro?
Sócrates A estrutura do futebol é
moldada para que o jogador não cresça. Os clubes deveriam
entender o atleta de futebol como o carro-chefe do trabalho. Afinal,
ele é o artista. Se o artista é mal preparado, não
divulga bem as atividades, quem sai perdendo é a empresa
no caso, o clube. No dia em que eu for coordenador técnico
ou estiver à frente de um projeto, em cinco anos teremos
pelo menos 70% do time na universidade. Vou criar condições
para que isso aconteça. Quero que essas pessoas cresçam.
É preciso trabalhar desde o início, com as crianças.
Hoje, ocorre o oposto. Tudo é feito para o cara não
crescer. Mesmo com todo o dinheiro que recebem, os jogadores vivem
em guetos, entre eles, porque não estão formados para
o convívio social.
ISTOÉ
Você foi um dos mentores de um esquema que aboliu
a concentração. Acha que os jogadores estão
preparados
para isso?
Sócrates Sem dúvida. E pode ter certeza
que os caras, automaticamente, vão se tornar mais profissionais.
Hoje, o sujeito passa cinco dias na gandaia. No sexto, o sistema
lhe dá a proteção, mas o seu desempenho fica
comprometido. Se ele tiver que cuidar da própria resistência,
será mais responsável. O importante é mostrar
o papel de cada um. Feito isso, o trabalho funciona.
ISTOÉ
O que você acha do Romário e do Edmundo?
Sócrates Romário, além de inteligente,
é um belo jogador. Estou escrevendo um texto sobre Romário
e Edmundo e percebi algumas coisas. São pessoas que, por
algum motivo que eu ainda não identifiquei, estão
preocupadas apenas com o sucesso, e não com o prestígio,
que é algo bem diferente. Vendem um tipo de comportamento
em que o mais importante é, exclusivamente, ter bom desempenho
dentro de campo, ganhar dinheiro e curtir a vida. Mas essa profissão,
como todos sabem, acaba cedo. E aí, deve sobrar o prestígio,
a dignidade que você construiu junto com a fama vinda dos
campos. É esse conjunto de ações sociais, atitudes
coerentes e qualidades individuais que dará o maior suporte
para as atividades futuras. Sua vida será uma sequência
do que você fez até deixar os campos, mas não
apenas profissionalmente. Romário e Edmundo, aparentemente,
nunca mostraram nenhuma preocupação com isso. Mas
são dois jogadores maravilhosos.
ISTOÉ Duas festas abalaram o Flamengo nos últimos
meses. A primeira, uma reunião entre os jogadores e algumas
moças bonitas num quarto de hotel, em Caxias do Sul, que
acabou provocando a saída de Romário. A segunda, dias
atrás, com outras moças bonitas, também foi
muito condenada pela imprensa. O que você acha disso?
Sócrates Eu acho que os jogadores devem ter
liberdade para fazer o que quiserem, como qualquer um. Sou o cara
que mais defende a liberdade neste país. Muitas vezes, os
dirigentes mandam um jogador ou um técnico embora para dar
uma resposta imediata, que é falsa, e esconder a própria
incompetência. Veja o caso da dança de treinadores
no Brasil. Você contrata o sujeito porque acha que ele é
competente, certo? Aí o treinador não mostra capacidade
para arrumar o time e é demitido. Mas por que o treinador
é contratado novamente, muitas vezes na mesma gestão,
pelos mesmos dirigentes? Ele não se mostrou inapto para a
função? Há técnicos que foram contratados
e demitidos seis, sete vezes pelo mesmo clube.
ISTOÉ O futebol ficou mais feio, mas exige atletas
cada vez mais preparados fisicamente. O Sócrates das décadas
de 70 e 80 seria Sócrates em 2000?
Sócrates Acho que sim. Nunca fui um
modelo de atleta e sempre admiti isso. Se eu tivesse a resistência
física do Raí, por exemplo, teria sido muito mais
fácil jogar. Nos quatro primeiros anos de profissionalismo,
praticamente não tinha chance de treinar. Minha estrutura
física não era própria para o esporte e, como
trabalhava e estudava Medicina, não tinha tempo para aprimorá-la.
Por isso, compensava essa deficiência com boa colocação
e o uso de alguns recursos técnicos, entre eles o toque de
calcanhar. Mas na minha época o futebol já estava
bem corrido. Na verdade, eu joguei futebol por acidente. Meu negócio
era a Medicina.
ISTOÉ
Você está se preparando para administrar um
clube. O que pretende fazer?
Sócrates Estou fazendo pós-graduação
em Administração Esportiva. Aprendi a trabalhar com
ferramentas muito importantes para a formulação de
planejamento estratégico na área esportiva. Os clubes
brasileiros terão que programar melhor seus recursos, gastos
e ofensivas. Isso é inevitável. Além do meu
trabalho, o projeto terá a liderança de Raí,
que será nosso embaixador, na área de relações
públicas, do meu irmão Sóstenes, administrador
e engenheiro de produção, e do meu filho Gustavo,
que é advogado e cuidará da parte legal do processo.
Estamos conversando com alguns clubes e investidores, entre eles
o Botafogo de Ribeirão Preto, onde comecei. O que iremos
fazer é algo muito maior do que preparar um clube para revelar
jogadores e vender, como vemos atualmente. No próximo ano,
vou iniciar o mestrado em Medicina Esportiva e completar a base
teórica necessária para a implantação
desses projetos administrativos. De acordo com as nossas estimativas,
em um clube do porte do Botafogo de Ribeirão Preto, precisaremos
de pelo menos R$ 5 milhões anuais, por um período
mínimo de três anos, para implantar um projeto com
esse fôlego. Queremos administrar a riqueza. Em todos os sentidos.
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