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 ENTREVISTA

‘‘O diabo fez o Leão’’
O ex-craque Sócrates critica o novo técnico da Seleção Brasileira e diz que os clubes devem transformar
jogadores em homens responsáveis

  OUÇA TRECHOS DA ENTREVISTA
NÃO É SER HUMANO O DIABO FEZ O LEÃO
REACIONÁRIO AUTORITÁTIO
SÓCRATES TÉCNICO DECADÊNCIA DOS CLUBES
FORMAÇÃO DE TALENTOS FUTEBOL MARGINAL

Chico Silva e Eduardo Marini

Helcio Nagamine

Petardos contra a “estrutura viciada do futebol brasileiro”
Sócrates e Leão têm uma coisa em comum: nasceram em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. “Mas fica difícil achar outro dado positivo em sua vida”, fulmina o ex-craque do Corinthians, da Fiorentina e da inesquecível Seleção Brasileira da Copa de 82. Ele não tolera o atual treinador da Seleção Brasileira, que foi seu companheiro na badalada Democracia Corintiana, bicampeã paulista nos anos de 1982 e 1983. Nesta entrevista, o militante de esquerda Sócrates, filiado ao PT, detalha os motivos de suas restrições ao ex-filiado da Arena Leão. Diante da indicação do técnico, Sócrates desabafou: “Agora, só falta o Paulo Maluf vencer em São Paulo para completar a tragédia.” O doutor Sócrates, que teve a primeira experiência como técnico no modesto Cabofriense, interior do Estado do Rio, condena a estrutura do futebol brasileiro que, segundo ele, “é toda montada para que o jogador não cresça”.

ISTOÉ – Leão é um velho conhecido seu. Além de conterrâneos, vocês jogaram juntos no Corinthians, em 1983, e na própria seleção. A indicação dele lhe agrada?
Socrátes
– Minha análise envolve mais o ser humano, se é que ele pode ser considerado como tal, que o profissional. Não sei como é o seu trabalho. Não tenho nada contra o Leão, mas contra o genoma dele.

ISTOÉ – Você não está sendo duro demais?
Sócrates – Eu sempre vejo o técnico da seleção como o detentor do cargo de maior visibilidade do País. Até maior que o do presidente da República. Agora vamos passar os próximos quatro, cinco anos discutindo se existem limites para algumas características humanas. Ele tem alguns traços de personalidade que eu não consigo assimilar. Reclamavam muito do Wanderley (Luxemburgo, ex-técnico da seleção). Mas agora teremos alguém mais prepotente, arrogante, totalitário e egocêntrico. É uma pessoa extremamente egoísta, voltada apenas para os interesses pessoais. Não tem nenhum tipo de ação comunitária. Tudo de ruim em uma pessoa está ali. A definição que eu dou para ele é a seguinte: se Deus fez o homem, o diabo fez Émerson Leão.

ISTOÉ – Qual era a postura de Leão, um ex-filiado da Arena,
o partido que dava sustentação ao regime militar, em relação
à Democracia Corintiana? É verdade que ele tentou sabotar
o movimento?
Sócrates
– Ele queria derrubar a Democracia. Um cara autoritário como ele não poderia mesmo gostar de um lugar onde as pessoas tinham liberdade para decidir o que é melhor. Era incômodo para ele. Mas como todo reacionário, quando foi pressionado, acabou recuando. Reacionário nunca se expõe, sempre trabalha por baixo do pano para conseguir seus intentos. Quando percebemos a sua intenção, chegamos no meio dele. Fomos para o pau mesmo. Aí ele disse que não, que não era nada daquilo, tudo não passava de um engano...

ISTOÉ – Como foi essa tentativa de sabotagem?
Sócrates – Nós demoramos quase um ano para tornar opcional a concentração (reclusão a que os jogadores são submetidos nas vésperas dos jogos). Lá, tudo era decidido por maioria e cada um tinha um voto, do reserva ao diretor de futebol. Eu e o Vladimir chegamos a nos candidatar ao Conselho Deliberativo do clube. Logo que chegou, o Leão tentou acabar com essas conquistas.

ISTOÉ – Não são muitas acusações para poucos argumentos?
Sócrates – Vou dar outro exemplo. Nós tínhamos um acordo de produtividade com a diretoria. Esse acordo foi discutido e aprovado de forma unânime. No futebol, todos estão viciados em receber prêmios fixos por vitórias (o famoso bicho). Nós, em acordo com a diretoria, achávamos que não era certo estabelecer uma premiação fixa. Então, foi combinado que se a gente estivesse bem, trouxesse mais público aos estádios, ganharia mais. Nos seria dada uma porcentagem da renda da partida. Se não me engano, 25%. Era uma espécie de bonificação. Se tivesse mil ou um milhão de pessoas, a gente receberia o proporcional ao número de torcedores. Esse foi o primeiro problema. O que o Leão mais gosta é de dinheiro. Então, o que ele fez? Chegou na molecada que ganhava menos e começou a mobilizá-la para recusar o esquema. Na verdade, estava vendo o interesse dele, já que ele queria ganhar o prêmio fixo. Ele sabia que iria ganhar mais do que os juniores.

ISTOÉ – Como ele convencia os novos a ficar contra vocês?
Sócrates – Chegava na diretoria e pressionava para aumentar o salário dos moleques. E vendia para eles a versão de que fora obra sua. Assim, garantia o voto deles, que tinha o mesmo peso que o meu e o de todos. Criava uma expectativa que nem sempre era verdadeira. Logo começou a ter um monte de conflitos com todo mundo. Entregava os moleques ou a gente para os diretores, com fofocas alheias aos treinos e jogos. Decidimos chegar junto nele para acabar de vez com essa história.

ISTOÉ – Após a escolha de Leão, você declarou que faltava apenas a vitória do Maluf para “completar o desastre”. Mas, em 1983, você elogiou a participação de Leão no bicampeonato da Democracia Corintiana...
Sócrates
– Ele estava do meu lado. Diante dos jornalistas, disse que o grupo não gostava dele, mas que eu tinha que admitir que, se ele não estivesse no time, talvez nós não tivéssemos sido bicampeões. Fiz questão de falar isso e reafirmo agora, porque ele jogou muito e era um senhor goleiro. O problema era – e continua sendo – o individualismo, as atitudes suspeitas, os ataques de egocentrismo por besteiras e tudo o mais. Mas as pessoas precisam entender que, em qualquer trabalho em grupo, ser tecnicamente preparado e ter o caráter discutível não vale quase nada. Estranho muito a idéia de ver o Leão num posto de comando. Para isso, você precisa ter criatividade, alegria e capacidade de unificação. E ele é o oposto disso tudo. Leão não é burro. E o perigoso é exatamente isso.

ISTOÉ – Tecnicamente, Leão é um bom treinador?
Sócrates – Eu até acho que ele poderá armar uma equipe decente, por um motivo simples: treinar a Seleção Brasileira é uma das coisas mais fáceis do mundo. Ao contrário dos grandes times, você pode escolher qualquer jogador neste celeiro impressionante que é o Brasil. Conhecendo uma migalha de futebol, é possível fazer uma correlação de afinidades entre os jogadores e não escalar, por exemplo, Rivaldo e Alex no mesmo time porque eles vão bater cabeça na mesma posição. Basta um mínimo de discernimento e neurônio.

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EDIÇÃO Nº 1622


 
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