Diversos profissionais brasileiros estão defendendo a causa do software livre pelo mundo afora. Um deles é César Brod, que participa de uma série de projetos envolvendo software livre. Um desses projetos está sendo desenvolvido em parceria com Nico Coetzee, na África do Sul, e Frederick Noronha, na Índia, e trata do impacto da utilização do software livre em economias emergentes. No Brasil, Cesar está envolvido com iniciativas arrojadas, como a incubadora de projetos de software livre, o site Código Aberto e o Sagu, software para gestão de ensino, que pode ser utilizado por instituições de ensino médio e superior. Sobre esses e outros assuntos, ele fala na entrevista a seguir. Pergunta- Você poderia descrever a proposta desse grupo de pesquisa e como ele funciona?
César Brod- Na Finlândia, o ministério de relações exteriores e o de ajuda ao desenvolvimento costumam contratar o trabalho de ONGs para auxiliá-los em seus planos de ação, especialmente quando diz respeito à destinação de recursos. Muitas ONGs têm um contato mais constante, próximo da realidade dos que apoiam, e acabam sendo uma fonte de informação muito precisa e confiável. Neste caso a OneWorld.Net foi contratada para determinar se o software livre causa algum impacto nos países de economias emergentes no que diz respeito à geração de emprego e renda, combate à fome e à pobreza, educação, cidadania, solução de conflitos, etc. A One World juntou então uma equipe de quatro pessoas, cujo coordenador é o paquistanês Niranjan Rajani, que estão pesquisando o impacto do software livre em suas geografias. O Nico Coetzee na África, o Frederick Noronha na Ásia não-industrializada e eu na América Latina. A primeira fase que se concluiu com esta reunião em Helsinki constituiu-se basicamente na exposição dos dados obtidos e no início da formatação de um relatório que depois será disponibilizado para consulta pública, lá por março de 2003, ainda que algumas versões preliminares devam aparecer antes.
P- Quais as instituições e governos que financiam o projeto?
César - Só o governo da Finlândia, através dos seus ministérios de apoio ao desenvolvimento e de relações exteriores. Mas cada um dos pesquisadores acaba tendo o apoio logístico de seus locais de trabalho. Na Univates, por exemplo, trabalho "oficialmente" trinta horas por semana, enquanto que para este projeto de pesquisa trabalho, em tese, dez horas por semana. Como faço o que gosto, e meu hobby acaba sendo meu trabalho, acabo usando muito mais horas do que originalmente me propus tanto para a Univates quanto para o projeto da Finlândia. A Univates me permite usar todos os seus recursos, como a sala, acesso à Internet, porque também acredita na importância deste outro trabalho.
P- Quais os desafios para a democratização do acesso à tecnologia em países emergentes?
César- São muitos. Vão desde a infraestrutura básica como a instalação de redes elétricas até a construção de interfaces que possam ajudar mesmo aqueles que não sabem ler ou escrever. Claro que no final de tudo está a obtenção de máquinas, o treinamento das pessoas que trabalharão com elas, o que também é um desafio.
P- Quais projetos brasileiros relativos ao software livre foram apresentados?
César- Os dos telecentros para populações carentes e periféricas, como a cidade de São Carlos está implementando, por exemplo, o Rede Escolar Livre do governo do estado do Rio Grande do Sul, e mesmo um projeto da GNURIA Ana Paula de Araújo, a Preta, que visa levar o ensino de tecnologia, com software livre, à populações carentes no norte do Brasil, numa tentativa de melhorar condições de renda e empregabilidade.
P- Quais as perspectivas de novos projetos de software livre que podem ser ainda desenvolvidos no Brasil?
César- Eu estou especialmente interessado na criação de um ERP para pequenas e médias empresas, para que possam ser operacionalizadas totalmente com software livre. E já há esforços neste sentido, como o projeto http://erplivre.codigolivre.org.br. O Miolo (http://Miolo.codigolivre.org.br), que desenvolvemos na Univates, é um excelente framework para o desenvolvimento de qualquer nível de aplicações para desenvolvimento de Web e eu gostaria muito de ver o Miolo usado num projeto de governo eletrônico.
P- Como as contribuições Brasileiras pode ajudar países mais carentes, como os africanos?
César- Esta é uma das coisas que esperamos descobrir com esta pesquisa. O que é necessário para que isto aconteça. Por que já não acontece hoje? Moçambique, por exemplo, poderia de imediato aproveitar projetos como o da Rede Escolar Livre, o SAGU. O que falta? O Arnaldo Antunes fala naquela música "Riquezas são diferentes, miséria é miséria em qualquer canto". Em trabalhos como este do qual faço parte a gente acaba concluindo que as misérias também são muito diferentes. A idéia não é pegar uma ação específica de um país e reproduzi-la exatamente em outro, mas inicialmente explorar até o que já exista localmente. A África tem muitos projetos interessantes em Software Livre, e especialmente um esforço de tradução de aplicativos já existentes para os dialetos africanos. Agora, é claro que um projeto como este já gera alguma sinergia, e o simples fato de que cada pessoa neste grupo já está tendo uma visibilidade dos projetos de outras regiões, já começa a gerar alguma colaboração. O nosso projeto GNUTECA, por exemplo, deve vir a ser adotado em Goa, na Índia.