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Buscas no Google ajudam a desvendar a consciência coletiva

Quarta, 11 de dezembro de 2002, 12h05

Banco de dados mostra como as pessoas são parecidas, apesar das diferenças étnicas e culturais. No quartel-general da Google instalado numa transversal da Route 101, em Mountain View, Califórnia, Estados Unidos, os visitantes que param no saguão ficam atônitos com o desfile de imagens em um painel eletrônico fixado na parede de fundo da mesa da recepcionista: animación japonese, Harry Potter, pensées et poèmes, associação brasileira de normas técnicas etc.

O painel, chamado Live Query (Pesquisa ao Vivo), reproduz amostras atualizadas do que as pessoas do mundo inteiro estão digitando no portal de buscas do Google. Ele desfila uma galeria de termos em inglês, chinês, espanhol, sueco, japonês, coreano, francês, holandês, italiano, português, etc. - qualquer um dos 86 idiomas rastreados pelo Google.

Quem ficar ali observando o Live Query por um determinado tempo poderá ter a sensação de estar assistindo ao fluir incessante da consciência coletiva do mundo. O que as pessoas em cada canto do globo estão pensando e o que elas desejam saber. Cada frase ou palavra representa um pensamento de alguém, em algum lugar, conectado à rede mundial de computadores. O Google reúne essas perguntas - 150 milhões ao dia, originárias de mais de 100 países - em seu banco de dados, atualizando e armazenando os registros a cada milésimo de segundo, um verdadeiro tesouro em termos de informação.

a empresa está tirando instantâneos das cabeças de seus usuários e incorporando esses dados. Como um pequeno filme gerado pela projeção rápida de um conjunto de fotogramas, os dados registrados contam uma história.

Bem, já que é assim, o que é que o mundo anda pensando? Em sexo, por exemplo. "Você pode aprender a dizer sexo numa série de línguas diferentes só pela observação dos registros", afirmou Craig Silverstein, diretor de tecnologia do Google.

Apesar de sua diversidade geográfica e étnica, as pessoas passam boa parte do tempo pensando na mesma coisa. De país em país, de região em região, dia após dia e mesmo de minuto em minuto as mesmas áreas de tópicos vêm à tona: celebridades, atualidades, produtos e downloads por computador.

"É estarrecedor verificar como as pessoas do mundo inteiro são parecidas a partir do que elas procuram", disse Greg Rae, um dos três integrantes da equipe de registros do Google, responsável por desenvolver, armazenar e proteger os registros de dados.

Acompanhar o Google - ele é o portal de busca mais usado - descortinou para Rae uma visão do mundo a partir de seu pequeno gabinete. Desde outubro de 2001, ele consegue amealhar a palavra "antrax" em várias línguas: "milzbrand" (em alemão), "carbonchio" (em italiano), "miltvuur" (em holandês), "antraz" (em espanhol).

Ele diz ser capaz de apontar quais foram os países que realizaram eleições, recentemente, com lisura (Brasil e Alemanha), devido à enxurrada de buscas. Observa o resultado da globalização da cultura de consumo nas mais remotas e diversas origens geográficas onde aparecem as marcas de maior sucesso: Nokia, Sony, BMW, Ferrari, Coca-Cola e Microsoft.

A julgar pelos dados do Google, alguns eventos esportivos mobilizam interesse em quase todos os quadrantes: o Tour de France, Wimbledon, a corrida de cavalos Melbourne Cup e a World Series estavam entre as 10 buscas mais freqüentes da área de esportes no ano passado.

Surpreende também como filmes, gravações fonográficas e celebridades norte-americanas são conhecidos no planeta inteiro. Dois anos atrás, um engenheiro do Google chamado Lucas Pereira observou que as pesquisas sobre Britney Spears tinham caído, o que indicava, segundo pensou, uma possível retração da popularidade da cantora.

A partir dessa observação nasceu o Google Zeitgeist (Zeitgeist é "espírito da época", em alemão), um rol das perguntas mais e menos formuladas por semana e por mês.

Passar os olhos no Google Zeitgeist é como se submeter a um teste sobre atualidades culturais: Ulrika Jonsson (uma apresentadora da TV britânica nascida na Suécia) aportou recentemente na lista, o mesmo aconte-cendo com o Irish Travelers (um grupo étnico nômade que teve uma de suas componentes filmada em videoteipe batendo em sua filhinha em Indiana) e o fentanil (o gás soporífero empregado na investida policial em Moscou destinada a resgatar os reféns em poder dos rebeldes chechenos, no final de outubro).

O extenso volume de buscas envolvendo seu nome transformou Britney Spears numa espécie de referencial para a equipe de registro. Ajudou-os a entender como é que o noticiário pode produzir picos nas buscas, como aconteceu quando ela irrompeu, ao lado de Justin Timberlake, o que parece explicar o comportamento das estrelas. O Google reflete instantaneamente as repercussões desses acontecimentos e de outros não tão frívolos.

Em 28 de fevereiro de 2001, por exemplo, teve início um terremoto perto de Seattle (EUA), às 10h54, horário local. Num intervalo de dois minutos, as buscas referentes ao abalo saltaram para 250 por minuto, a partir de quase zero, com uma concentração especial no Noroeste da Costa do Pacífico (onde se localiza a cidade).

Em 11 de setembro, as buscas de World Trade Center, Pentágono e CNN espocaram imediatamente depois dos atentados. Nos dias seguintes, Nostradamus se tornou o mais procurado alvo de busca, alimentado por um boato de que tinha previsto a destruição do centro comercial.

Mas os acontecimentos mais banais é que acabam encontrando mais espaço no sensível sismógrafo cultural do Google. A equipe de registros constatou certa vez que o "nome de solteira de Carol Brady" tinha saltado para os primeiros lugares da tabela. De repente, sem mais nem menos, as pessoas mostravam interesse no personagem de uma série de televisão dos anos 1970 chamada "The Brady Bunch".

Um mapeamento das buscas determinou dias e horários, mas não apontou a causa exata do súbito interesse. Este é um dos paradoxos do Google. Os dados apenas refletem padrões, não explicam. Por meio deles, não se pode capturar fenômenos sociais. Apenas detectar os sinais que deixam através da internet.

"O mais interessante é o porquê", afirmou Amit Patel, um dos integrantes das equipes de registro. "Não se pode interpretar, a menos que se saiba o que está acontecendo pelo mundo."

Bem, então o que estava acontecendo na noite de 22 de abril de 2001? No momento em que o apresentador do programa de televisão "Who Wants to be a Millionaire", Regis Philbin, perguntou "Qual era o nome de solteira de Carol Brady’s", estava dado o sinal. Segundos depois, o portal do Google foi invadido por milhares de pessoas que procuravam a resposta (Tyler).

Os responsáveis pelos registros detectaram quatro picos de busca, relacionados com os diferentes horários em que o programa era exibido nas quatro regiões dos EUA divididas pelo horário. E qual foi o motivo de um quinto e menos intenso pico "O Hawai", respondeu Patel.

O episódio Carol Brady foi bastante ilustrativo para os responsáveis pelo portal. "Foi como observar um eléctron num microscópio pela primeira vez", disse Sergey Brin. Em 1998, então estudante de Ciência da Computação, em Stanford, Brin ajudou a fundar o Google e atualmente ocupa uma das diretorias do site.

É claro que boa parte das questões está relacionada com a demanda imposta pela televisão, cinema e rádio. Mas os meios de comunicação de massa também alimentam seu público. Para o Google, fica o poder de antecipar tendências.

Este valioso banco de dados já desperta a atenção da indústria do entretenimento e do comércio. Saber o que as pessoas pensam e do que gostam pode ter um valor imenso se usado com fins comerciais.

A direção do Google ainda não revelou o que pretende fazer com este acervo. "Este material cria uma tremenda oportunidade. O desafio é decidir como vamos aproveitá-la", disse Silverstein.

O Google não permite o acesso aos dados internos por causa da privacidade dos internautas. As pessoas perguntam coisas ao portal que não ousariam perguntar em público. Por exemplo, sobre o Viagra, medo da gravidez, fraudes e operações plásticas. Por algum motivo, elas só se sentem à vontade para tocar nestes assuntos com a máquina.

InvestNews - Gazeta Mercantil

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