Dupla dose de dor
Leiam o relato de Tata, que sentiu por duas vezes a perda do irmão: a primeira quando a pressentiu e, a segunda, um mês depois, quando realmente aconteceu. Que a emoção de saber que todos nós estamos irmanados com ela nessa dor, lhe dê o alívio e o consolo tão necessários. Era domingo, dia 20 de maio deste ano. Fui à festa de um aninho de um dos meus sobrinhos, o caçula do meu irmão mais velho. Eu e meu irmão nos víamos muito pouco. Por isso, festas eram um bom motivo para nos encontrarmos. Mas apesar de ser uma festa, naquele dia eu não me sentia nada bem: estava angustiada. Quase no final da comemoração, meu irmão sentou-se numa das mesas e me chamou para conversar. Durante quase uma hora, eu me sentia cada vez mais desesperada, enquanto ele me contava, rindo, como tinha quebrado o pé e não teve de ficar nem um dia engessado. Eu comentei que ele não era de ferro e ele deu muitas risadas. Teve um momento em que olhei bem dentro dos olhos dele e percebi que aquele seria o último dia em que eu o veria vivo. O desespero apertou ainda mais meu coração e pedi para meu marido me levar embora. Meu irmão me disse que só me deixaria ir se eu o abraçasse bem forte e eu comentei, rindo, que aquele seria o maior dos sacrifícios que eu teria de fazer naquele dia. Partimos. Dei uma carona para minha mãe e nos despedimos dele, de sua esposa e de todos, com a promessa de nos vermos no seu aniversário, que seria no final do próximo mês. Então, no dia 8 de junho, minha cunhada me ligou e disse que ele tinha sofrido um acidente e não havia resistido. Até hoje não sei o que foi aquilo, mas sinto que deveria ter aproveitado até o último segundo com ele. Meu único irmão me deixou dois sobrinhos que adoro, mas ele será inesquecível para todos nós. Ainda não consegui chorar por ele, pois penso que a qualquer momento o telefone vai tocar e será a voz dele do outro lado.
Marina Gold/Especial para o Terra
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