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Livro retrata a vida e a obra de artistas da cultura popular

Sexta, 20 de dezembro de 2002, 17h08

Aos 80 anos, Roselverte Antônio Pires, o "seu Rosa", ainda é guia de folia de Reis em São Francisco, Minas Gerais, uma tradição antiga que simboliza a viagem dos três reis magos ao encontro do menino Jesus. A viola, comprada em 1968, é inseparável. "Ela parece que me ensina. Quando eu dou o verso, que o meu contra-guia responde o verso, parece que a viola tá me ensinando o que é que eu vou falá no outro verso. Parece que é um dom da natureza, uma coisa assim, uma força..."

Para o velho tocador, a música é parte essencial da vida, assim como a devoção, a terra, a família. O mineiro de fala simples perpetua com sua arte uma das tradições seculares que tiveram origem na Península Ibérica.

"Seu Rosa" e outros 39 artistas populares são a alma do livro Tocadores, um projeto conjunto, de autoria de Lia Marchi, Juliana Saenger e Roberto Corrêa.

A idéia de garimpar personagens e suas histórias surgiu em 1998. "Vinha tendo alguns contatos e me interessei em conhecer melhor esse som, essas pessoas, como vivem e produzem sua arte", conta a produtora cultural Lia Marchi. "Conheci o violeiro Roberto Corrêa e saímos a pesquisar." Foram dois intensos meses viajando para recolher o rico material que compõe o livro.

Para Lia, um dos pontos fortes de Tocadores é o fato de dar voz a esses artistas, cujos depoimentos são reproduzidos com a fala original. "Mantivemos a característica da oralidade para mostrar a riqueza dessas pessoas. Dessa forma, se torna um espaço de diálogo entre o leitor e os músicos, um convite a que se entre em contato com os tocadores, pessoas que têm a vida na cara, está tudo ali. É um convívio surpreendente", diz.

Logo no início do livro, a pesquisadora Juliana Saenger fala desse contato: "É encontro de diferenças e identidades. É encontro com o outro e com nós mesmos. Mas quem observa está sendo observado, e quem encontra está sendo encontrado." Para Juliana, os protagonistas do livro não foram descobertos, apenas conhecidos. "Não é revelação é encontro", define, ao explicar que estes artistas populares são pessoas conhecidas na região em que vivem, apenas foram agora reveladas a um público outro, distante da realidade em que se inserem.

No mundo de "seu Rosa", a terra tudo provê. Foi dela e do gado que sempre viveu. E sob a sina do fatídico número três. Ele explica: "Nasci na fazenda, na beira do Acariji, Acari, um lugar denominado Mundo Novo, a sedezinha lá chamava Mundo Novo, e meu tudo é com três, eu sou do dia 13 de junho, da era de 23, três hora da manhã, dia de terça-feira, e tive 13 filho, morreu dois, nós somo 13 pessoa da casa, só na conta de três..." Para o violeiro, três é o número do equilíbrio. "Tudo é baseado em três, os poderes divino é três: Pai, Filho, Espírito Santo. O poder humano é três: legislação, executivo e judiciário."

Todos os tocadores que deram depoimentos têm muitas histórias para contar, histórias de vidas duras, de muito roçado, de pobreza, de alegria, fé, dança e cantoria. "Essas histórias trazem sensações desconhecidas, espantos. É outra forma de arte, arte ancestral. Descobertas vão se sucedendo à medida que nos aprofundamos no mundo da oralidade. Sabedorias de um existir paralelo ao mundo do conhecimento formal, que encanta e fascina. O iletrado pode ser um sábio", conclui Roberto Corrêa. Segundo ele, o livro mostra "o diferente, o óbvio. Nos remete ao leito, o caminho do centro. Revela-nos".

O contato com os artistas produziu momentos de genuína emoção. Segundo Lia, a equipe ficou tocada com a simplicidade, honestidade e disposição das pessoas em expor suas vidas e falar de sua arte. "Fomos sempre muito bem recebidos. Eles têm uma entrega, uma generosidade para falar de música, da fé, da arte. São espontâneos e livres."

O projeto, que contou com apoio da Petrobras e Siemens, se concentrou nos tocadores tradicionais do Brasil Central (Entorno do Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais) e Litoral Sul (Santa Catarina, Paraná e São Paulo. O que a equipe constatou foi, em muitos lugares, tradições em transformação. "As novas gerações têm experiências de vida diferentes das dos avós. Existem os mais novos que querem aprender, dar continuidade. Mas também há coisas se perdendo, embora haja interesse de pessoas de fora, de universidades", afirma Lia.

Nas regiões pesquisadas, predominam as Folias de Reis e o Fandango. Este, bastante importante no Litoral Sul e por muito tempo a única diversão do caiçara, segundo Lia. Esta manifestação é sinônimo de alegria. Os participantes desenvolvem várias coreografias, cada qual com ritmo, cantoria e passos próprios. "O Fandango é baile, festa. Os músicos tocam e cantam para que se baile. A instrumentação consiste, em geral, de violas, rabecas e pandeiros e a cantoria é feita em duas vozes."

"O Fandango? Acho que tem no meu sangue, no meu coração. Sabe por quê: por causa da minha família, é tudo fandangueiro. Meu avô era o maior lavorista que tinha aqui na ilha. Então, através do Fandango que ele fazia a lavoura dele pra ganhar o pão dos filhos, pra sustentar os filhos", conta Mestre Romão, 73 anos, nascido Romão Costa na Ilha dos Valadares, Paraná. A arte ele aprendeu aos 12 anos, e não mais parou. "Se eu for ter que dançá duas horas, três horas, a gente dança, assim em seguida", conta.

Entre o que Lia descreve como "caso especial" está o da família Pereira, todos multiinstrumentistas, todos tocadores de rabeca, viola, sapateadores. "É um trabalho lindo e eles fizeram um CD agora, Viola Fandangueira." A pesquisadora afirma que o mestre Leonildo Pereira foi um dos primeiros artistas de Fandango que conheceu. E deixou impressão indelével: "Quando tenho oportunidade de assistir sua performance no Fandango me delicio com a força do mestre, o preciosismo da técnica, a diversão do homem. Leonildo é um espírito em êxtase e quando está no Fandango sua certeza contagia a audiência."

Como quase todos os tocadores, Leonildo, 59 anos, aprendeu a tocar viola no convívio familiar. O pai tocava, o padrinho lhe deu uma rebeca e os irmãos foram atrás. Todos aprenderam, nem que fosse um pouco. Para esse homem criado e sustentado pelo trabalho da roça, que hoje vive em Abacateiro, Paraná, tanto faz se o instrumento que tem nas mãos é a viola ou a rabeca. "O prazer é um só. Eu tenho vontade de tocá dois. Caindo na minha rede é peixe, dos dois." O próprio Leonildo constrói seu instrumento. Um belo dia, conta, resolveu "brigá com o machado. Aí fui lá, derrubei um cambarazão, medi um pedaço lá, cortei um pouco por cá, por cá, larguei nele o machado, abri ele, labrei, cortei, cortei, cortei, deixei duas lascas bem fina." O resultado final da labuta: duas violas.

O clã Pereira é numeroso. Além de Leonildo, tem Randolfo, Zé, Arnaldo, Nilo, Heraldo, Anísio, Julino, Júlio e Pedro. Todos tocadores. O mais novo é Heraldo, 20 anos, rabequeiro, de fazer e de tocar. "Aprendi junto com eles", conta, referindo-se à numerosa família, a maioria vivendo em Rio dos Patos, Paraná. "Eu gosto da tradição deles."

Como seus companheiros de cantoria e viola, Leonildo acredita que é preciso se proteger contra o mau-olhado. No seu caso, garante, proteção maior é a própria coragem. Mas sabe de histórias de cabelo jogado dentro da viola, para estragar o instrumento. O truque para rebater o mal, no caso, é fazer uma bolinha de algodão e jogar lá dentro, assim quando o cabelo cai fica preso na fibra, "depois tira e tá tudo agarrado, joga fora porque aquilo estraga a viola".

As crenças, simpatias e malinagens são muitas. Ovo de mamangava, por exemplo, garante "seu Galo", nascido Durval Michaud Squenine, francês por parte de mãe e italiano por parte de pai, como gosta de esclarecer, "dá mais som no bicho". Violeiro de Fandango, nascido em 1930 na Ilha do Superagüi, Paraná, "seu Galo" tem outra receita infalível para aprimorar o instrumento: cabeça de besouro macho. "No minguante, quando acha um daquele besourinho que tem dois chifres, a gente tira a cabeça – mata ele e deixa, depois ele sai a cabeça. Então a gente, em casa, põe uma bolinha de algodão e põe dentro da viola. Que o algodão, quando às vezes cai um cabelo da cabeça da pessoa, aquele algodão lá dentro, chacoa-lhou a viola e aí o fio de cabelo gruda na bola de algodão e tira fora. Pra não ficá cabelo dentro do instrumento, porque arruína o instrumento."

Os bons violeiros, corre de boca em boca, têm pacto com o capeta. A maioria diz que não acredita nisso, mas um fiapo de desconfiança volta e meia ronda. Aparições, aliás, não faltam nos relatos dos tocadores. Tem o sujeito que viu o homem de pé redondo na dança, outro que avistou o saci-pererê fazendo Fandango em cima da pedra, e as histórias do cachorrão preto, parecendo lobisomem. Acima de tudo, entretanto, soberana, paira a fé, a devoção.

"A fé e as crenças são elementos muito presentes entre os tocadores", observa Lia Marchi. "A vida dessas pessoas é estruturada por valores fortes – terra, família, fé e o respeito que eles adquirem. O violeiro, o fandangueiro, são pessoas importantes, que preservam uma tradição. Quem toca transforma", diz.

Transformar é o ofício de Nego de Venança, no registro Augusto Ribeiro, nascido em 1936 em Vargem de Casa, município de São Francisco, Minas. Cedro rosa, imburana, marinheiro e pau-ferro são algumas das madeiras que saem de suas mãos na forma de violas, violões e cavaquinhos. Ex-carpinteiro, trabalhava em construção de casas, mas o tempo foi exigindo seu preço, as dores na coluna exigiam um ofício menos pesado. Aí a força da música falou mais alto e o tocador de violão, sanfona, viola e rabeca decidiu que poderia ganhar a vida fabricando instrumentos. Assim ele define seus sentimentos em relação à música: "Alegria. Mesmo instante dá um pouco de tristeza, dá emoção, isso e aquilo, né, rá, rá, rá. Às vezes a gente pega tocando uma coisa, uma música tão antiga que naquele tempo já gostou tanto dela, era um saudoso que cantava aquilo ali, entonce te alembra dele, dá emoção, num dá? É arriscado dá até água nos óio. Bom, sei que é importante por causa que a gente já tá dentro daquele sentido, né? Então é importante. O sentido é aquele, de profissão, coisa importante pra gente."

Tocadores, que a equipe pretende transformar em documentário, mas para isso ainda depende de patrocínio, é um mergulho na alma brasileira, um resgate da memória incrustada em cordas, arcos e tamancos. Uma viagem pelas tradições que esses músicos mantêm viva e que em contrapartida lhes dá o sopro da vida.
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Investnews/Gazeta Mercantil

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