Danilo Fantinel / Redação Terra"Arte, para mim, foi sempre uma obsessão. Nunca toquei a vida com a ponta dos dedos. Tudo o que fiz, fiz sempre com paixão"
"Creio que minha fase atual, neste momento, em 1993, reflete a eterna solidão do homem", Iberê Camargo.
Nascido no interior do Rio Grande do Sul, em Restinga Seca, em 1914, Iberê Camargo não teve apoio familiar para desenvolver o talento que apresentava. Em 1927, aos 13 anos, Iberê começou a estudar pintura na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria. No entanto, a dificuldade em aceitar o universo acadêmico e técnicas de produção que considerava antiquadas fez com que deixasse a escola em pouco tempo. No final da década de 30, ocupou o cargo de desenhista técnico na Secretaria de Obras Públicas da Prefeitura de Porto Alegre, tornando-se colega de trabalho do escultor Vasco Prado. Os dois chegaram a dividir um ateliê.
As telas no início da década de 40 eram uma tentativa de retratar a emoção do momento através da natureza e de cenários urbanos, nas quais o traço forte já marcava a expressividade do artista. Entretanto, pressionado pela falta de perspectivas de aprendizado e exploração de seu talento e valendo-se de uma bolsa de estudos do governo do Rio Grande do Sul, em 1942 Iberê mudou-se para o Rio de Janeiro com sua mulher, Maria Coussirat, com quem casou em 1939.
No Rio, em contato com intelectuais e artistas de diversas áreas, Iberê é tomado por novas percepções, que influenciam sua obra radicalmente. Criou o Grupo Guignard, apelidado pelo poeta Manuel Bandeira de A Nova Flor do Abacate, uma espécie de homenagem ao prédio, que abrigava anteriormente a gafieira A Flor do Abacate. Em 1947, recebeu um prêmio de viagem ao exterior no Salão Nacional de Arte Moderna. Seguiu para Roma, onde estudou com De Chirico, Petrucci e Achile entre 1948 e 1949. Viajou para Paris para tornar-se aluno de André Lhote até 1950.
De volta ao Brasil, em 1953, começou a lecionar no Instituo de Belas Artes, no Rio. Sua obra passa por um período de abstração, mas volta ao figurativo nas representações de carretéis, um dos símbolos mais recorrentes em sua obra. É um momento de afirmação de seu traçado denso, sombrio, e por vezes aterrorizante.
Retornou a Porto Alegre no início dos anos 80, aclamado unanimemente pela crítica nacional. Em 1984, uma série de exposições pelo país homenageou os 70 anos do pintor. Em 1988, lançou o livro de contos No Andar do Tempo e participou da exposição Modernidade – Arte brasileira do século XX, no Museu de Arte Moderna de Paris.
Em 1992, lançou o livro A Gravura, com exposição de gravuras em metal no Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre. Em 1994, participou do núcleo Abstrações, na Bienal Brasil Século XX, e teve Sala Especial na XXII Bienal de São Paulo. Iberê faleceu em 9 de agosto, em Porto Alegre.
O pintor era como um cronista com uma visão bem particular. Retratos do cotidiano, no qual fatos, lugares e acontecimentos que poderiam passar despercebidos são alçados ao pedestal de sua criação. Os ciclistas, os parques, os modelos ("as idiotas", figuras humanas bizarras e apavorantes) e os carretéis preenchem as telas, deformados e atormentados.
O figurativo recebe um tratamento avassalador de cores e formas, que por vezes esconde a diferenciação entre homens e mulheres, entre retratados e pintor. O figurativo de Iberê é quase abstrato. É deformado como um sonho. Amorfo como o mundo que serve de cenário. "Os motivos de meus quadros são visões do cotidiano, que transporto para o mundo das lembranças sob a inspiração da fantasia", escreveu no intrigante texto Eu pintei a morte, de 1993.
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