Dez meses depois do fim da meteórica revista Bundas, o cartunista e escritor Ziraldo Alves Pinto volta a apostar que ainda tem força o legado do Pasquim, tablóide que revolucionou o jornalismo brasileiro e infernizou os militares durante a ditadura com seu humor político escrachado. Se Bundas foi recebida como uma tentativa nostálgica do humorista de ressuscitar o antigo jornal, desta vez o humorista assumiu de vez o propósito de trazer pelo menos o nome do jornal de volta: no dia 25 de outubro, manda para as bancas o primeiro número do semanário Pasquim 21 — favor não confundir com algum projeto da Embratel. O editor do semanário, Zélio Alves Pinto, promete uma publicação sem o 'radicalismo xiita' contra a figura do presidente Fernando Henrique Cardoso que marcou Bundas. Não significa, ressalta ele, que o jornal fará qualquer concessão ao governo.
Do primeiro Pasquim, além do nome modernizado, o semanário aproveitará somente a irreverência e o humor de sempre. “Seria insensato trazermos de volta o velho Pasquim, que estava circunscrito a uma situação que não tem como rever sua época. Seria também frustrar os leitores, que iriam buscar o formato do antigo tablóide.” O editor admite que esse foi o objetivo de Bundas, que pretendia ocupar inicialmente o espaço de seu precursor.Desta vez, o tamanho do jornal será standard, o mesmo dos grandes jornais diários. “Esse formato nos permitirá abrir mais imagens e mais espaço, um problema que enfrentamos com Bundas.” Zélio conta que recusou as medidas do tablóide para não parecer com o antigo Pasquim. O jornal será todo em cores. Não está confirmado ainda, mas deverá circular com 32 páginas e tiragem de 100 mil exemplares. A divulgação e distribuição da maior parte da tiragem serão concentradas nas cidades do Rio, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte.
Millôr e Jaguar não vão participar
A redação do jornal terá uma equipe fixa de 17 pessoas e cerca de 50 colaboradores, entre jornalistas e articulistas. Estão definidas as presenças de Luis Fernando Verissimo, Ziraldo, Fausto Wolff e Washington Novaes, entre outros. Nem Jaguar nem Millôr aceitaram colaborar desta vez. “São profissionais com a vida pronta, não têm mais interesse em participar de um projeto como este”, justifica o editor. Zélio diz que vai investir principalmente do texto, sem abrir mão dos cartuns, caricaturas e charges — já estão cadastrados colo colaboradores cerca de 90 cartunistas, entre novos e veteranos. Uma das prioridades será revelar talentos da escrita. Já nos primeiros números, Pasquim 21 lançará um concurso de textos humorísticos para novos autores. A turma da velha guarda também aparecerá, como acontecia em Bundas. “Vamos pegar muita gente do mercado, com posição semelhante à nossa, não satisfeitas com o estado de coisas porque passa o país, mas nada ranzinza, sem abrir mão do humor”.
Uma novidade nesse sentido serão as reportagens semanais. Se antes a atração das duas experiências anteriores eram as grandes entrevistas, agora terá também grandes reportagens, como fazem as revistas semanais. De acordo com Zélio, uma característica que precisa ficar bem clara para o leitor será a linha editorial do jornal. Dessa vez, o novo jornal pretende trabalhar com questões contemporâneas, como a ecologia. O jornalista Washington Novaes, por exemplo, vai produzir uma série com mais de cinqüenta matérias sobre a água. “Traremos sempre matérias que tratam da vida, vamos passar verticalmente pela ecologia e pela política”. A edição será fechada ao meio-dia da quarta-feira. O editor afirma que, mesmo com a proximidade da data de circulação, o jornal estará comprometido com o noticiário quente. “É besteira concorrer com o jornal diário”, acrescenta.
O fracasso da Bundas
Os motivos para o fracasso da experiência de Bundas têm sido cuidadosamente observados pelos criadores do novo jornal. Zélio diz que, como veículo, a antiga revista foi bem decidida, mas um dos elementos para que não desse certo foi o preconceito dos anunciantes contra o nome da publicação. Em seus 78 números, publicados entre junho de 1999 e dezembro de 2000, a revista sobreviveu quase que 100% das vendas em banca. Segundo ele, criou-se também uma expectativa que não se cumpriu para uma parcela que nunca havia lido o Pasquim. Por causa do nome das primeiras capas, o leitor procurava uma revista de conteúdo pornográfico, com bundas e peitos maravilhosos “do ponto de vista anatômico”. Por isso, criou-se uma dicotomia porque esse perfil de público encontrou uma revista de política.
Bundas deu um prejuízo de R$ 1 milhão para seu fundador. O sucesso fez com que a tiragem inicial chegasse a 140 mil. Quando terminou, rodava 35 mil, o que inviabilizou sua continuidade. “Bundas tinha uma posição radical contra o presidente, insatisfeita com o fato de que toda a mídia estar ao lado dele e uma constatação disso está no fato de que se atreve a ir fundo nas denúncias contra o governo”. Parte das mudanças que virão com o novo semanário tem como alvo o mercado de anunciantes. “Até agora a receptividade tem sido boa, já temos parcerias dispostas a usar o meio”, ressalta o editor.
Gazeta Mercantil
volta