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NEGÓCIOS


PERSONAGEM
Vidigal vai à forra

Dono da Cobrasma leva governo aos tribunais para reaver perdas do Plano Cruzado e, com isso, tentar salvar sua empresa

Darcio Oliveira

Biô Barreira
AUTOCRÍTICA: “Depender da União foi um grande erro”

Na entrada da torre que abriga a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) pode-se ver, em discretas letras cromadas, o nome Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho batizando o edifício. Foi uma homenagem dos amigos empresários a um dos mais jovens presidentes que já passaram pela entidade. Eram tempos áureos, de uma Fiesp forte, representativa, que ele próprio, Luis Eulálio Vidigal, recorda com entusiasmo. “Fiquei envaidecido com a homenagem. Foram períodos difíceis, mas eu faria tudo de novo.” Hoje, o homem, com 61 anos, passa a semana dentro de um escritório simples, instalado em uma casa no centro de Osasco, Grande São Paulo, próximo a uma das fábricas da Cobrasma, empresa do setor ferroviário que o projetou para o cenário empresarial e que está atualmente no que se pode chamar de limbo: nem falida nem concordatária, mas paralisada. Ali, Luís Eulálio passa o dia fazendo contas. Deve cerca de R$ 700 milhões em impostos, como INSS, e outros R$ 43 milhões aos funcionários. “Não vou sossegar enquanto não der a fábrica aos empregados”, diz. Quanto às pendências tributárias, está tentando renegociá-las. Mas não imagine Vidigal de braços cruzados. Ele nunca foi assim. Nos últimos dias, colocou o governo no banco dos réus. Quer, a exemplo do que ocorreu com as empresas aéreas, reaver as perdas que teve no Plano Cruzado. Ele garante que o governo, só em reajustes, lhe deve uma bolada. “A Cobrasma sempre dependeu do governo e este foi meu maior erro”, conta. O empresário, expert em números, diz que perdeu as contas dos calotes das estatais. “Pleiteio o reajuste do que tenho a receber conforme a inflação do período.”

Se o julgamento, que deve durar uma década, for favorável a ele, Vidigal garante que deverá receber algo em torno de R$ 950 milhões. “Daria para pagar tudo o que devo e ainda preservar os imóveis”, diz. E por que Vidigal foi à forra depois de seis, sete anos da derrocada da Cobrasma? Até então, garante ele, havia promessas de novos contratos, havia esperança, enfim. Para entender a situação da Cobrasma é preciso voltar no tempo. A Companhia Brasileira de Material Ferroviário foi, durante anos, uma locomotiva no setor. Era a fornecedora preferida do governo e chegou a exportar vagões e equipamentos para países tão diferentes quanto o Gabão e os EUA. Todo esse prestígio começou a ruir quando a União – responsável por 70% das encomendas à Cobrasma – reduziu drasticamente os pedidos. Adicione-se aí a crise que colocou o setor ferroviário na lona, erros administrativos e altos custos nas fábricas e o resultado não poderia ser outro: seis anos consecutivos de prejuízos até a concordata no biênio 1991/1992. Em 1993, a Cobrasma conseguiu levantar a concordata, mas caiu de novo nos anos seguintes e resolveu encerrar as atividades. Hoje, o que restou do império de vagões é a fábrica de Hortolândia (SP) e algumas máquinas em Osasco. E é exatamente a fábrica de Hortolândia que ele quer entregar para os funcionários.

Longe da agonia da Cobrasma, a vida de Vidigal, que daria um livro, segue normalmente. Na semana passada, esteve em Berlim acompanhando a comitiva brasileira, capitaneada por FHC, no périplo europeu em prol das exportações brasileiras. Vidigal é o vice-presidente de integração internacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e, vez ou outra, tem de cruzar oceanos. “Meu forte é o Mercosul. Eu prefiro, é mais perto”, diz. Já viajou muito nos tempos de Fiesp. Agora, evita. “Passei muito tempo longe de casa. É a única coisa do que me arrependo.”

O dono da Cobrasma, hoje, cumpre meio “expediente” no escritório de Osasco. Pela manhã, não dispensa uma partida de tênis ou de golfe. Nos finais de semana, foge para a fazenda em Campinas. É um claro sinal de que se as coisas vão mal com a pessoa jurídica, não se pode dizer o mesmo em relação à pessoa física. Vidigal redescobriu a família e vive para ela. Voltou a ler com freqüência, principalmente Eça de Queiroz. “A literatura portuguesa é fantástica.” Daí, ele desce para a economia argentina. “Eles vão sair desta, mas têm de se preocupar com questões maiores do que as rusgas com o empresariado brasileiro”, diz. “Estamos deficitários na balança há dois anos e eles ficam enchendo a paciência.” E tome análise: Qual sua opinião sobre as privatizações? “São a âncora do Real.” E sobre a força da atual Fiesp? “Não comento, julgue você.” Pedro Malan para presidente? “É um craque como ministro, só isso.” Planos pessoais para a política? “Não sou político. Sou um empresário que pensa politicamente.” Seu pai, o prof. Luís Eulálio Bueno Vidigal, o chamava de capitão da indústria. Agora o capitão está na reserva. Nem por isso deixou o campo de batalha.

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