LUIZ HAFERS
“O
PAÍS QUER SER
MISS SIMPATIA” |
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Biô
Barreira
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Presidente da Sociedade Rural Brasileira critica comportamento “light”
do governo no comércio internacional
Paula
Pacheco
A bandeira
da livre competição, sem barreiras comerciais, foi
levantada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em recente viagem
à Europa. Entre caixas de melões e laranjas, FHC levou
aos líderes da Alemanha e da Holanda as reclamações
antigas dos produtores brasileiros. O presidente, pelo menos dessa
vez, encampou o discurso que há muito tempo é feito
pelo presidente da Sociedade Rural Brasileira, Luiz Hafers. Cafeicultor
há mais de 30 anos e um crítico à política
agrícola brasileira, Hafers ainda quer mais. Para ele, é
necessário aprofundar mais a discussão sobre o tratamento
dos parceiros comerciais em relação ao País,
levando nossos diplomatas a uma mudança de postura. O
Brasil precisa deixar de lado o papel de miss simpatia
nas suas relações internacionais, afirma. Segundo
o presidente da entidade, a agricultura que se faz por aqui está
entre as mais modernas do mundo, mas falta ao Brasil se impor para
ter mais destaque no comércio internacional. Um exemplo do
que vem sendo feito por aqui, segundo ele, pode ser conferido nas
novas áreas de plantio, como o Nordeste e o Centro-Oeste.
DINHEIRO
O governo brasileiro tem uma política agrícola
efetiva?
LUIZ HAFERS Nós não temos política
agrícola no Brasil. Política agrícola não
é só de plantação, tem de ser rural,
que passa pelas propriedades familiares, pelas propriedades empresariais,
pela transferência de indústrias para o interior para
criar emprego, que contemple uma forte pressão na hipocrisia
dos países desenvolvidos no sentido de atender aos seus consumidores
através dos nossos preços. Não vamos simplificar
uma política agrícola só como uma política
mínima de garantia e outra de crédito subsidiado.
Precisamos ver qual é o interesse nacional em relação
às regiões metropolitanas não-urbanas. Na falta
de um plano abrangente de médio e longo prazo, a agricultura
e o Brasil passam por medidas tópicas circunstanciais, onde
é premiada a esperteza em vez de se ter a consistência
de uma política de longo prazo.
DINHEIRO
O sr. poderia dar um exemplo?
HAFERS Com a mudança da Lei Kandir, houve uma
isonomia de impostos na exportação. A indústria
era extremamente beneficiada antes da Lei Kandir. O imposto na soja
era 13% e o do óleo de soja, 8%. Como o imposto sobre o grão
era no porto, era maior que 13%, porque também incidia o
frete. Havia uma vantagem de 5% que facilitava em muito a vida dos
esmagadores de grãos, criando um superinvestimento que hoje
em parte está ocioso.
DINHEIRO
A política agrícola continua num caminho torto?
HAFERS Continua torta. Outro exemplo é o do
couro. Havia uma grande discriminação tarifária
em relação ao couro. Com a alteração
na Lei Kandir, isso acabou. Os frigoríficos se adaptaram
e passaram a curtir o couro na primeira fase do curtume. E o Brasil
passou a exportar US$ 800 milhões desse produto. A indústria
estabelecida de acabamento de couro e os sapateiros se insurgiram
contra isso porque acham que é uma injustiça eles
terem de comprar o couro ao mesmo preço do que seus concorrentes
e dizem que tem imposto lá fora contra o sapato. Não
é verdade. Quem compra o nosso couro, como o italiano e o
chinês, vende sapato nos Estados Unidos com a mesma tarifa
que o nosso produto. Ainda persiste uma arrogância de que
a indústria merece tudo e a agricultura tem uma má
pecha de ser atrasada. A agricultura brasileira é uma das
mais adiantadas do mundo. Ganhou 40% de produtividade nos últimos
15 anos, sendo que a área é a mesma.
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