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ENTREVISTA


“O Pratini tem se esforçado. Mas há cada vez mais barreiras aos nossos produtos”

DINHEIRO – Na sua opinião, falar em fazendeiro no Brasil é como dizer um palavrão?
HAFERS –
É verdade. Eu faço questão de dizer que eu sou fazendeiro. O que acontece é que a esquerda sempre teve um horror ao fazendeiro porque ele representava no século 19 um poder político contra o qual ele se insurge até hoje e que não existe mais. Esse ranço começou na Europa e vem de antes da Revolução Francesa. Nós estamos copiando o antigo em vez de enfrentar o moderno.

DINHEIRO – E os financiamentos para a produção agrícola, andam a contento?
HAFERS –
Ainda são muito tímidos. Não podemos competir com taxas de mercado. Elas são feitas pela necessidade do governo. Existe um sistema de equalização de juros, pelo qual nós conseguimos, teoricamente, dinheiro a 8,75% e o governo equaliza as taxas de juros até os 16%. Li no jornal que isso custou ao governo R$ 2,5 bilhões, ou seja, o mesmo valor que foi entregue para socorrer o Banco Marka. A verdade é que nós poderíamos dobrar a produção, via expansão e produtividade, em cinco ou seis anos. Mas não ganhamos dinheiro suficiente para investir nessa velocidade. As principais barreiras para o avanço da agricultura brasileira são o custo dos juros e a hipócrita política dos Estados Unidos e da União Européia, com barreiras alfandegárias e não-tarifárias altíssimas, que nos negam o acesso ao mercado. Depois eles vêm com aquele discurso liberal. Promovem a pobreza no interior das Américas e depois mandam uma ONG para discutir a má distribuição de renda. Pura sacanagem...

DINHEIRO – O sr. acha que o fato de o Mercosul ter se transformado em alvo de disputa entre a União Européia e os Estados Unidos pode trazer alguma vantagem para o Brasil?
HAFERS –
Já disseram que países não têm amigos, têm interesses. Quando nós abrimos o mercado para a Banda C de telefonia, fiz uma pergunta e não obtive resposta. Esse é um mercado de US$ 5 bilhões e optamos pelo sistema europeu. Eu não vi nenhuma conversa sobre compensações nos produtos agrícolas. Quando surgiu a questão da Embraer e nós perdemos na OMC, todas as retaliações foram em cima dos produtos agrícolas. Temos um grande defeito no Brasil, fazemos campanha de miss simpatia. Nós queremos ser gostados, quando deveríamos ser respeitados. Pelos interesses do meu País, eu quero ser respeitado, temido, se necessário, odiado, se inevitável. Sofremos de uma subserviência das mais odiosas. Não quero opinião, quero respeito.

DINHEIRO – Que futuro o sr. enxerga para o Mercosul?
HAFERS –
O bloco é inevitável. Confesso que não me espanta a dificuldade de crescimento do Mercosul à medida que os setores vão se sentindo prejudicados em algum momento. Assim como aconteceu com a União Européia, a nossa união vai levar tempo, mas não podemos desistir. Claro que quando acontece uma situação como a de agora, com a Argentina fixando cotas para o nosso açúcar, o quadro parece insustentável. Mas cedemos bastante e está na hora de endurecer. O Brasil é o maior mercado do bloco e tem de deixar isso claro para seus parceiros. Repito: não estamos num concurso de miss simpatia.

DINHEIRO – O desenvolvimento de novas áreas agrícolas nas últimas duas décadas está apontando para qual rumo?
HAFERS –
Vivemos um momento de ruptura. Estamos saindo de uma agricultura de extração, em que plantávamos em terras férteis que foram se exaurindo. Agora, estamos fazendo plantações em terras absolutamente pobres. Esta é a agricultura de conversão, em que a propriedade não é importante, mas sim a competência em torná-la produtiva. Isso é agricultura moderna. Há quatro anos o Brasil foi o maior importador de algodão do mundo. Daqui a quatro anos vai se transformar num dos maiores exportadores. Graças às novas técnicas, foi possível produzir algodão com índices de produtividade altíssimos no cerrado. A terra pobre é possível corrigir, já o clima não. O cerrado tem um bom clima e onde há problema de água existe a possibilidade de irrigação.

DINHEIRO – Em casos como esses, o índice de produtividade consegue ser mais alto do que no sistema convencional?
HAFERS –
É muito mais alto. O custo é mais alto, mas o valor produzido também. No primeiro caso, colocava-se a semente e se extraía do solo. A agricultura de conversão é mais intensiva de técnica, de capital e de maquinário, mas não é de terra e de mão-de-obra. Um caso curioso é que as fazendas do cerrado não têm varanda para se ficar esperando.

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