A
marcha de Nike e celular
Bem
equipados, trabalhadores investem R$ 167 mil em passeata por mínimo
de R$ 180
Marco
Damiani
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Biô
Barreira
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| LARGADA
NA ANHANGÜERA: saindo de São Paulo, 150 sindicalistas vão
percorrer 1.100 km em 40 dias até Brasília |
De
norte a sul, leste a oeste, o País se acostumou a ver todo
o tipo de marchas de protesto. Desde Luís Carlos Prestes,
nos anos 20, com a coluna de militares revoltosos, até as
legiões de agricultores sem terra que no ano passado avançaram
sobre Brasília, elas sustentaram vários estandartes.
Nunca como agora, porém, se viu tanta organização
e esmero. Depois de realizar nos últimos sábados longas
caminhadas à guisa de treinamento de resistência, chegou
a hora de sindicalistas moderados caírem na estrada, a pé,
à sombra de bandeiras que exigem aumento no salário
mínimo dos atuais R$ 151 para R$ 180. Pela diferença
de R$ 29 a mais nos rendimentos dos 27,5 milhões de brasileiros
que vivem com o mínimo, eles vão fazer um sacrifício
e tanto. Um passo após outro, o grupo de 150 pessoas larga
na manhã desta segunda-feira, 23, em São Paulo, para
chegar ao destino 1.100 quilômetros e 40 dias depois, quando
monta acampamento no gramado diante do Palácio do Planalto,
em Brasília. Vamos pressionar a área econômica
e o presidente até o aumento sair, diz Luiz Antônio
de Medeiros, deputado federal do PFL e sindicalista da Força
Sindical. Essa é a linguagem que eles entendem.
Ao
contrário da histórica jornada dos cavaleiros prestistas
ou do estoicismo típico dos sem-terra, os andarilhos pelo
mínimo maior contam com infra-estrutura, planejamento e um
certo conforto. A marcha tem orçamento de R$ 167 mil. Dinheiro
suficiente para que duas equipes motorizadas, uma destinada a montar
barracas e outra a fazer comida, apoiadas por uma carreta com água
e mantimentos, sempre fiquem adiantadas em relação
aos caminhantes. Eles deverão andar 30 quilômetros
a cada dia, das 6 horas ao meio-dia, e a cada vez que chegarem a
um dos 14 acampamentos de beira de estrada tratarão de realizar
comícios. Na retaguarda, uma ambulância, pronta para
socorro em caso de tropeços graves. Mochilas e camisetas
foram confeccionadas especialmente para a ocasião. A mensagem
dos marchistas, que inclui a reivindicação do pagamento
pelo governo da correção do FGTS determinada pela
Justiça, será ampliada por um assessor de imprensa,
encarregado de atrair a mídia das cidades por onde a caminhada
passar. Com celulares agarrados à cintura, os manifestantes
estarão ligados ao mundo para vocalizar cada etapa da viagem.
A insensibilidade do governo será exposta todos os
dias na artéria mais importante do País, aposta
o metalúrgico Miguel Torres, encarregado da logística
em volta da tropa.
O
zelo em torno da marcha é justificável. No grupo de
sindicalistas há, sim, quem irá caminhar com tênis
Nike, cujo preço pode ser superior a um salário mínimo,
mas muita gente que lá está é o retrato acabado
do brasileiro mais pobre. Aposentado, com uma bolsa de colostomia
pendurada à barriga, Rubens de Souza Fernandes, 61 anos,
acredita que separar-se temporariamente da mulher e dos oito filhos
vai valer a pena. Eu e mais 12 milhões de aposentados
vivemos de salário mínimo. Para o governo, o aumento
é pequeno, mas para nós significa muito. O economista
Márcio Pochman, da Unicamp, não estará ao lado
dos pedestres como Fernandes, mas com eles concorda. Este
ano, a Previdência recuperou receitas e as taxas de juros
caíram de 19% para 16,5%, com a conseqüente redução
no serviço da dívida pública, contabiliza.
Significa que o governo acumulou recursos e tem como pagar
o mínimo de R$ 180. Nas minhas contas, este valor pode ser
de até R$ 220 sem que haja problemas.
No
canteiro do km 13 da Via Anhangüera, em São Paulo, onde
foi inspecionar o local de seu primeiro acampamento, o deputado
Medeiros comemorava o aumento de força e pressão em
torno do reajuste do mínimo. O debate está quente,
está bom, disse à DINHEIRO. Nossa marcha
vai ser o elemento de repercussão que estava faltando.
Safenado que já correu quatro maratonas, ele não vê
a hora de por o pé na estrada. Convenceu pessoalmente a Força
Sindical a bancar a empreitada. Sob o argumento de que a infra-estrutura
sairia cara demais, alguns diretores tentaram enterrar o projeto
numa reunião três meses atrás. Se é
assim, vou sozinho, retrucou Medeiros, que virou a mesa a
seu favor e sente, agora, que larga na hora certa. O arco
de forças em torno do aumento do salário mínimo
nunca foi tão amplo, estima o professor Pochman. Ao
governo, será muito difícil resistir.
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