
George
Bush tem muito dinheiro e Al Gore, bons ar
gumentos. A hora decisiva da eleição americana chegou
Ivan
Martins, de Washington
“Se
você quer um sujeito que faz o jogo da indústria farmacêutica, ele
é o homem.” A frase é do vice-presidente Al Gore, candidato do Partido
Democrata à presidência dos Estados Unidos. Foi dita na noite de
terça-feira, 17, no terceiro, último e áspero debate eleitoral travado
entre Gore e George W. Bush, o candidato republicano. No dia seguinte,
a afirmação não ganhou destaque nos jornais nem foi mencionada nos
programas populares de rádio. Acabou submersa por uma cobertura
de imprensa francamente favorável a Bush, que lembrou o tratamento
dado pela Rede Globo ao debate entre Lula e Collor de Mello, no
segundo turno da eleição de 1989. Não obstante, a frase dura de
Gore reflete um fato verdadeiro: Bush é, de fato, o candidato favorito
das empresas farmacêuticas, assim como da indústria de petróleo,
dos bancos, da construção civil, dos fabricantes de armas, do agrobusiness.
Esse apoio empresarial garante que Bush tenha em caixa o dobro da
verba de que dispõem os democratas para fazer campanha.
Simpático,
conservador, com laços profundos e antigos com a indústria petroleira,
o filho do ex-presidente George Bush é o homem do grande capital.
Ele quer diminuir os impostos dos ricos e reduzir o controle do
governo sobre as empresas. Quer também abrir o sistema público de
seguridade social à exploração privada e criar mercados onde eles
ainda não existem, como na educação básica. Bush representa a volta
do reaganomics, a política econômica ultra-liberal do ex-presidente
Ronald Reagan, que prevaleceu na década de 80. Ela fez a fortuna
dos grandes investidores, permitiu uma orgia de consumo no topo
da pirâmide de renda e acabou com a segurança econômica dos americanos
pobres. De bônus, arrebentou as finanças públicas. Assim como Bush,
Reagan era um populista de direita muito simpático, que se expressava
por clichês e detestava discussões complicadas. Frase de Bush sobre
seu adversário nas eleições: “Ele quer dar dinheiro para o governo,
eu quero dar dinheiro às pessoas”. É puro Reagan, e funciona.
|
Reuters
|
 |
|
Bush
Jr.: “Quero dar dinheiro às pessoas”, diz o favorito das empresas
de óleo e gás
|
A duas
semanas das eleições, marcada para 7 de novembro, boa parte do empresariado
americano está torcendo pelos republicanos. Mais do que torcer,
o setor privado deu à campanha do governador do Texas a fortuna
de US$ 180 milhões, quase o dobro dos US$ 97 milhões entregues por
eles ao candidato democrata. Por trás da aposta desproporcional
– exacerbada pelo fato de os dois candidatos estarem tecnicamente
empatados nas pesquisas – encotram-se, além da simpatia ideológica,
uma série de questões legislativas e regulatórias que um governo
republicano tenderia a resolver de forma mais favorável às corporações.
A indústria
farmacêutica é um caso exemplar. Gore já avisou que, eleito, irá
reforçar os poderes da comissão federal que estuda práticas de mercado
antipopulares. Entre elas, encontra-se a forma como as grandes empresas
de medicamentos estão impedindo que cheguem ao mercado produtos
genéricos baratos. Os laboratórios detentores das patentes vencidas
pagam seus concorrentes menores para que eles não ponham na praça
produtos alternativos com preços mais baixos. Bom para os seus acionistas
e péssimo para milhões de consumidores e doentes. Na terça-feira,
o vice-presidente voltou a bater nessa tecla, dizendo que os preços
na área de saúde tinham fugido ao controle e que era preciso proteger
os pacientes. A resposta de Bush: “Não acredito em controle de preços.
Ele fere a economia e inibe a pesquisa”.
Em
uma eleição tão parelha como esta, as doações têm importância de
vida ou morte. Elas permitem aos partidos disputar eleitores de
última hora com uma barragem de propaganda. E agora é o duelo final.
Os democratas reservaram para a salva publicitária, no último mês
de campanha, algo entre US$ 20 milhões e US$ 25 milhões. Os republicanos
dispunham de US$ 46 milhões para a mesma finalidade. Parte significativa
desse dinheiro veio de milionários interessados em uma promessa
de campanha de Bush: redução de impostos. Em quatro anos, o governador
do Texas quer eliminar US$ 1,6 trilhão de impostos pagos pelo 1%
dos americanos mais ricos. Essa quantia é maior do que ele calcula
gastar com saúde e educação durante o seu governo – e caracteriza
uma brutal transferência de renda, no melhor estilo Reagan.
|
AFP
|
 |
|
Gore:
dificuldade em capitalizar as conquistas econômicas da Era
Clinton
|
“Se
vocês querem voltar à política econômica de 10 anos atrás, baseada
em cortes de impostos, ele é o homem certo”, provocou Gore durante
o debate. Está implícita nessa frase uma constatação que o eleitorado
parece não estar fazendo: a vida melhorou, e muito, nos oito anos
de governo democrata. O desemprego acabou, muitos ganharam fortunas
na Bolsa e até a criminalidade diminuiu. Na Era Clinton melhoraram
os serviços públicos e acabou o déficit do governo federal. Foi
um grande feito, mas ele não está beneficiando Gore. Com dinheiro
no bolso e emprego assegurado, os americanos que se dão ao trabalho
de votar resolveram esquecer a economia e voltar-se para questões
como liderança e confiabilidade. E Bush está levando a melhor. Se
ele vencer, a roda da fortuna que tomou a presidência de seu pai
em 92 terá dado uma volta completa. Naquele ano, Clinton venceu
Bush pai centrando fogo no desemprego e na recessão. O mote interno
da campanha democrata ficou famoso: “É a economia, idiota!” Passados
oito anos, com a economia crescendo 5% ao ano, o mote mudou. Agora
deve ser a Mônica, idiota. Mônica
Lewinsky.
|
“Se
vocês querem voltar 10 anos, ele é o homem” Al
Gore
|
|