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EDITORIAL
Sexta-feira, 21 de Setembro de 2001

A MARCHA DOS JUROS

 

Um a um, em cada continente, os países foram baixando, de forma significativa, as suas taxas de juros nos últimos dias. O Japão chegou a recuar para insignificante 0,1% ao ano – ou 190 vezes menos que a taxa brasileira, mantida no patamar de 19% ano –, mesmo sendo o Japão, no momento, uma país em aguda crise econômica, com os bancos devendo mais de US$ 600 bilhões. Alan Greenspan, o chefe do Fed, o senhor do cofre americano, capaz de guiar tendências financeiras planeta afora, ditou o comportamento. Pediu pessoalmente a presidentes de BCs de todas as partes que recuassem os juros para estimular crescimento econômico em meio ao estado de guerra. Pegou o telefone e falou com vários deles. Pena que deixou de ligar para Armínio Fraga, nosso correlato no BC brasileiro. Fraga não apontou qualquer intenção de baixar juros e disse que há muito pouco a fazer. “O Brasil não tem margens.” O mundo participa de uma marcha para revitalizar a economia, para incrementar atividade, produção e emprego, via taxas mais amenas, e o Brasil dá de ombros. Finge que não é com ele. É o mesmo Brasil que experimenta outro de seus lamentáveis recordes: a dívida mobiliária, em títulos públicos, aumentou em quase R$ 70 bilhões neste ano e o Tesouro Nacional informou na semana passada que o total da dívida já chega a R$ 606 bilhões, mais de dez vezes o número com o qual o governo FHC assumiu o leme da economia. Dessa monumental montanha muito foi acumulado a base de juros sobre juros, que levou o Brasil a uma redenção ao capital externo sem precedentes. Frágeis como nunca, as contas públicas empurraram o País ao imobilismo: autoridades econômicas temem sair do lugar, mexer na sua política, para não espantar investidores – que, por todos os motivos, estão bem assustados e encolheram apostas nos países emergentes. Não há taxa alta que os conquiste neste momento. Nessa marcha de 19% inalterada, contra o fluxo de todos os outros BC de baixarem as taxas, é mais provável o Brasil afugentá-los.

Carlos José Marques

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