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Sexta-feira, 6 de Julho de 2001

PARA ONDE VAI O MAURO DA MICROSOFT
Depois de nove anos “no front”, ele agora vai cuidar da imagem
da empresa na AL

Ivan Marins

  Rafael Jacinto/Valor/Arte: Galismarte

Mauro Muratório Not, o principal executivo da Microsoft no Brasil, costuma dizer que a empresa na qual ele trabalha é pequena. Contra todas as evidências, sustenta que vista por dentro a companhia de Bill Gates não é o gigante que o mercado se acostumou a temer. É uma tese exótica, parece bobagem, mas Mauro tem alguma razão em defendê-la. Há 16 anos na companhia, ele viu a Microsoft se transformar de mera empresa local na maior potência mundial do setor. O executivo brasileiro conhece fraternalmente os manda-chuvas da companhia e é bem conhecido por todos eles. Já encheu a cara com Gates na Europa, já viajou com o chefe em férias na Amazônia e foi o Jaguar de Gates que arrebentou o seu primeiro carrão americano, em 1988, no estacionamento da Microsoft em Redmond. Por conta dessa familiaridade, Mauro é recebido com mulher e filhas na famosa mansão de Gates, pela família completa do patrão. Tudo bem que o sujeito é o homem mais rico do mundo e que a empresa que ele comanda está a caminho de comprar o universo, mas para Mauro ele é o Bill. E a Microsoft é quase família. “Para mim não existe outra companhia”, diz o gaúcho emotivo. “Da Microsoft eu só saio para a minha casa.”

Na semana passada, ele surpreendeu o mercado ao avisar que estava saindo. Não da Microsoft, que ele declaradamente ama, mas da direção da empresa no Brasil, que ocupa há oito anos. De agora em diante, o ex-sobrinho pobre do falecido Matias Machline será o diretor de Estratégia para a América Latina, com jurisdição do México à Patagônia. A função foi criada há seis meses e caiu como luva nos planos do executivo de 41 anos. “Eu estava na trincheira há nove anos, cuidando todos os dias das vendas e do marketing. Já era hora de mudar”, diz ele. Na gestão de Mauro o faturamento da empresa no Brasil saltou de US$ 18 milhões para US$ 438 milhões. O nome do seu substituto ainda não foi escolhido, mas nos corredores da empresa em São Paulo dão-se como certas duas coisas: que será alguém da Microsoft, claro, mas que ele ou ela não virá da equipe brasileira. No páreo estão executivos europeus e latino-americanos, que falem português. Mas o próprio Mauro não desmente e nem confirma essas informações. “O nome do novo gerente-geral será anunciado esta semana”, informa.

O que Mauro fará de agora em diante, no continente todo, é algo que ele não tinha tempo para fazer como o principal executivo da empresa no Brasil: cuidar da imagem da Microsoft, explicar sua estratégia tecnológica e conseguir parceiros locais para implementá-la. “Os gerentes-gerais não têm tempo nem para se coçar”, diz o novo diretor latino- americano. “A imagem e a estratégia da companhia sofrem com isso.” Duas coisas o preocupam em particular. A primeira é a tecnologia .net, uma tentativa da Microsoft de abrigar sob o seu guarda-chuva toda a comunicação entre máquinas realizada através da Internet. A idéia é que os computadores e outros aparatos falem entre si e automatizem funções, usando programas Microsoft. Essa nova visão implica grandes mudanças conceituais e técnicas, que têm de ser vendidas ao mercado. “Quero criar o novo círculo virtuoso da Microsoft e fazer com que desta vez ela seja melhor entendida”, diz Mauro. A outra preocupação, que vai de mão dada com a primeira, é aprofundar as relações com empresas, universidades e governos em cada país. Ao contrário do que acontece com os programas convencionais de PCs, que são produzidos em Redmond e despachados para o resto do planeta, a nova tecnologia Internet precisa de muita interação local. É a oportunidade da Microsoft para fazer parcerias e aumentar seus investimentos na América Latina, retocando a imagem de predadora que prevalece em muitos mercados, inclusive no Brasil. “A Microsoft não pode mais se dar ao luxo de descuidar da imagem”, diz Mauro. “Agora eu vou ter tempo para cuidar disso.”

 

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