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EDITORIAL

Sexta-feira, 4 de Maio de 2001

PROTECIONISTA, EUA?

 

A tática é conhecida: desqualificar o adversário, atacar antes de ser atacado, provocar. Os EUA, no seu apurado senso de combate, partiu para a ofensiva. Desancou em relatório comercial o parceiro-adversário Brasil com acusações de protecionismo, justamente a ciência onde ele é mestre. Proteger a economia e a indústria local virou esporte das autoridades americanas – do presidente George Bush aos conservadores parlamentares do Capitólio, todos empenhados em consagrar a tese do “primeiro nós, depois o mundo”. E não podia ser diferente. Cada um que trate de cuidar dos seus interesses. Os demais países é que têm de aprimorar o zelo pelo seu quintal.

No último avanço de sinal comercial, os EUA escolheram o Brasil como alvo da vez. A honorável USTR (United States Trade Representative), o organismo negociador de comércio da Casa Branca, acusou o rival (?) de adotar medidas protecionistas e subterfúgios – aqui colocado como tal a decisão brasileira de produzir remédios para Aids passando por cima da lei de patentes americana. Meteu o País na sua lista negra das nações que devem sofrer barreiras comerciais e retaliações. Não há surpresas. Assim agem tradicionalmente os EUA. Nessa postura é que devem se espelhar os organismos de cá quando sentarem à mesa para negociar questões tão caras aos planos de expansão americana, como a Alca. De bate-pronto, o ministro Pedro Malan já deu uma resposta no melhor estilo “protecionistas são os outros”. Disse Malan, em encontro em Nova York: “O pior que pode acontecer é um incremento do protecionismo nos EUA. O Brasil não é de nenhuma maneira um país protecionista”. O recado teve endosso e reforço de quase todos os colegas de ministério, de Serra a Tápias, Lafer, e até o presidente Fernando Henrique aproveitou para pontuar: “O Brasil respeita as patentes, mas quando for necessário à sua política, não hesitará em se sobrepor a elas”. A mudança de tom, em várias nuances, exprime uma melhoria da compreensão entre autoridades sobre o peso e as conseqüências que um novo bloco comercial, do tamanho da Alca, trará para a sociedade.

Carlos José Marques

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