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Sexta-feira, 9 de Março
de 2001
O BODE
DO MERCADO
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Famoso
pelo apelido e discrição, ex-dono do Multiplic está em todas:
da petroquímica ao marketing |
Existe
um caso em que colocar o bode na sala não significa
arruinar um bom negócio em andamento. É quando o caprino
em questão é o empresário Antônio José
Carneiro, apelidado Bode desde a infância, por
conta de seu sobrenome. Ex-controlador do Banco Multiplic, que vendeu
ao Lloyds Bank embolsando US$ 300 milhões, ele já
adquiriu, na surdina, 35% das ações do grupo Ipiranga
e hoje faz campanha, ao lado da Odebrecht, para comprar a
petroquímica do grupo). Apostador apaixonado do mundo das
finanças, ele é um daqueles tipos que não conseguem
dormir direito quando não têm um grande negócio
para fechar. Depois de passar por todo o espectro da economia, das
bolsas ao petróleo, o Bode decidiu agora saltar sobre o mundo
do esporte. O primeiro passo foi comprar, no início do ano,
um naco da Totalcom, holding que controla a agência Fischer
América, uma das maiores em marketing esportivo no continente.
Depois, tentou engatar uma negociação para adquirir
o Botafogo Futebol e Regatas, seu time do coração.
Não conseguiu, mas já percebeu que o negócio
lhe agrada. Uma empresa de seu grupo, a All-E, acaba de fechar contrato
com sete clubes paulistas para vender celulares pré-pagos
com distintivos do São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Santos,
Ponte Preta, Guarani e Portuguesa.
Os negócios são recentes, mas sua afinidade com o
esporte é antiga e mostra um pouco do seu modo de atuar.
No ano passado, na tumultuada eleição do Jockey Club
do Rio em que o banqueiro Julio Bozano foi derrotado, ele fechou
com a chapa vencedora e assumiu a vice-presidência de Finanças.
Sua mão santa fez a diferença entre a água
e o vinho no caixa do clube. Quando assumiu a tesouraria, a instituição
amargava uma dívida de R$ 1,4 milhão. Em seis
meses de gestão, o passivo bancário foi revertido
para zero, conta o presidente do Jockey, Luiz Alfredo Taunay.
No caminho, Bode chegou a negociar na moita um empréstimo
de R$ 7 milhões junto ao BNDES. Ele havia sido aprovado,
mas melou quando a imprensa divulgou a negociação.
Afinal, financiar clubes de elite não é exatamente
função de um banco de fomento. E a amizade de Bode
com o presidente do banco, Francisco Gros, aumentou o incômodo
da situação.
Seus amigos calculam que o Bode já tenha acumulado um patrimônio
na casa do bilhão, investindo o que recebeu pela venda do
Multiplic. Sua tacada no marketing esportivo faz parte de um avanço
de maiores proporções sobre o mundo da propaganda.
Com a entrada do novo sócio, o grupo Totalcom abriu uma subsidiária
na Colômbia e anunciou que pretende se tornar o maior grupo
publicitário da América Latina. Carneiro, além
do capital, aportará um poder de alavancagem muito grande
ao nosso grupo, festeja Eduardo Fischer, presidente do Conselho
de Administração da holding e controlador da Totalcom.
O mercado acompanha interessado a nova tacada de Carneiro, um homem
que fez fortuna a partir do zero. Começou como operador de
pregão, em parceria com o hoje deputado Ronaldo Cezar Coelho,
quando a Bolsa do Rio viveu o Milagre Brasileiro, no início
dos anos 70. O dinheiro ganho com ações permitiu que
os dois comprassem a pequena corretora Multiplic. Ela foi uma das
potências do nascente open market, transformou-se em banco
e construiu depois a maior financeira do País, a Losango.
Enquanto o deputado preferiu as luzes da vida pública, Carneiro
optou sempre pela discrição e a sombra. É avesso
a badalações noturnas, circula em um grupo de amigos
estreito, porém fiel, e evita fazer barulho mesmo no mundo
dos negócios. Quando ele e seu antigo sócio venderam
as parcelas que detinham no Multiplic, há cinco anos, o Bode
espalhou que iria viver retirado em sua fazenda em Minas Gerais,
onde cria um plantel de cem cavalos manga-larga. Discreto como sempre,
porém, continua freqüentando o escritório que
mantém no Rio com o ex-sócio Ronaldo Cezar Coelho.
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