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ECONOMIA

Sexta-feira, 9 de Março de 2001

A QUEDA DA ITAMARATY

Aquela que já foi a maior e uma das mais luxuosas fazendas do País vai passar para as mãos de trabalhadores sem terra do MST

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Deise Leobet e Fabiane Stefano

Fotos: Régis Filho, Ricardo Giraldez e Prensa Três/Arte: Décio d’almeida  

Sai a realeza e entra a plebe sublevada. A fazenda Itamaraty, um dos maiores símbolos do latifúndio brasileiro, vai mudar de dono. No lugar do ex-rei da soja Olacyr de Moraes, 1. 300 famílias de trabalhadores sem terra. Um destino inesperado para a fazenda que até meados da década de 80 era a maior produtora de soja do mundo. Os novos proprietários devem chegar somente no segundo semestre deste ano, quando se inicia o plantio da safra de verão. A partir daí, além da soja haverá o cardápio básico do brasileiro: arroz e feijão. “Claro que sinto perder a propriedade, mas tudo tem a sua fase”, lamenta Olacyr. A venda da fazenda para o Incra é um segundo golpe para o empresário. Em 1998, metade dos 50 mil hectares da gleba foi tomada pelo banco Itaú para abater dívidas do empresário. Agora, o banco deve repassar a escritura dos 25 mil hectares da Itamaraty Sul ao Incra, por R$ 27,61 milhões, mas não vai receber dinheiro vivo por isso. O Itaú ficará com uma montanha de Títulos da Dívida Agrária (TDAs), com prazo para resgate de até 15 anos. Já Olacyr, que continua dono da outra metade da área – embora tenha esperanças de também vendê-la ao governo – terá como vizinho o Movimento dos Sem-Terra. “Se precisar, daremos suporte técnico aos novos donos”, diz Olacyr, ocultando-se atrás do velho e bom plural majestático.

A Versalhes rural erguida pelo Rei da Soja tem tudo para agradar os jacobinos de João Pedro Stédile, convertido numa espécie de Danton da Nova Era. Localizada no município de Ponta Porã (MS), a 350 quilômetros ao sul de Campo Grande, a fazenda possui terras de qualidade e excelente infra-estrutura. Lá estão instalados 63 pivôs de irrigação, que garantem água para 7,3 mil hectares de lavoura durante a estação de seca. A fazenda possui 200 quilômetros de rede elétrica, 172 quilômetros de estradas cascalhadas. Há também três pontes e nove represas. Como não poderia ser diferente, as benfeitorias incluem luxos típicos do Luís XVI do Centro-Oeste, como três pistas de pouso para aviões. Apesar das facilidades existentes, o Incra e governo do Mato Grosso do Sul estão quebrando a cabeça para definir o modelo de ocupação da terra. O grande desafio é transformar o latifúndio produtivo em uma área de agricultura familiar de sucesso.

  Fotos: Régis Filho, Ricardo Giraldez e Prensa Três/Arte: Décio d’almeida
  Paris, 1789: a plebe sublevada invade a Bastilha

A infra-estrura existente, em alguns casos, até dificulta o processo. É inviável, por exemplo, fatiar a fazenda em lotes de 13 hectares para cada família escolher o que plantar, como no modelo tradicional de reforma agrária. Nesse caso, o sistema de irrigação seria desperdiçado. “Agricultura de subsistência é inviável na Itamaraty”, avisa Olacyr. A criação de cooperativas para o cultivo de grãos em grandes áreas é até agora a alternativa mais aceita por técnicos do governo do Estado. A viabilização do assentamento esbarra em outra dificuldade: crédito. Até agora, somente estão garantidos os R$ 9,5 mil do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) a que tem direito cada uma das famílias. “O dinheiro não é suficiente para comprar sementes, construir galpões, casas e abrir novas estradas”, diz Egídio Brunetto, coordenador do MST no Estado. Sem crédito, a Itamaraty pode se converter em um novo fiasco. Seria a segunda queda da mesma Bastilha.

 

     
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