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Sexta-feira, 9 de Março
de 2001
HACKER
ENTRE O BEM E O MAL
Como um profissional de segurança lida com o lado obscuro da Web
Fabrícia
Peixoto
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Rinaldo
Ribeiro: “O limite entre a proteção e o ataque está na ética” |
Lúcio
Flávio, assaltante carioca metido a filósofo, certa
vez afirmou: polícia é polícia, bandido é
bandido. Mas quando o assunto é Internet, as coisas se misturam.
Que o diga Rinaldo Ribeiro, 26 anos, analista de segurança
da Módulo Security, a principal do ramo no País. Seu
trabalho está baseado no conhecimento das técnicas
hackers, os bandidos da Web. Para descobrir as ineficiências
de um sistema, sou obrigado a invadi-lo, conta o profissional,
que trabalha na área desde 1995, primórdio da Internet
no Brasil. A linha que divide um profissional de segurança
de um hacker é muito tênue. O conhecimento técnico
é praticamente o mesmo. A diferença fica por conta
da ética. E, provavelmente, também da competência.
Rinaldo é craque. No desafio anual patrocinado pelo Sans
Institute, americano, Rinaldo colocou o Brasil no primeiro lugar.
Nas duas competições em que participou (1999 e 2000),
conseguiu arrombar as portas do sistema, modificando o conteúdo
das páginas em apenas três e oito minutos. No ano passado,
somente três dos 40 participantes chegaram ao final da prova.
A façanha colocou o carioca nas páginas do The New
York Times. Em seus dois anos de Módulo, Rinaldo liderou
15 projetos de teste de invasão. Atualmente, o analista é
convocado apenas em casos especiais.
De acordo com o diretor da Módulo, Fernando Nery, um dos
principais serviços da empresa é o teste de invasão
das redes de seus clientes. Ele não cita números,
mas afirma que a maioria das simulações mostra a ineficiência
dos sistemas de proteção utilizados pelas empresas
brasileiras. Um dos pré-requisitos para trabalhar na
Módulo, além do conhecimento técnico, é
o entusiasmo. E isso o Rinaldo tem de sobra, comenta o executivo.
Entusiasmo e trabalho, muito trabalho. Não existe limite
entre minha casa e meu escritório, diz o workaholic
assumido. Em dias normais, Rinaldo completa dez horas no trabalho.
Durante a implementação de projetos, a carga chega
tranqüilamente a 15 horas diárias. Namorada? Também
do trabalho! A companheira é jornalista, fica no setor de
comunicação da Módulo. Na correria do dia-a-dia,
o sacrifício ficou por conta dos estudos: o curso de Engenharia
de Telecomunicações, no Cefet do Rio de Janeiro, teve
que ser trancado. Pretendo voltar, diz Rinaldo, em tom
de promessa.
Se depender da procura do mercado, ele terá dificuldades.
As empresas brasileiras estão longe de resolver seus problemas
com segurança e a falta de uma legislação específica
para os crimes digitais também contribui para a multiplicação
do número de hackers. Menos de 5% dos ataques são
divulgados, arrisca o diretor da Módulo. De acordo
com o site Attrition.com, referência em assuntos de segurança,
o Brasil registrou em 2000 cerca de 822 invasões a domínios
(endereços na Internet), o que representa 7,2% do número
de invasões feitas em todo o mundo. Na maior parte
dos casos são ataques simples, que não exigem muito
conhecimento, observa Rinaldo. Geralmente o grande público
toma conhecimento apenas das invasões que mudam o conteúdo
das páginas na Internet, pois, nesses casos, o crime é
visível. Quando o crime envolve o acesso a números
de cartão de crédito ou CPF, o problema não
costuma ser comentado fora da empresa, explica.
A recompensa para o desmonte do crime está acima da média
do mercado. Um termo de confidencialidade impede que Rinaldo Ribeiro
revele seu salário, mas, de acordo com o mercado, seus ganhos
devem girar em torno de R$ 14 mil mensais. Enquanto isso, o salário
médio de um analista de segurança é de R$ 5
mil. Não existem muitos profissionais como ele no mercado
por isso Rinaldo é tratado como uma espécie
de Fox Mulder, personagem do Arquivo X especialíssimo.
Ele afirma nunca ter feito um ataque não autorizado, mas
admite que já teve todas as chances de fazê-lo. Fico
satisfeito em saber que consigo chegar lá, comenta.
Rinaldo, definitivamente, é um mocinho na guerra da Internet.
As empresas agradecem.
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