VICENT TRUGLIA
“O
RISCO DO BRASIL
É A DÍVIDA” |
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Anderson
Schneider
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O responsável na agência Moody’s pela análise dos países latino-americanos
admite erros nas avaliações e explica por que o País carrega a sofrível
nota B2
Estela
Caparelli, de Nova York
As
agências internacionais de avaliação de risco
tiveram o primeiro baque quando não conseguiram prever a
crise da Ásia, três anos atrás. No caso do Brasil,
têm custado a rever sua postura inflexível, espelhada
na distribuição de péssimas notas ao desempenho
da economia. Mesmo assim, são ouvidas como pitonisas do mercado
internacional, influentes junto a investidores com bilhões
de dólares para aplicar pelo mundo. O presidente do Banco
Central, Armínio Fraga, atento a essas características,
não deixou Nova York na semana passada sem antes dar uma
passadinha nos escritórios das três principais agências
do mundo. Além da Standard & Poors e Fitch IBCA,
conversou com a turma da Moodys. Lá, falou com Vicent
Truglia, o homem responsável pelas notas dadas a países
da América Latina e Ásia. Aproveitou o clima de revisão
das agências para abarrotá-las de informações
sobre o Brasil. Fraga, provavelmente, encontrou um ambiente mais
amistoso: Truglia e sua equipe haviam anunciado no início
de agosto que pretendem subir a nota dada ao Brasil, que atualmente
é B2 , um conceito sofrível para um País com
o potencial do Brasil. A bênção, no entanto,
vem seguida de um alerta. Não estamos falando que os
problemas econômicos do Brasil desapareceram. O atual governo
e os próximos terão que manter a austeridade por um
alguns anos. Não há saída, disse Truglia
a DINHEIRO, na sede da agência em Nova York, em entrevista
exclusiva. Truglia, cuja caneta pode levar um país inteiro
às alturas ou ao inferno, rebate críticas com a velocidade
que as recebe. Para ele, o sistema de avaliação da
Moodys é superior. Ninguém teria feito
um trabalho melhor que o nosso, garante. Na sua opinião,
um dos grandes problemas envolvendo as agências é o
fato de as notas serem usadas de forma errada. Estão
procurando por alguém que represente o mercado, mas não
temos a intenção de assumir esse papel. Não
julgamos ninguém. Somos observadores. O fato é
que opiniões de gente como Truglia influenciam investidores
em todo o mundo, que continuam batendo no número 99 da Church
Street. A seguir, trechos da entrevista.

“Nós acabamos por substituir o papel do mercado, mas é involuntário.
Não queremos”
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DINHEIRO
A Moody´s anunciou que pretende melhorar a classificação
de risco do Brasil. A nota do País vai mudar?
VICENT TRUGLIA Quando nós anunciamos a revisão
de uma nota, há 70% de chance de a nota seguir o caminho
da revisão depois de dois ou três meses.
DINHEIRO
O que fez a agência mudar de idéia?
TRUGLIA Primeiro, temos de lembrar que o Brasil tem um
rating baixo se comparado com os padrões internacionais.
Não estamos dizendo que os problemas econômicos do
Brasil desapareceram. Mas a situação está melhor
do que estava no final de 1998 e no começo de 1999. O risco
do Brasil vem de sua grande dívida e isso fez com
que o País tenha uma nota tão baixa. Mas o governo
brasileiro tem sido capaz de levar adiante algumas reformas e atingir
as metas acordadas com o FMI.
DINHEIRO
Como o sr. encara a enxurrada de críticas feitas à
Moodys?
TRUGLIA Acho que há provavelmente engano nos fundamentos
do risco do País. O principal motivo de o Brasil ter uma
nota baixa é sua alta relação entre dívida
e exportação. Essa relação é
três vezes maior que o México, onde as exportações
vêm aumentando consideravelmente. Mas o Brasil e a Argentina
estão entre os países emergentes mais endividados.
Temos que manter em mente que os problemas da dívida pública
ainda existem. O atual governo e os próximos terão
de manter a austeridade por alguns anos, o que será difícil
e doloroso.
DINHEIRO
Mas ainda temos notas tão baixas quanto países
de economia infinitamente menores.
TRUGLIA Não acho que estamos punindo o Brasil.
A ironia é que parte do problema da dívida interna
está relacionada com o sucesso do programa de inflação.
É irônico porque, quando você tem um ambiente
inflacionário, o custo real da dívida pública
interna que tenho certeza que você e seus leitores
conhecem bem é dramaticamente reduzido pela inflação.
Quando você reduz a inflação, o que parece historicamente
um baixo déficit de orçamento transforma-se em um
problema. A inflação beneficia o setor público
porque fica mais fácil obter receitas. Por isso, se você
tiver um crescimento nominal maior do PIB e um pouco de inflação,
terá uma melhor situação da dívida pública
desde que não perca a inflação de controle.
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