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EXPORTAÇÃO: Subproduto da mandioca sai das cooperativas
da região direto para o mercado japonês |
Com
Terra. E lucros
Assentamentos
no Paraná dão exemplo de produtividade e vendem até para Europa
e Japão
Paula
Pacheco e Ciete Silvério (fotos) de Paranacity
A criançada,
solta no campo, corre descalça sobre a terra vermelha. São
saudáveis e têm uma qualidade de vida que qualquer
um da cidade grande invejaria. Empinam pipa, sobem em árvores
e têm fartura nos pratos. Esses garotos que poderiam ser confundidos
com filhos de fazendeiros são a imagem que poucos conhecem
das pessoas que fazem parte do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra
(MST). Um dia seus pais já empunharam bandeiras vermelhas
e facões, perambularam pelas estradas e derrubaram cercas
de fazendas atrás de um pedaço de terra para plantar.
Muitos dos que já realizaram esse sonho e deixaram para trás
os tempos de acampamento quando o teto era apenas um barraco
de plástico preto mostram na prática, independentemente
do discurso político, que é possível produzir
e até exportar. No Sul do País, já há
casos de ex-sem-terra que estão abastecendo mercados como
o suíço, o belga e o japonês com grãos,
chás e subprodutos da mandioca. O Brasil tem hoje 500 mil
famílias assentadas. Nem o próprio Incra (órgão
do governo que cuida de assuntos agrários) sabe quantos brasileiros
estão na fila à espera de uma área para produzir.
O
Paraná, onde o MST nasceu na década de 70, é
o Estado com maior índice de produtividade de assentamentos.
Lá estão 12 mil famílias em 260 projetos. Uma
das iniciativas mais bem-sucedidas é a da Cooperativa de
Produção Agropecuária Vitória (Copavi),
na cidade de Paranacity, norte do Estado. As 22 famílias
não têm título de propriedade da terra, mas
sim a Copavi. Elas vivem no chamado assentamento coletivo, onde
a área de 232 hectares pertence a todos. O grupo conseguiu,
desde o período de acampamento até hoje, juntar um
patrimônio que já chega a R$ 1 milhão. Homens
e mulheres se dedicam a atividades como a horta orgânica,
suinocultura, gado de leite, frango de corte, cultivo de frutas
e produção de pães, doces e cachaça.
De lá saem todos os meses, em média, 6 mil pés
de alface, 4 toneladas de frango, 2,7 toneladas de carne de porco
e 1 tonelada de rapadura. Cerca de 20% da produção
vai para o consumo interno e o restante é vendido. Tudo isso
é conseguido com muito suor e deve ganhar, a partir do mês
que vem, uma ajuda da tecnologia. Em setembro começa a funcionar
uma unidade de produção de frutas desidratadas que
utiliza energia solar. O projeto custou R$ 70 mil e foi desenvolvido
por ex-estudantes da Universidade da Catalunha, na Espanha. No mês
passado a idéia foi premiada pela Associação
dos Engenheiros Industriais da Catalunha e já há planos
para exportar parte da produção.
A
alta produtividade e os planos de ver crescer a receita de assentamentos
como o de Paranacity parecem não combinar com um dos temas
que o socialista MST mais repele, o capitalismo. Lutamos por
mudanças, mas sabemos que estamos dentro de um sistema capitalista,
admite Antônio Natalino Gonçalves, presidente da cooperativa.
Ou você acha que dentro de casa não tem chocolate
ou bolacha para os meus filhos? Só que o capital tem de ser
uma condição para a produção, não
uma forma de exploração. Entre os assentados,
há um agrônomo recém-formado que repassa aos
colegas o que aprendeu na faculdade. Esta é uma das maneiras
que o MST vem encontrando, segundo Gonçalves, de formar seus
próprios técnicos e diminuir a influência do
Incra nos negócios. Graças ao auxílio de agrônomos
foi possível, por exemplo, descobrir um insumo largamente
utilizado na cozinha japonesa: a fécula da mandioca. Hoje
o Japão é um dos maiores mercados consumidores do
subproduto extraído em Paranacity.
Além
dos assuntos econômicos, também faz parte da agenda
dos ex-sem-terra a questão ambiental. Mais antenados que
muitos fazendeiros, os agricultores sabem que dependem da terra
e por isso devem dedicá-la cuidados. Tanto que muitos projetos,
como o Missões, em Francisco Beltrão, reservam boa
parte da área plantada para a agricultura orgânica.
Além da horta, o local também produz soja orgânica.
Na mesma região, o assentamento Nova União fez um
acordo com uma empresa de beneficiamento para exportar soja orgânica
para a Suíça e a Bélgica. O produto tem muito
apelo nos países da União Européia e começa
a ganhar espaço nos pratos dos brasileiros. Em Cascavel,
região sudoeste do Paraná, é a pecuária
que começa a se destacar. Valdemar Fernandes, um ex-caminhoneiro,
e a mulher Leonilse trabalham com gado leiteiro no assentamento
Santa Terezinha. As dez vacas holandesas da família produzem
cerca de 2 mil litros de leite por mês. Entre os clientes
de Fernandes estão algumas cooperativas da região.
No mesmo assentamento mora a família de Ademar Loeder. Dono
de 12 hectares de terra, ele se especializou na venda de suínos,
leite e a produção de grãos. Chega a vender
carne para a Argentina, além de abastecer o comércio
local. Quando os negócios não vão bem, Loeder
se junta aos vizinhos para ganhar volume de produção
e conseguir preços melhores. A solidariedade é
o ponto forte no Santa Terezinha, diz. E de todo o Movimento.
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