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| FELICIANO:
da diocese do rio: “Apostar em bolsas de valores é muito apimentado
para nós” |
Os
gardiões do santo caixa
Quem são os responsáveis pelo dinheiro da Igreja Católica no Brasil
Lucia
Kassai
O piauiense
Cândido Feliciano da Ponte Neto, 52 anos, é uma figura
desconhecida no mercado financeiro. Usa ternos simples, de tergal,
não anda em automóvel de luxo nem costuma ser visto
em restaurantes sofisticados. Mas é um dos responsáveis
pela gestão de uma das maiores fortunas do País. Formado
em administração de empresas, com mestrado em Finanças
pela PUC, Feliciano é o braço direito do cardeal Dom
Eugênio Salles para administrar o dinheiro da Igreja no Rio
de Janeiro. Por sua escrivaninha, num modesto escritório
no bairro da Graça, passam R$ 10 milhões por ano em
dinheiro. Em suas gavetas repousam contratos de aluguel de mais
de 300 imóveis comerciais. Ex-coroinha, trabalhando há
35 anos na Igreja, ele foi convidado várias vezes para atuar
no mercado, mas nunca cogitou aceitar. Como ele, há uma dúzia
de profissionais que trabalham em dedicação exclusiva
para tratar do santo caixa no Brasil. A seu lado, nos conselhos
de cada diocese, participam voluntários ilustres, entre os
quais há até ex-ministros da área econômica,
como Marcílio Marques Moreira e Luiz Carlos Bresser Pereira.
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OS
NOTÁVEIS: Marcílio está no conselho do Rio. Bresser esteve
no de São Paulo |
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O braço
econômico da Igreja Católica é extremamente
organizado. Possui um departamento imobiliário em cada grande
cidade do País. Seus consultores os orientam a, eventualmente,
operar no mercado financeiro. E existe um bem montado setor de auditoria
já que, em 2.000 anos de história, a instituição
pôde comprovar como os filhos de Adão são sujeitos
a tentações. A Igreja não divulga oficialmente
seu patrimônio no Brasil, mas sabe-se que é suficiente
para classificá-la entre as grandes fortunas do País.
Dados da CNBB informam que ela possui 9.400 propriedades rurais,
que somam 254 mil hectares cinco vezes mais que a soma das
fazendas de José Cutrale, o Rei da Laranja. Dentro desse
território caberiam 5 mil Vaticanos. Ativos tão grandes
já atraíram a cobiça de muitos bancos, que
se ofereceram como administradores de recursos. Mas eles ficaram
decepcionados ao saber que a Igreja foge da especulação
como o diabo da cruz. Apostar em bolsas de valores é
muito apimentado para o nosso paladar, diz Feliciano. Na década
de 70, a instituição chegou a freqüentar regularmente
os pregões, através de corretoras como a Multiplic.
Mas essas incursões foram reduzidas drasticamente desde então,
por causa da volatilidade dos mercados.
As
decisões da Igreja são cautelosas e sempre tomadas
em conjunto. O consultor sênior da Merril Lynch, Marcílio
Marques Moreira, é um dos votantes. Uma vez por mês
ele reserva um canto em sua agenda atribulada e, por algumas horas,
ocupa um dos seis assentos do Conselho de Assuntos Econômicos
da Arquidiocese do Rio. O ex-ministro, que cobra R$ 5 mil para fazer
palestras em empresas, trabalha no conselho de graça. É
voluntário ao lado de figuras ilustres como o ex-ministro
da Justiça, Célio Borja (que em sua banca de direito
cobra R$ 1.000 por hora). Completam a mesa o magnata da construção
João Fortes, pai do deputado Márcio Fortes, e três
clérigos. Em São Paulo, o conselho já teve
a presença do ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, hoje
afastado. Os conselheiros ajudam a trazer para a Igreja soluções
difundidas no mercado, mas com as quais a instituição
tem pouca familiaridade. Foi por sugestão de Marcílio
que a Igreja fez uma permuta de espaço publicitário
com as empresas que financiaram a visita do papa João Paulo
II ao Brasil, em 1997. Economizou assim R$ 7 milhões. As
contas foram auditadas pela Price Waterhouse, que não cobrou
pelo serviço.
Como
investidora, a Igreja é conservadora. Aplicamos 90%
do patrimônio em imóveis, porque é seguro e
permite à Igreja tempo livre para se concentrar em atividades
sociais, diz o ex-ministro Célio Borja. Conservadorismo,
porém, não significa ineficiência. Em São
Paulo, todo o sistema de contabilidade das dioceses está
sendo informatizado. No Rio, o setor de administração
de imóveis conta com uma banca de cinco advogados, que vigiam
a inadimplência mantendo-a em nível baixíssimo,
inferior a 2%. Os índices do restante do mercado vão
de 6% a 10%. Isso, sabendo-se que a taxa de ocupação
dos imóveis da diocese é de 95%, bem acima da média
apurada no centro do Rio. Até nisso Deus tem nos ajudado,
agradece Feliciano.
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