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SEU DINHEIRO/CONSUMO

Colecionadores de fortuna
Saiba como eles transformaram suas quinquilharias em milhões

Marta Barbosa

CLAIVE VIDIZ: 3.150 garrafas de uísque
escocês e nome no livro dos recordes

A idéia era apenas experimentar algumas marcas de uísque escocês. O executivo aposentado Claive Vidiz pediu então a um amigo da Escócia que trouxesse ao Brasil algumas garrafas. Recebeu seis. Não provou uma sequer – todas continuam fechadas, mesmo depois de 30 anos. O que fez Vidiz cancelar a prova das bebidas e guardá-las até hoje? “Achei os nomes diferentes e os formatos das garrafas interessantes.” Pelo mesmo motivo, ele comprou outra, outra e outra. Hoje são 3.150. O bar da casa ficou pequeno para tanto e Vidiz construiu o museu do uísque – uma casa de 50 metros quadrados com estantes de quatro metros de altura. Em 93, o nome do ex-executivo apareceu no Guinness, o livro dos recordes, como o maior colecionador de uísque escocês do mundo. Depois disso, ele já sofreu duas tentativas de seqüestro. Teve de reforçar a segurança pessoal e hoje não revela sequer o endereço do seu museu. Vidiz tem raridades. Garrafas que sequer chegaram a ser comercializadas como a do Royal Salut Ruby, de 1960, produzido sob encomenda para uma fábrica de cristais da França – só 200 garrafas foram fabricadas e distribuídas entre chefes de Estado, reis e personalidades internacionais. Uma delas faz parte da coleção de Vidiz. “Nem tenho idéia de quanto ela vale”, diz. “Talvez seja incalculável.”

MOTOYAMA:Coleciona selos

É claro que essa não é a regra. Nem adianta olhar para as figurinhas ou as bolas de gude do seu filho imaginando que ali está uma mina de ouro. Conseguir que uma coleção que começa assim, sem nenhuma pretensão financeira, se torne um bom negócio é tão improvável quanto ganhar na loteria. Mas acontece. “Nunca imaginei que a minha paixão pela bebida se transformaria em patrimônio”, explica Vidiz. E ele está certo. A última coisa que um colecionador deve esperar é um multiplicador de dinheiro. Principalmente se o objeto for algo tão difícil de valorizar como canetas, isqueiros, selos ou uísque. Que o diga o cirurgião Roberto Caffaro. A primeira caneta tinteiro que ele ganhou foi um presente dos pais na formatura do colegial. Uma americana Sheaffers. Ele continuou a comprar e, como não tinha dinheiro, procurava as usadas e restaurava uma por uma. Quando participava de congressos fora do País, aproveitava para buscar as que dificilmente encontraria no Brasil. O que nunca passou pela cabeça de Caffaro é que com uma compra aqui e outra ali estaria fazendo um investimento. Ele só percebeu que era dono de uma coleção valiosa quando visitou a Pen Show – evento que reúne aficcionados por canetas – nos Estados Unidos em 1989. “Foi quando conheci outros colecionadores e percebi que eu era um deles.” Hoje a Sheaffers que ganhou dos pais ocupa um lugar de destaque entre as 2,6 mil que tem. É dele a maior coleção conhecida de Montblancs do mundo. São 460 só dessa marca. Quanto vale tudo isso? Uma fortuna que Caffaro prefere manter em segredo. Só uma coisa ele adianta. “Minhas peças tiveram uma valorização de 3.000% nesses 10 anos.”

CAFFARO: Coleciona canetas

O grande risco de ser um colecionador é justamente a falta de referência na valorização de um objeto. Uma pessoa que compra obras de arte ou carros antigos tem esse risco reduzido. Afinal, há vários parâmetros para avaliar, já no momento da compra, o potencial de valorização de um quadro ou de um modelo antigo de BMW. Mas como analisar quanto uma moeda vai valer daqui a 15 anos? Isso vai depender principalmente da relação oferta e procura. “Já vi muita gente passar a vida guardando selos e pagando caro por alguns e quando resolve vender não encontra comprador e acaba vendendo por menos”, afirma o advogado Marcelo Motoyama, dono de uma das maiores coleções de selos e moedas do País. Um exemplo é o Olho de Boi, o primeiro selo do Brasil de 1843. Por muito tempo, ter um desses, mesmo que carimbado, significava muito. “Tanta gente conseguiu comprar um que hoje só quem tem uma cartela inteira, sem ter sido carimbada, realmente é dono de um objeto de valor.”

Outro inimigo dos colecionadores, ou pelo menos dos que pensam em ter vantagem financeira com suas coleções, é a Internet. Na medida em que a rede facilitou as negociações entre os países mais distantes, uma peça comprada do outro lado do mundo passou a custar bem menos por aqui. Uma forma de garantir que a tecnologia não atrapalhe é centralizar a coleção numa marca ou numa especificação. Como fez Caffaro com as canetas Montblanc e o Vidiz com o uísque escocês. O biomédico Eduardo Ghelfond usou essa estratégia com sua coleção de relógios. Ele tem 800 no total, 500 da marca Ômega. É a maior coleção conhecida da grife. Algumas peças triplicaram de valor em alguns anos. Ele lembra de um relógio que comprou por R$ 100. Meses depois, num catálogo de leilão em Londres, o mesmo relógio era avaliado em US$ 1 mil. “Não encaro minha coleção como um investimento porque sei que não tem liquidez”, diz Ghelfond. “Mesmo se eu quiser vender, dificilmente encontrarei quem pague tão caro.”

Ele está certo. “Fazer uma coleção, seja do que for, não é um investimento racional”, diz o analista Carlos Oyola, da Equação Finanças e Investimentos, do Rio de Janeiro. “Para ser racional, é preciso ter expectativa de retorno e nenhum colecionador consegue isso.” Então, comprar um postal antigo ou uma moeda do século passado imaginando quanto vai valer daqui a alguns anos não é um negócio recomendado. Se você quer se tornar um colecionador, limite seus gastos a um valor que, se perder tudo, não fará falta. Qualquer investimento em coleções precisa ser feito sem esperar nenhum retorno. Se ele acontecer, vai ser lucro.

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