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BRAGA:
Glaxo Multinacional já recolhe plantas na região há um ano
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Guerra
verde
A bilionária indústria de remédios, que busca insumos na Amazônia,
está na mira do governo. Em jogo, US$ 50 bi
RICARDO
OSMAN E JULIANA ALMEIDA
As
expedições que adentram a floresta amazônica
na virada do século vão em busca de riquezas bem distintas
das do passado. As jóias disputadas pelos exploradores atuais
em nada lembram o ouro e as pedras preciosas. Elas têm vida,
crescem e se reproduzem. São bactérias, fungos, plantas
e árvores, matérias-primas da chamada bioprospecção
a etapa inicial da bilionária cadeia da indústria
farmacêutica e de cosméticos. Os cinco milhões
de quilômetros quadrados da maior floresta do mundo contêm
15 milhões de tipos de insetos, 564 espécies de mamíferos
e 22% das plantas conhecidas mundialmente. E é exatamente
nestas estatísticas que pode estar a chave para a cura de
diversas doenças, como o câncer. A coleta na natureza
é a base de um mercado que deve movimentar, nos próximos
dez anos, de US$ 30 bilhões a US$ 50 bilhões, de acordo
com cálculos do Greenpeace. O professor Spartaco Astolfi
Filho, da Universidade do Amazonas, reforça os números:
Somente um fungo usado na fabricação de um vermicida
famoso gerou para o laboratório US$ 1 bilhão em vendas
anuais.
Quanto
disso vai ficar no País? Ninguém sabe. Talvez 60%,
se as regras forem favoráveis. A estimativa é da Extracta,
empresa de pesquisas biotecnológicas. Ainda não há
lei específica sobre a exploração do patrimônio
genético da Amazônia. O governo, que passou os últimos
anos vendo de binóculos a movimentação comercial
na floresta, agora tem pressa em resolver a questão. Já
está na ante-sala do presidente Fernando Henrique Cardoso
mais precisamente na Casa Civil os primeiros esboços
da regulamentação da atividade. Não era sem
tempo. A corrida desenfreada à cata dos espécimes
lembra, e muito, os desastres da colonização. O tiro
de largada já foi dado nos grandes laboratórios do
País e do mundo. Para obter microorganismos da região,
o suíço Novartis desembolsou US$ 4 milhões,
o britânico Glaxo Wellcome, US$ 3,2 milhões, e o Instituto
Nacional do Câncer dos Estados Unidos, US$ 1 milhão.
Cada um à sua maneira. O contrato da Novartis com a Bioamazônia,
uma organização social, por exemplo, virou escândalo
e está sendo revisto. Com escritório em São
Paulo, a Bioamazônia acabou comprometendo-se com a Novartis
a coletar 10 mil microorganismos diferentes e enviar cepas para
o Exterior.
Para
se ter uma idéia da riqueza da região, o laboratório
só precisaria recolher meio quilo de terra em cada um dos
50 pontos escolhidos na floresta para chegar à quantidade
de microorganismos desejada. Em outras palavras, estaria gastando
os tais US$ 4 milhões em 25 quilos de terra. O contrato
entre a Bioamazônia e a Novartis parece o antigo acordo do
governo da Costa Rica com o laboratório Merck, quando toda
a biodiversidade do país foi vendida por apenas US$ 1 milhão,
ataca Antonio Paes de Carvalho, presidente da Extracta e da Associação
Brasileira das Empresas de Biotecnologia. Apesar das farpas de Carvalho,
a sua Extracta também mantém um polpudo acordo com
a Glaxo.
O
País está recebendo migalhas em relação
aos lucros dos negócios do setor, diz a senadora Marina
Silva, do PT, do Acre. Vale lembrar que o faturamento anual dos
grandes laboratórios está acima dos US$ 20 bilhões.
O Novartis investe por ano em pesquisas US$ 1,5 bilhão. Não
pode haver contrato com a biopirataria, conclui Marina. Ela
foi autora, em 1995, de projeto sobre o uso dos recursos genéticos
da Amazônia. O projeto está parado na Câmara.
O próprio governo, que faz parte da Bioamazônia, foi
surpreendido pelo negócio com os suíços. O
ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, esteve no Congresso
na quarta-feira, 9, para garantir que o contrato será revisto.
O
governo editou às pressas Medida Provisória, em junho,
para tentar pôr ordem na casa. Estamos falando de uma
economia que poderá movimentar dezenas de bilhões
de dólares e o Brasil poderá ganhar muito dinheiro
se deixar de ser meramente um exportador de matéria-prima,
diz Braúlio Dias, diretor de Biodiversidade do Ministério
do Meio Ambiente. Não é um desafio pequeno. Não
há hoje no governo informações centralizadas
sobre os exploradores da Amazônia. A biopirataria está
correndo solta, admite Dias. Um conselho interministerial
vai ficar encarregado de conceder as autorizações
para expedições à floresta. Queremos
estabelecer regras do jogo justas para o Brasil. Quem ficar na ilegalidade
vai estar sujeito a multa e cadeia. O País ainda não
tem claras, porém, as regras de como garantir o direito de
beneficiar-se, em futuras patentes de remédios, como dono
da fonte.
Ao
contrário das pesquisas e prospecções de petróleo,
a dos recursos genéticos não é paga, nem licitada.
Os laboratórios multinacionias bancam apenas os custos pelo
trabalho na região, algumas análises e doações.
Com regras, será possível reter até 60%
de toda a movimentação financeira gerada no processo,
mas se não soubermos conduzir isso poderemos ficar com apenas
0,5%, acredita Carvalho, da Extracta. No caso de sua empresa
com a Glaxo, estão previstos pagamento de royalties e de
serviços. Caso consiga encontrar algum composto para um novo
medicamento, a Glaxo pagará à Extracta 3% de comissão
sobre as vendas, por um período de 20 anos, durante os quais
o laboratório terá exclusividade de comercialização.
Este é um projeto muito importante para a Glaxo. É
o primeiro na América Latina, conta Paulo Braga, diretor
da filial brasileira.
A
principal polêmica com a Bioamazônia é a possibilidade
de exportação de cepas. A organização
brasileira vai remeter, inicialmente por e-mail, informações
sobre os microorganismos colhidos. O laboratório suíço,
depois de um exame, vai encomendar aqueles que desejar. O
preço da cepa pode não ser o melhor para o País,
mas é o de mercado, alega o diretor da Bioamazônia,
Manoel Artigas Schirmer, que estabeleceu uma média de 100
francos suíços por cepa. No Congresso, jamais ouviu-se
falar desta tabela. O presidente da Novartis, Otto Kneübuhler,
evita dar entrevista. A MP do governo, feita para tapar um buraco,
estabelece que a transferência de amostras para o Exterior
exigirá prévia autorização. Diz que
a União é proprietária do patrimônio
genético existente em suas terras.
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