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ECONOMIA/MERCADO FINANCEIRO
Biô Barreira

Paradoxo bovespa
Como é possível que a Bolsa esteja encolhendo enquanto a economia cresce?

»Box: Mundo virtual é mais legal

Fabiane Stefano

Uma nuvem negra pousou sobre um pequeno prédio na Rua XV de Novembro, no centro de São Paulo. É lá que funciona a Bolsa de Valores, o maior centro financeiro da América Latina, que movimenta volumes diários de cerca de US$ 240 milhões. Por enquanto. Dia após dia, a Bovespa vê cada vez mais empresas brasileiras seguindo para Wall Street – em busca de melhores oportunidades – ou, simplesmente, fechando o capital, o que resulta em um esvaziamento nunca visto. No ano passado, ações de 83 empresas deixaram de ser comercializadas na bolsa paulista e desde o início deste ano outras 25 saíram dela. Em relação à corrente migratória, desde 1992 84 papéis brasileiros foram tentar a sorte em Nova York, com os chamados ADRs, os recibos de ações. Somente este ano, oito empresas nacionais levaram seus títulos para os EUA e a Espanha. O movimento é tão forte que em maio as operações com esses papéis verde-amarelos nos EUA totalizaram US$ 8 bilhões – mais do que os US$ 7,3 bilhões registrados na Bovespa. “Há 10 anos, acompanhávamos 180 papéis com liquidez na Bolsa de São Paulo. Hoje, não conseguimos selecionar 80”, diz Jorge Simino, diretor de renda variável da Unibanco Asset Management.

Os sinais de que as coisas não vão bem partem até mesmo do governo. Em recente almoço na Bovespa, o ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, disse, com todas as letras, para que as corretoras arrumassem as malas e abrissem escritórios em Nova York. A platéia embasbacada – composta por profissionais que acompanham o sobe-e-desce das ações brasileiras – não acreditava na sugestão do ministro. “Foi uma grande bobagem”, diz Luiz Antônio Neves, diretor de investimentos da Planer Corretora, um dos que saiu perplexo da conversa. “Completamente non-sense”, afirma Pedro Thomazoni, diretor de renda variável do Lloyds TSB. Segundo o diretor de uma grande corretora, o que o Tápias falou “é um desatino”: “Ele começou o discurso se desculpando por não ter lido nenhum dos anteprojetos da lei das S.As.” Ingenuamente ou não, Tápias vestiu a camisa da globalização e nem percebeu que estava jogando contra seus interlocutores.

O grande paradoxo da Bovespa é que hoje ela vive seu melhor momento em anos. Nos anos 70, a Bolsa era incipiente, sem amparo institucional, e confundiu-se com um cassino manipulado por espertalhões. Na década de 80, profissionalizou-se e ganhou transparência, mas faltava volume. Depois do Plano Real, com a entrada dos estrangeiros e as privatizações, o bolo engordou e a Bolsa parecia pronta para decolar. Não aconteceu, embora hoje, segundo o economista Maílson da Nobrega, o valor das ações esteja baixo, os juros mais palatáveis, o capital estrangeiro queira aplicar e a economia esteja crescendo. Tudo conspira a favor de um boom, mas ele não vem. Ao contrário, a Bolsa encolhe, murcha. “O governo é ambíguo”, acusa Maílson. “Deseja uma Bolsa forte, mas, na hora da ação, conspira contra ela”. Não é sequer unânime dentro do governo o desejo de fortalecer o pregão. O economista Francisco Gros, presidente do BNDES, não esconde de interlocutores privados sua opinião de que a Bovespa é irrelevante. Se as empresas podem captar em Nova York, raciocina, qual é o problema? Só quem perderia com a migração seriam as corretoras. É o mesmo Gros que se apresentou em sua posse como campeão do mercado de capitais.
Em Brasília, o único que tem se batido por incentivos ao lançamento e comercialização de papéis brasileiros é Armínio Fraga, presidente do Banco Central. Ele fala em descomplicar o mercado, reduzindo impostos e burocracia e dando maior transparência à venda de títulos. “É importante ter uma Bolsa local forte. Faz diferença, sim, ter um produto local, adaptado às nossas circunstâncias, que fale português”, diz ele. “Somos um País de grande porte. Temos volume necessário para a manutenção de uma Bolsa que interessa tanto ao nosso investidor quanto ao nosso empresário.” A defesa do mercado de capitais não é apenas exercício de retórica. Uma Bolsa forte permite a formação de poupança interna, que financia o País a longo prazo. Sem isso, as taxas de crescimento ficam limitadas à capacidade do balanço de pagamentos absorver dinheiro externo. Quer dizer, não dá para o País crescer acima de 3% ou 4% ao ano. Quando precisa crescer 7% ou 8%.

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A Petrobras teve um lucro recorde de US$ 4,5 bilhões no primeiro semestre deste ano. Isso poderá aumentar os dividendos para quem comprou ações da estatal, que terá de investir quase R$ 2 bilhões para recuperar boa parte dos dutos que transportam o petróleo que ela produz. Eles estão velhos e podem causar mais um acidente. A estatal foi responsável por dois dos maiores vazamentos de que já se teve notícia no país. Você compraria as ações desta companhia? Por quê?

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