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FINANÇAS/ ARTE
prensa três/óleo de pedro américo–guerra do paraguai
GUERRA: No impasse entre nova eleição ou prorrogação do mandato do presidente, seis conselheiros renunciaram

Batalha da Bienal
Famílias de banqueiros trocam farpas na luta pelo maior evento artístico do País

Marcelo Aguiar

As 60 cadeiras do conselho da Fundação Bienal concentram a mais fina flor da sociedade paulistana, e boa parte do PIB nacional. Para decidir sobre os temas e o orçamento da mostra, estimado em cerca de R$ 20 milhões, e de eventos que nasceram de seu ventre, como a Mostra do Redescobrimento, orçada em R$ 40 milhões, reúnem-se figuras que vão de banqueiros e industriais a juristas e ex-ministros. O prestígio da instituição é imenso – em cinqüenta anos de existência ela firmou-se como a mais respeitável mostra de arte do lado de baixo do Equador. Entre outros feitos, exibiu a Guernica, de Picasso, pela primeira vez fora do eixo Nova York–Paris, e sediou a primeira exposição de Edward Hopper fora dos Estados Unidos. Nas últimas semanas, as cadeiras do conselho foram chacoalhadas por uma batalha política entre duas facções, cada uma delas liderada por uma família bem estabelecida do mercado financeiro.

Edemar Cid Ferreira, dono do Banco Santos, e Milu Villela, da dinastia que controla o Itaú, passaram de uma má vontade mútua, mas não declarada, para a guerra aberta. O estopim foi uma ata de reunião. Milu acusou o autor do documento, o livreiro Pedro Corrêa do Lago, de omitir a convocação de eleições para o cargo de presidente da fundação. Milu era candidata ao posto.

O atual presidente, o arquiteto Carlos Bratke, já fez parte do grupo de Milu. Sentindo-se isolado e sem poder, pediu demissão várias vezes desde o início do ano. Mas nunca o fez por escrito, como exige o estatuto. Esperava receber um apoio maciço de seus aliados, que o pouparia de ter de renunciar de fato. Não recebeu, porque Milu havia decidido ela própria ocupar a cadeira. Quem surgiu para apoiá-lo, nos bastidores, foi Edemar. Pragmático, Bratke mudou de lado e, na reunião marcada para esta semana, poderá ser confirmado no cargo por mais dois anos, evitando a convocação de eleições. O presidente do conselho, Luiz Seraphico, que se alinhava com Milu, pediu o boné em represália. Outros cinco conselheiros, incluindo a candidata, o acompanharam na semana passada.

Edemar, conselheiro da Bienal, presidente da Mostra do Redescobrimento e alvo último dos ataques do grupo de Milu, é a figura que move as afeições e os ódios no conselho. Foi a mostra organizada por ele, com seu gigantismo, que impediu a realização da Bienal deste ano, por absoluta falta de patrocinador para outra exposição de grande porte. “É um malefício. Foi o único adiamento em cinqüenta anos”, protesta Seraphico. A Mostra nasceu dentro da própria Bienal, mas cresceu, ganhou independência, deixou de fora gente do comando da fundação e ocupou todas as instalações do Ibirapuera – com exceção do Museu de Arte Moderna, presidido por Milu. A repercussão na imprensa e o sucesso de público da exposição, que já atraiu 1 milhão de pessoas, desequilibraram a política no conselho a favor do banqueiro. Parte substancial dos votantes, vindos de famílias quatrocentonas paulistanas, o via como um arrivista que busca legitimar sua fortuna com o patrocínio à arte. Muitos não mudaram de idéia, mas preferiram não entrar em choque com ele, por achar que seu estilo e seu dinheiro dão vida à fundação. Resultado: o protesto dos conselheiros não teve o impacto desejado, com apenas seis adesões à renúncia em grupo. “Eles saíram porque viram que ficaram sem espaço político e não conseguiriam destituir o Bratke”, diz Corrêa do Lago, o autor da ata da polêmica. O tira-teima, se houver, ficou para a reunião desta semana.

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