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ECONOMIA/BALANÇA COMERCIAL

EM PAUTA: Sucos, peças para aviões, saltos e fivelas para calçados e bolsas e até caixões impulsionam um nicho que, pelos cálculos da Apex, pode render US$ 6,3 bilhões

Arte de exportar
Artigos exóticos, como batinas e roupas para balé, abrem o cami nho do Exterior para as pequenas empresas brasileiras

Estela Caparelli

As exportações brasileiras têm duas facetas. A mais visível pôde ser constatada na última terça-feira 1, quando o governo divulgou mais um resultado pífio da balança comercial – de janeiro até junho, o saldo foi de US$ 937 bilhões. A menos conhecida acontece dentro de pequenos galpões, alguns bastante distantes dos gabinetes de Brasília. Reunidas em consórcios, pequenas empresas nacionais começam a ganhar dinheiro com a venda, para outros países, de produtos exóticos, bem diferentes dos tradicionais itens da tradicional pauta de comércio exterior. Caixões, batinas de padre, roupas para teatro, portas de aeronaves, palmilhas de sapato, candelabros de pedra, sucos de frutas tropicais. São artigos, em sua maioria, de valor unitário pequeno, mas que mostram um caminho criativo para as exportações do Brasil. “As empresas precisam pesquisar que tipo de produto os estrangeiros querem”, diz Dorothea Werneck, diretora-executiva da Agência de Exportações, a Apex. É com essa fórmula que ela está apoiando 82 projetos, com um investimento de R$ 279 milhões entre 1998 e 2003. A meta é fazer com que a venda desses artigos para o exterior aumente dos US$ 1,7 bilhão no ano passado para US$ 6,3 bilhões em 2002.

Os responsáveis pelo crescimento têm perfil semelhante ao da Fact in Amazon, associação de 10 empresas do Pará especializadas em móveis de madeira maciça. Os empresários decidiram se reunir em junho do ano passado para vender móveis com o apelo da Amazônia, acessórios feitos de cipó e fibras. Uma das empresas, a Unarte, está recebendo encomendas dos Estados Unidos e Caribe de um artigo inusitado: os caixões de defunto. “As urnas de madeira maciça têm grande procura nesses países”, diz Antonio José de Rezende, presidente do consórcio. Hoje, ele exporta US$ 800 mil. Sonha com US$ 9,6 milhões em três anos.

Um pouco abaixo no mapa, no Distrito Federal, um grupo de confecções está tocando a todo vapor a estratégia das exportações exóticas. Na cidade satélite do Gama, 30 mulheres estão bordando batinas de padre. Cerca de 180 mil peças, vendidas a R$ 28 cada, irão direto para os Estados Unidos. “A confecção manual agradou muito uma organização católica americana”, diz Walquíria Pereira, presidente do Sindicato de Empresas de Confecções do DF. Enquanto isso, também no Gama, um outro grupo de costureiras prepara a venda para outros países de roupas de teatro e de dança. As técnicas de costura foram aprendidas com especialistas do grupo Bolshoi, da Rússia. O mesmo espírito baixou no setor de tecnologia. No Vale do Paraíba, em São Paulo, 15 empresas fornecedoras da Embraer acabam de se unir para fabricar produtos para exportação. Em vez de atuar isoladamente, produzindo pequenas partes da aeronave, como pinos, juntas elas vão construir estruturas inteiras, como portas. Foi uma boa troca. A cada dólar investido, o retorno será de US$ 13, quatro vezes o que ganhariam atuando separadas. O consórcio deve exportar US$ 13 milhões ao ano.

A mesma fórmula está mudando o cotidiano de pequenas cidades. Até o início do ano passado a gaúcha Soledade dependia dos altos e baixos do preço internacional das pedras decorativas. Então, nove empresas da cidade contrataram designers para criar peças a partir delas. Uma pedra que custava US$ 2 passou a valer US$ 6 e os produtos de Soledade são encontrados em cidades como Nova York e Frankfurt. Candelabros, relógios, jóias e bandejas farão com que as empresas aumentem o faturamento de R$ 7 milhões para R$ 10 milhões em dois anos. Também no Sul, à margem da guerra dos calçados com a Argentina, empresas esquentam as exportações com a venda de componentes para os sapatos e bolsas – fivelas, saltos, palmilhas e produtos químicos – principalmente para a Itália. O negócio está dando tão certo que a meta firmada com a Apex para 2002, de US$ 227 milhões, foi ultrapassada em 1999, que fechou com vendas de US$ 407 milhões. O mercado europeu, aliás, é um dos destinos preferidos da turma dos produtos exóticos. A Forma, fabricante de aparelhos para fondue de Caxias do Sul, está vendendo os produtos para quem é expert no assunto: os suíços.

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