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Placebo
de gelo
Em
pleno inverno do governo FHC, alguém lembrou de tirar do
freezer uma idéia de arrepiar. Numa tentativa de aquecer
os termômetros que medem os índices de aprovação
do presidente, ressuscitou-se a proposta do congelamento de preços,
um ícone de outros tempos da nossa economia. Escolheu-se
como vítima um setor que vive na mira da opinião pública,
o farmacêutico, e aplicou-se o gélido golpe. Até
o fim do ano, são as tabelas dos laboratórios que
vão para o congelador. Para não esquentar antigos
debates, vestiu-se a medida com roupa nova. No Ministério
da Saúde, que derreteu até mesmo a resistência
dos colegas da Fazenda de um retorno à era glacial, montou-se
o plano de disfarçá-la em acordo, que contaria com
a aprovação da própria indústria que
seria atingida.
Poucas
vozes se ergueram contra a antiga prática, agora revivida.
Não por acaso. A população adora congelamento
e sente na carne cada vez que os preços, de qualquer setor,
são reajustados. E conhece, talvez até melhor que
os técnicos governistas, os ardis dos laboratórios.
Ninguém, a essa altura do campeonato eleitoral, vai se opor
a uma idéia tão popular. Nem mesmo o ministro Pedro
Malan, que enxergou nela um perigoso precedente. Nossa história
recente mostra que congelar preços é recurso com tempo
de validade limitado e cheio de efeitos colaterais, principalmente
em uma economia que tenta se firmar como aberta e livre de intervenções
estatais. O governo possui mecanismos de sobra para coibir abusos
do setor farmacêutico, ou de qualquer outro. Tanto é
que chega a usá-los para ameaçar as indústrias
que não aderirem espontaneamente ao seu acordo.
Manter a prática de investigar e punir empresas que adotam
políticas inescrupulosas de preços é sua obrigação
permanente e certamente funcionaria como remédio eficaz.
Congelar preços depois que foram livremente reajustados durante
vários anos a níveis bem acima da inflação
é o que os laboratórios chamam de placebo, a pílula
de farinha.
Luiz
Fernando Sá
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