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NEGÓCIOS/ TELECOMUNICAÇÕES
Foto: Gustavo Lourenção
VÉSPER: Das 37 empresas de telefonia fixa
do País, operadora é campeã de processos

Telefiasco
Depois de série de equívocos, Vésper é forçada a rever estratégia no País

Ricardo Osman e Juliana Almeida

No competitivo mundo das telecomunicações, a Vésper lidera um ranking sem glórias. Das 37 empresas de telefonia fixa do País, a operadora foi a que menos cumpriu as metas de qualidade estabelecidas nos contratos com o governo. Ganhou o primeiro lugar numa lista onde, na verdade, nenhuma operadora fez corretamente o dever de casa. Pelas falhas nos serviços prestados foram abertos pela agência reguladora do setor, a Anatel, 1.702 processos administrativos. A Vésper responde, em São Paulo e em outros 16 Estados, por 164 ações. Com seis meses de vida, ela engatinha em meio a graves dificuldades. As promessas da estréia, de um atendimento personalizado ao cliente, foram por água abaixo. E a ilusão de uma procura alta por seus aparelhos caiu diante da dura realidade de preços salgados. A Vésper só conquistou 270 mil assinantes em 44 cidades, depois de anunciar estar preparada para atender até 550 mil. Subestimou a força das rivais Telefônica e Telemar. O grupo espanhol instalou, em 22 meses, 3,2 milhões de linhas, enquanto o de Carlos Jereissati reuniu 10 milhões de clientes. O equívoco inicial dos executivos, segundo Adriana Menezes, analista da Yankee Group, foi ter superestimado a demanda. Como ainda não estavam preparados para instalar todos os telefones prometidos, a empresa decidiu, num primeiro momento, cobrar preços exorbitantes (R$ 399) por uma simples linha telefônica. “Por isso eles venderam tão pouco no início e foram obrigados a diminuir o preço para R$ 99”, conta a analista.

Para sobreviver, a Vésper reconhece, pela primeira vez, as deficiências e anuncia uma reviravolta em seus planos. A empresa vai concentrar-se, a partir de setembro, no próspero mercado de transmissão de dados de grandes companhias e bancos, em vez de dedicar-se, como fez até agora, basicamente aos consumidores residenciais e comerciais de telefones. Seguirá, assim, uma tendência já verificada nos Estados Unidos, onde o tráfego de dados supera o de voz. O presidente Virgilio Freire, engenheiro de 55 anos, definiu o novo perfil da operadora, na semana passada, em entrevista à DINHEIRO. “A Vésper vai ser, principalmente, uma empresa de transmissão de dados, que também transportará voz”, diz ele. “Vamos oferecer soluções de telecomunicações globais para pequenas, médias e grandes corporações, pois não pretendemos ficar apenas no setor residencial.”

Este será o principal destino da verba de US$ 2 bilhões aprovada pelos acionistas da companhia, a Bell Canada International, a VeloCom e a Qualcomm, até 2002. A previsão é de que por volta de 2005 o nicho de mercado, hoje emergente, ultrapasse o dos telefones. Se a operadora agir rápido e com eficiência, poderá reverter sua posição de lanterninha. Mas até lá terá muito trabalho pela frente. O primeiro passo será superar uma barreira tecnológica. A aposta de todas as fichas no modelo Wireless Local Loop (WLL), utilizado na transmissão de voz, está sendo revista. A versão atual não permite acesso rápido à Internet, por exemplo. “Essa tecnologia é indicada para alguns nichos de mercado, não para operações completas, como é o caso da Vésper”, diz Adriana Menezes. Freire faz um mea- culpa. “Há necessidade de o sistema WLL evoluir e, por isso, já encomendamos do fabricante equipamentos de maior capacidade”, diz ele, antecipando que poderá usar outros recursos no futuro. “Não temos uma tecnologia que seja a nossa religião.”

Em novembro do ano passado, Freire prometeu aos consumidores enviar funcionário, uniformizado, para fazer a instalação do telefone com hora marcada. Mas muitos clientes tiveram de ligar o equipamento orientados apenas por uma fita de vídeo. Oito meses depois, Freire anunciou drástica mudança e oficializou a remessa do kit pelo correio com o pomposo nome de Vésper Express. “A linha será entregue em 72 horas”, promete. “O sistema tem a vantagem de não ter fio, nem emendas.” Na opinião de Jairo Okret, sócio da consultoria A.T. Kearney, faltou à Vésper um pouco de ousadia para competir com a Telefônica. “Na telefonia móvel, a BCP pressionou a Telesp Celular, que reagiu à altura. Já na fixa não houve pressão à Telefônica. A Vésper foi tímida”, conclui.

Para piorar a situação da empresa, circulou na quinta-feira passada o boato de que a Bell Canada abandonaria seus investimentos no País. Robert Lande, presidente do segundo maior acionista da Vésper, com 34,4%, negou. “A Bell Canada tem planos de investir ainda mais no Brasil”, diz ele, surpreso com os rumores. O executivo lembra que há menos de dois meses a companhia canadense anunciou uma associação com a mexicana Telmex e a americana SBC. A nova holding vai gerenciar todos os negócios dessas companhias no Brasil.

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