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NEGÓCIOS/REI DA LARANJA
SEDE EM ARARAQUARA: empresa produz
20% do suco no mundo

Pode-se também definir Cutrale como um homem avesso a qualquer tipo de exposição. Restaurantes de luxo, festas? Nem pensar. Fotos suas são artigos raros em jornais e revistas. Fotógrafos contratados para cobrir eventos de sua empresa são orientados para não registrar cenas com sua presença. Em geral, ele leva sua própria câmara e pede para que um de seus diretores faça as fotos. A discrição some na hora de uma negociação. O homem de poucas palavras transfigura-se. É como se o sangue italiano se manifestasse em gestos grandiosos, voz alta e poses teatrais. Certa vez, durante uma dura negociação para a compra de laranjas, ele desabotoou a camisa e começou a tirá-la. “Não tenho mais nada para ceder. Só me resta entregar a roupa do corpo”, disse ele. Na banca do mercado municipal, Cutrale mantinha a caixa registradora com poucas notas de dinheiro. Na hora de negociar, abria a gaveta e dizia: “Veja minha situação. Se quiser, leve o que está aí dentro, pois já não faz diferença.”

Ao longo da vida de Cutrale, trabalho e família sempre se confundiram. A esposa, Amélia, era sua companheira na banca do mercado municipal. Seu filho único, José Luiz, foi criado no mesmo ambiente. Ainda adolescente, era enviado para a beira da estrada para fiscalizar horário, velocidade e as condições dos caminhões da empresa. Hoje, aos 50 anos, é responsável pelos negócios, embora o pai dê a palavra final sobre os assuntos mais importantes. Os dois netos também se envolveram com os negócios. José Luiz Júnior trabalha ao lado do pai. José Henrique vive nos Estados Unidos e é um dos responsáveis pela Cutrale Juices. A irmã dos dois, Graziela, está casada e vive na região de Ribeirão Preto.

O dinheiro trouxe muito poder para Cutrale e sua família. Na região de Araraquara, sede do grupo, o nome é temido por concorrentes, vizinhos e produtores de laranja. Atualmente, Cutrale vive aprisionado por seu próprio medo, que já adquiriu traços de paranóia. Anos atrás, construiu um condomínio fechado, ao lado da sede de sua corporação. Batizado oficialmente de Residencial Araraquara, o local é chamado pela população como “Fortaleza”. Ali moram, além dele, os principais executivos do grupo. Trata-se de uma área enorme protegida por um alambrado, junto do qual há uma fileira de árvores altas. Depois um cinturão de laranjais, é claro. No centro do sítio, há as casas e a área de lazer, cercadas por muros. Para não dizer que não falamos de flores, a murada foi construída em forma de coração. Cerca de 50 homens se revezam em três turnos na vigilância do condomínio. Carros com guardas rodam permanentemente por uma pista que circunda toda a área.

Cutrale utiliza apenas carros alugados, substituídos periodicamente. Prefere Gol ou Santana. Ele mesmo os dirige, mas seguido por um veículo com seguranças. Até mesmo aviões de carreira são evitados. Para seus deslocamentos, utiliza duas aeronaves. Uma delas, um jatinho de 13 lugares, serve inclusive para vôos internacionais. Para amigos, Cutrale confidencia que toda essa proteção é “pesada, mas resultado da determinação com que me atirei para construir esse grupo”. Uma determinação que um de seus concorrentes, Edmond Van Parys, resumiu em um discurso: “ ... Depois, o meu caro amigo José Cutrale Júnior ganhou de nós, como ganhou de todo mundo e ganhou em tudo, absolutamente em tudo: mercado interno, exportação, indústria e plantações”. E também uma das maiores fortunas do planeta.

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