 |
|
QUEM
BATE?: No Paraná, a quebra da safra de trigo vai provocar
importações de US$ 150 mi
|
Tropical,
sim, mas com muito frio
Despreparados
para enfrentar temperaturas baixas, empresários e agricultores contam
perdas
Cláudia
Marques
Nos
últimos dias, empresários de vários setores
da economia têm contado os prejuízos causados pela
onda de frio que se abateu sobre o Sul e parte do Sudeste do País.
Em São Paulo, onde a baixa temperatura quebrou um recorde
de 25 anos, ao atingir
4 graus negativos, as fábricas pequenas e médias foram
as que mais sofreram. A Mobensani, de produtos de borracha, teve
sua produção diminuída em 5% nos dias mais
frios, em razão de a temperatura interna do pátio
de máquinas ter descido abaixo de 20 graus. Não
temos sistema de aquecimento, diz Amir Azevedo, diretor da
empresa. Nesta época do ano, sempre sofremos com o
mau funcionamento das máquinas. Mesmo gigantes da indústria,
porém, enfrentaram problemas análogos. A multinacional
alemã Rolamentos Fag, em São Paulo, chegou a vacinar
antecipadamente seus 800 funcionários, mas também
sofreu perdas na produção. Em Minas, a Mercedes-Benz
com seus equipamentos tropicalizados gastou 20% a mais de gás
natural e óleo combustível para gerar vapor suficiente
ao seu processo produtivo.
É
certo que o Brasil é um país tropical, mas todos os
anos, neste período, o frio chega. Há diferenças
de intensidade, mas surpresas não se justificam. Entre investir
antecipadamente ou ser pego pela onda fria, a opção
da maioria parece ser a de esperar o tempo ruim passar. A
relação custo-benefício de investir no aquecimento
da fábrica é desigual, diz o empresário
Azevedo. O frio passa em duas ou três semanas, não
compensa.
No
campo, o mesmo raciocínio está repleto de adeptos.
Os produtores que costumam perder plantações inteiras
com as geadas não se animam a construir estufas para proteger
as plantações das intempéries. Outra vez o
argumento é o custo do investimento, estimado em R$ 25 mil
por mil metros quadrados. Perdi tudo numa noite, lamenta
o produtor de hortifrutigranjeiros Luiz Iano, de Mogi das Cruzes.
Mas vou enfrentar o próximo inverno a céu aberto.
Não tenho condições de fazer uma estufa.
No
Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais as maiores perdas
foram na agricultura. Houve quebra de 70% da safra de hortifrutigranjeiros,
em fase de corte no Sul. No Paraná, o trigo foi o maior prejudicado,
com a perda de um milhão de toneladas da safra, o que deverá
provocar uma importação adicional do produto de US$
150 milhões a US$ 190 milhões em 2000, segundo o Departamento
de Economia Rural do Estado. Em Minas, a safra de café de
2001 foi prejudicada em 40% em razão das temperaturas que
chegaram a 2,5 graus negativos. Em Guaxupé, no sul de Minas,
em lugar de erguer um abrigo para sua plantação, o
agricultor Benedito Felipe da Silva, que produz anualmente cerca
de 15 mil sacas de café, optou por fazer seguro. É
mais barato e, se eu perder tudo do dia para a noite, não
tenho prejuízo.
Sem
cobertor. O improviso também determina a estratégia
de fabricantes de produtos que são a cara sem retoques do
inverno: cobertores. O que fabricamos pela manhã, vendemos
à tarde, reconhece José Razuck, diretor da Zêlo,
empresa que fabrica e comercializa cobertores numa rede de 15 lojas
em todo o País. Se o cliente não encontra a
peça, pedimos que volte mais tarde, quando o estoque vai
estar reabastecido. Desde o começo do inverno, a Zêlo
está vendendo, por dia, 5 mil cobertores em todo o Brasil,
mas este número poderia ser 30% maior, reconhece Razuck.
A falta de um estoque bem fornido também comeu parte dos
lucros de uma das maiores redes varejistas do País, a Casas
Bahia. Na semana passada, quando a procura por aquecedores atingiu
o pico, não houve produtos para cerca de mil clientes. Para
atender a demanda, precisaríamos trazer peças da Europa
que levam um mês para chegar até aqui, conta
Gisela Turqueti, diretora de marketing da fabricante de aquecedores
Mallory. Se tivéssemos a peça em estoque, venderíamos
50% mais.
Mas
não são apenas os empresários brasileiros que
tiritam com o frio. Europeus acostumados a baixas temperaturas também
foram apanhados em mangas de camisa pela queda na temperatura. É
o caso do executivo espanhol Sergi Riau, diretor geral da Adecco
Top Services, considerada a maior empresa de recursos humanos do
planeta. Vivendo há 2 anos no Brasil, ele ainda mantém
boa parte de seu guarda-roupa na Espanha, para onde viaja com freqüência.
Realmente, me supreendi, admite Riau. Afinal,
me disseram que esse país é tropical.
|