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ECONOMIA/ COMÉRCIO EXTERIOR

RELAÇÃO EM CADEIA: setor de bens
de capital pode ser um dos atingidos

O efeito EMBRAER
Exportadoras temem que precedente da empresa aérea afete Proex e derrube vendas

»Box: Caterpillar

Fabiane Stefano
e Fernando Thompson

O executivo Carlos Zignani, da Marcopolo, uma das maiores fabricantes de carrocerias de ônibus do continente, está preocupado com uma sigla: Proex. De Caxias do Sul, ele acompanha atento o noticiário em busca de alguma novidade sobre o destino do Programa de Apoio às Exportações, combustível da disputa entre a Bombardier canadense e a Embraer que pode custar ao País US$ 3,5 bilhões em retaliações comerciais. Como o Brasil perdeu a disputa na Organização Mundial do Comércio, em torno do Proex a apreensão de Zignani não é gratuita. Ele teme que o precedente possa atrair a atenção indesejada dos concorrentes europeus para a sua empresa. Afinal, a Marcopolo também utiliza o apoio do Proex para exportar 40% de sua produção para África, Oriente Médio, América Latina e Central. E o executivo sabe bem a dor de cabeça que o assunto pode dar. Há três anos, em uma outra disputa comercial, um concorrente sul-americano alegara que o Proex prejudicava seus negócios. Com a ajuda do Itamaraty, a Marcopolo resolveu a questão. Mas o precedente existe, e Zignani teme que o caso Embraer reabra a discussão.

O empresário gaúcho não está sozinho em seus receios. Na mira da concorrência internacional estão as montadoras de veículos, os fabricantes de ônibus e caminhões e a indústria de máquinas e equipamentos. Juntos esses setores utilizam 50% da linha de equalização de juros do Proex, pela qual o governo brasileiro banca a diferença entre as taxas de juros cobradas no Exterior e as taxas muito mais elevadas que são cobradas no Brasil. Esse foi o pomo da discórdia com o Canadá. Os recursos repassados às empresas desta forma não retornam para o Tesouro, caracterizando o subsídio. É um preço pago pelos contribuintes para aumentar a competitividade das exportações brasileiras. “Sem o programa, não teríamos custos compatíveis para concorrer no mercado internacional”, diz Luiz Carlos Delben Leite, da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas. Segundo dados fornecidos pelo Banco do Brasil, que administra as verbas do programa, nos primeiros seis meses deste ano o volume total de gastos com o Proex em equalização de juros somou R$ 329 milhões e permitiu o fechamento de exportações no valor de US$ 4,87 bilhões. As empresas de São Paulo são as que mais recorreram ao programa neste período, com 60,7% dos valores liberados. E os principais destinos dos produtos financiados são Estados Unidos, México, Canadá e a União Européia.

“Não adianta termos produtos de primeiro mundo, se não temos instrumentos de financiamento”, diz Suely Agostinho, gerente de assuntos institucionais e governamentais da Caterpillar. A empresa exporta 70% dos equipamentos que produz para 120 países. Em 1999, isso representou US$ 230 milhões. Agora, a executiva está temerosa de que as restrições ao uso do Proex atinjam seu setor. Sem os juros equalizados, Suely estima que a filial brasileira da empresa americana perderia grande parte da sua vantagem competitiva, sobretudo frente às plantas da Caterpillar em outros países. “Para nós, o ideal é que não mude nada”, diz ela. Em outras empresas, não há muita esperança de que o programa brasileiro tenha vida longa. “A médio prazo, o Proex deverá deixar de existir”, diz Juan Latorre, analista de exportações da AGCO, que comercializa a marca Massey-Ferguson de tratores e equipamentos agrícolas. Boa parte das exportações brasileiras da marca têm o carimbo do Proex. “Enquanto o programa não termina, é melhor aproveitar”, diz Latorre.

Pulso firme. No começo da semana, o ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, afirmou em nota oficial que o Brasil continuava disposto a efetuar reformas no Proex para ajustá-lo às normas da OMC. Os empresários brasileiros, porém, não receberão com elegância a eventual extinção ou emasculação do programa de redução de juros. Roberto Segatto, da Associação Brasileira de Comércio Exterior, é um que reclama da falta de firmeza do governo brasileiro no trato com a concorrência internacional. “Há risco efetivo de que as restrições impostas à Embraer contaminem outros setores”, diz ele. O economista Julio de Almeida, do Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial, lembra que existe a necessidade urgente de se renegociar a questão dos subsídios no interior da OMC. Tal como está acertado, diz ele, europeus e americanos são livres para subsidiar setores que interessam a eles – como agricultura, meio ambiente e tecnologia – enquanto países em desenvolvimento, como o Brasil, não podem sequer praticar a equalização de juros, que nada mais faz do que colocar a competição industrial nos mesmos termos. “Os países desenvolvidos gastam todos os anos US$ 50 bilhões em subsídios, e US$ 10 bilhões são para ajudar as exportações”, diz Almeida.

Exceção. Do lado do governo, reina aparente tranqüilidade quanto ao futuro do Proex. De acordo com Márcio Jordão, responsável pelo programa no Banco do Brasil, não há risco de a decisão da OMC prejudicar as exportações de outros produtos nacionais. “A exceção é só para a área de aviação. Nos outros setores, o Proex cumpre integralmente o que determina a OMC”, disse. Isso significa que as empresas beneficiadas recebem juros equivalentes aos títulos do Tesouro americano mais 1% – enquanto a Embraer recebia a taxa dos títulos mais 0,2%. Foi esse percentual abaixo da regra que deu vitória aos canadenses na OMC. Diante deste quadro, o próprio esquadrão que defende o País no tribunal de Genebra reconhece que o perigo de transbordamento do caso Embraer está no ar. “O risco sempre existe”, diz Celso Amorin, embaixador do Brasil junto a OMC. “Mas o subsídio não é dado da mesma forma a todo mundo.” O fato é que enquanto o percentual da Embraer estava farta e ingenuamente documentado, ninguém sabe realmente qual é o juro das outras empresas servidas pelo programa. Isso, ao mesmo tempo que protege as empresas beneficiárias, pode despertar a curiosidade dos concorrentes. Sobretudo, porque na equalização de juros a diferença em favor das empresas brasileiras é enorme, uma vez que o País conta com uma das maiores taxas de juros do mundo.

“Fica muito transparente que há um grande subsídio”, diz Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor do Banco Central e professor do Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (Ibmec). Ele sugere que o repasse desse subsídio deveria vir de um banco criado exclusivamente para esse fim, independente do governo e que tivesse parcerias com instituições privadas, aos moldes do Eximbank, presente nos EUA, Alemanha e Japão. Desse jeito, a ajuda viria mais disfarçada. “Enquanto, as taxas de juros no Brasil estiverem nas alturas, não há o que fazer a não ser subsidiar”, diz Delben Leite. Os brasileiros, tanto quanto se pode inferir, entendem e aprovam esse procedimento. O problema evidenciado pelo caso Embraer é que nem tudo que os brasileiros acham justo e natural é compreendido da mesma forma pelas instituições internacionais. A globalização cobra seu preço.

 

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