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LAMPREIA:
necessidades comerciais determinam o fim da diplomacia generalista
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Itamaraty
S/A
Diplomacia
brasileira muda para defender os interesses empresariais
do País
Estela
Caparelli
Os
diplomatas entraram, definitivamente, para o mundo dos negócios.
Conhecidos no passado por tratar do bom relacionamento entre países,
eles podem ser vistos agora defendendo empresas em grandes pelejas
internacionais ou promovendo as exportações de sua
terra natal. Também no Brasil. A diplomacia está
ganhando força na área comercial porque agora os interesses
são maiores, diz o ministro das Relações
Exteriores, Luiz Felipe Lampreia. Hoje temos 80 diplomatas
se especializando na área econômica porque nessas negociações
é necessário conhecimento específico.
Atualmente, 15% dos mil diplomatas brasileiros estão voltados
para assuntos econômicos. É um número que cresce
a cada dia.
Para
desempenhar o novo papel de negociadores e promotores, os diplomatas
estão aprendendo na escola o metiê dos empresários.
Há cerca de um mês, Lampreia fez uma palestra para
os alunos do Instituto Rio Branco falando da nova postura. Sua fala
virou modelo para a mudança. Nela, o chanceler apontou a
necessidade de os diplomatas se especializarem na área econômica
para enfrentar os adversários nas negociações.
A época dos diplomatas generalistas ficou para trás,
disse o ministro.
Do
lado de lá, não há diferenças. Muitos
canadenses que negociam o caso Bombardier, por exemplo, passaram
pelo Instituto Canadense de Serviço Exterior. É uma
espécie de especialização, não obrigatória
para quem pretende seguir a carreira diplomática. Lá,
os professores ensinam que é preciso saber quais são
os valores e convicções do oponente antes de começar
qualquer conversa. Aprendemos que há culturas em que
não se pode demonstrar, nem por um instante, que se está
perdendo. Mas o curso reafirma a necessidade de sempre conceder
um pouco, diz José Herran-Lima, o segundo homem da
embaixada do Canadá no Brasil. Curso semelhante é
adotado nos Estados Unidos.
Com
os vizinhos argentinos, os diplomatas brasileiros têm suado
a camisa para defender os interesses de empresas brasileiras. A
mais recente gritaria é dos vendedores de frango. O ministério
da economia vizinho estipulou no último dia 24 a cobrança
de preço mínimo para o produto brasileiro o
que fez com que a Sadia e a Chapecó entrassem com recurso
na Justiça do lado de lá da fronteira. Conflitos
são naturais entre países que têm intensas relações
comerciais, diz o embaixador argentino no Brasil, Juan José
Uranga. Há cinco meses no cargo, o diplomata visitou em 15
dias 30 câmaras comerciais argentinas, para mostrar que nem
tudo estava perdido no sonho do Mercosul. Percebemos que as
coisas começaram a mudar, diz Uranga, que agora está
empenhado em montar uma estratégia de promoção
comercial conjunta de Brasil e Argentina.
México
age. Enquanto o Mercosul discute suas pendências, os mexicanos
estão se tornando os maiores especialistas em diplomacia
comercial da América Latina. Brasil e Argentina têm
assinado três acordos de livre comércio, mas os mexicanos
fecharam nove deles. E, se os mexicanos conseguirem vencer a resistência
dos fabricantes brasileiros de eletroeletrônicos, vão
conseguir ainda este ano um novo acordo de preferências tarifárias,
desta vez com o Brasil. Temos clara consciência que
esperam que nós sejamos ativos nas áreas comerciais,
ajudando a incrementar os negócios de nosso país,
diz o embaixador Jorge Eduardo Navarrette, economista de formação.
Foram os diplomatas mexicanos no Brasil que ajudaram, no início
do ano passado, a Sucos del Valle a instalar uma fábrica
na cidade de Americana, interior de São Paulo, em um investimento
de US$ 100 milhões, o maior já feito no País.
Em todo o processo, forneceram informações econômicas
e setoriais para que os empresários pudessem escolher o melhor
lugar e momento para instalar a fábrica.
Em
Washington, os brasileiros enfrentam outra batalha. Lá, o
embaixador Rubens Barbosa coloca em prática um plano de expansão
dos negócios brasileiros nos EUA. Fez road shows em cidades
americanas com empresários brasileiros e sugeriu que as empresas
siderúrgicas conversassem com as montadoras americanas para
mostrar a importância do aço nacional naquele país.
Nossa prioridade aqui é a promoção comercial,
diz Barbosa. O resultado da estratégia já poderá
ser contabilizado este ano. Segundo o embaixador, a expectativa
é que a balança comercial entre EUA e Brasil fique
equilibrada pela primeira vez depois de seis anos de déficits
consecutivos.
Enquanto
defendem suas fronteiras com unhas e dentes, os diplomatas americanos
ajudam a ampliar suas vendas em outros países. Quem comanda
essas operações no Brasil desde janeiro é Anthony
Harrington, um discreto advogado que até sua chegada ao País
era sócio sênior da Hogan & Hartson, uma das maiores
bancas de Washington. No ano passado, o então cônsul
dos EUA no Rio de Janeiro, que hoje é o segundo homem da
embaixada do país no Brasil, Cristobal Orozco, organizou
várias reuniões entre políticos e empresários
americanos para ajudar as companhias daquele país no processo
de quebra do monopólio de exploração de petróleo
pela Petrobras. Uma delas foi feita com o presidente do Banco Central,
Armínio Fraga, para discutir a criação de contas
em dólares no País, o que facilitaria a vida dos empresários
dispostos a participar da licitação. Sem essas facilidades,
os empresários teriam que comprar reais e depois vendê-los,
em uma operação burocrática e custosa. Por
essa e outras razões, o BC há dois meses autorizou
a abertura dessas contas no Brasil. Vitória da diplomacia
empresarial americana.
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