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ECONOMIA/ESCALADA SOCIAL

Foto: Carlos Goldgrub/Reflexo

MEDEIROS, O POLÍTICO: "Não conheço nenhum dirigente que voltou para a fábrica"

Sindicalistas que usam black-tie
Líderes de trabalhadores assumem mudança de padrão de vida e seguem modelo americano de atuar

Marco Damiani

O tempo em que o sindicalista era peão ficou na poeira. Espelhados no modelo dos dirigentes sindicais americanos e europeus, mais parecidos com executivos de multinacionais do que com barbados radicais de esquerda, eles agora não apenas prezam a aparência como se consolidaram financeiramente entre a classe média. Paulo Pereira da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e da central Força Sindical, e Luiz Antônio de Medeiros, deputado federal do PFL e chefe da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos, são exemplos acabados desse novo perfil. Eles não têm medo de assumir o salto de classe.

“Levo uma vida boa e, naturalmente, muito diferente do tempo em que eu estava na fábrica”, reconhece Paulinho, que em razão das seguidas viagens internacionais já preencheu dois passaportes, vive numa casa de duzentos metros quadrados quitada por R$ 140 mil no bairro do Cambuci, em São Paulo, e assiste a jogos de futebol num aparelho de tevê de 63 polegadas. Ele circula pela cidade num Omega azul blindado de bancos de couro de propriedade do sindicato e tem as despesas pagas pela entidade que dirige. Como qualquer presidente de empresa. “Os sindicatos e as centrais sindicais são, hoje, grandes companhias e seus dirigentes acabam adquirindo um perfil semelhante ao dos empresários”, diz ele.

Sindicalista que fundou a Força Sindical e optou por fazer carreira política em Brasília, o deputado Medeiros é uma encarnação ainda mais reluzente desta escalada social. Ele conseguiu conciliar as atividades de puxador de greves e negociador de acordos trabalhistas com presença permanente nas principais colunas sociais e revistas de fofocas. “Pode ter havido algum exagero na minha exposição, mas isso nunca me prejudicou como sindicalista”, compara sobre os tempos em que flertava com mulheres da alta sociedade e era visto em festas black-tie. “Estou há 30 anos no sindicalismo e não conheço nenhum dirigente sindical que tenha voltado para a fábrica”, garante Medeiros, ao lado da lareira da ampla casa em que vive com a mulher Lenita no bairro do Brooklin, em São Paulo, reduto sem retoques da mais enraizada classe média paulistana. Hoje, paga aluguel, mas a compra de um imóvel igualmente confortável já tem poupança assegurada. “Ser sindicalista não é incompatível com crescimento pessoal e viver bem.”

Não faz vinte anos, Paulinho ao volante e Medeiros no banco do carona eram vistos nos arrabaldes de São Paulo à bordo de um malhado fusca preto. Naquele carro eles partiam para organizar greves em nome do sindicato dos metalúrgicos. O primeiro vivia numa minúscula casa de cômodos no Jardim Vitória, em Franco da Rocha. Medeiros acabara de desembarcar da então União Soviética, onde fizera a escola de quadros do partido comunista. Hoje com salário de R$ 2,8 mil, Paulinho em sua função de presidente da Força Sindical administra verbas anuais superiores a R$ 50 milhões e paga salários para assessores maiores que R$ 5 mil. “Já assinei cheque de repasse de verbas de R$ 1,5 milhão”, lembra ele, que parece não se importar em comandar funcionários com salários mais gordos que o seu. “O que interessa é o padrão de vida. Estou sempre a trabalho, praticamente não gasto nada do meu bolso”, diz.

Medeiros, abrigado no PFL com seus valores liberais, recebe R$ 8 mil mensais como deputado e tem à sua disposição todas as mordomias concedidas aos parlamentares, como carro com motorista e uma legião de funcionários. Maratonista, já participou de corridas em Nova York, Paris e Roterdã. Ele confessa que nem em pesadelo imagina outra vez voltar para as portas das fábricas ou mesas de negociação. “Quero fazer carreira política. Não tenho mais saco para o dia-a-dia do sindicalismo”, assume. Nisso, parece que é, hoje, o que Paulinho pode ser amanhã. O sindicalista ainda encontra disposição para acordar todos os dias com o céu ainda escuro e ora vai à periferia da cidade, ora sobe num avião em razão das demandas de sua central de trabalhadores. Mas não por muito tempo. “É cansativo”, registra. Paulinho quer estar ao lado de outro protótipo de classe média, o presidenciável Ciro Gomes, como seu candidato a vice-presidente da República em 2002.

 

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