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MEDEIROS,
O POLÍTICO: "Não conheço nenhum
dirigente que voltou para a fábrica"
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Sindicalistas
que usam black-tie
Líderes de trabalhadores assumem mudança de padrão de vida e seguem
modelo americano de atuar
Marco
Damiani
O tempo
em que o sindicalista era peão ficou na poeira. Espelhados
no modelo dos dirigentes sindicais americanos e europeus, mais parecidos
com executivos de multinacionais do que com barbados radicais de
esquerda, eles agora não apenas prezam a aparência
como se consolidaram financeiramente entre a classe média.
Paulo Pereira da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos
de São Paulo e da central Força Sindical, e Luiz Antônio
de Medeiros, deputado federal do PFL e chefe da Confederação
Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos, são exemplos
acabados desse novo perfil. Eles não têm medo de assumir
o salto de classe.
Levo
uma vida boa e, naturalmente, muito diferente do tempo em que eu
estava na fábrica, reconhece Paulinho, que em razão
das seguidas viagens internacionais já preencheu dois passaportes,
vive numa casa de duzentos metros quadrados quitada por R$ 140 mil
no bairro do Cambuci, em São Paulo, e assiste a jogos de
futebol num aparelho de tevê de 63 polegadas. Ele circula
pela cidade num Omega azul blindado de bancos de couro de propriedade
do sindicato e tem as despesas pagas pela entidade que dirige. Como
qualquer presidente de empresa. Os sindicatos e as centrais
sindicais são, hoje, grandes companhias e seus dirigentes
acabam adquirindo um perfil semelhante ao dos empresários,
diz ele.
Sindicalista
que fundou a Força Sindical e optou por fazer carreira política
em Brasília, o deputado Medeiros é uma encarnação
ainda mais reluzente desta escalada social. Ele conseguiu conciliar
as atividades de puxador de greves e negociador de acordos trabalhistas
com presença permanente nas principais colunas sociais e
revistas de fofocas. Pode ter havido algum exagero na minha
exposição, mas isso nunca me prejudicou como sindicalista,
compara sobre os tempos em que flertava com mulheres da alta sociedade
e era visto em festas black-tie. Estou há 30 anos no
sindicalismo e não conheço nenhum dirigente sindical
que tenha voltado para a fábrica, garante Medeiros,
ao lado da lareira da ampla casa em que vive com a mulher Lenita
no bairro do Brooklin, em São Paulo, reduto sem retoques
da mais enraizada classe média paulistana. Hoje, paga aluguel,
mas a compra de um imóvel igualmente confortável já
tem poupança assegurada. Ser sindicalista não
é incompatível com crescimento pessoal e viver bem.
Não
faz vinte anos, Paulinho ao volante e Medeiros no banco do carona
eram vistos nos arrabaldes de São Paulo à bordo de
um malhado fusca preto. Naquele carro eles partiam para organizar
greves em nome do sindicato dos metalúrgicos. O primeiro
vivia numa minúscula casa de cômodos no Jardim Vitória,
em Franco da Rocha. Medeiros acabara de desembarcar da então
União Soviética, onde fizera a escola de quadros do
partido comunista. Hoje com salário de R$ 2,8 mil, Paulinho
em sua função de presidente da Força Sindical
administra verbas anuais superiores a R$ 50 milhões e paga
salários para assessores maiores que R$ 5 mil. Já
assinei cheque de repasse de verbas de R$ 1,5 milhão,
lembra ele, que parece não se importar em comandar funcionários
com salários mais gordos que o seu. O que interessa
é o padrão de vida. Estou sempre a trabalho, praticamente
não gasto nada do meu bolso, diz.
Medeiros,
abrigado no PFL com seus valores liberais, recebe R$ 8 mil mensais
como deputado e tem à sua disposição todas
as mordomias concedidas aos parlamentares, como carro com motorista
e uma legião de funcionários. Maratonista, já
participou de corridas em Nova York, Paris e Roterdã. Ele
confessa que nem em pesadelo imagina outra vez voltar para as portas
das fábricas ou mesas de negociação. Quero
fazer carreira política. Não tenho mais saco para
o dia-a-dia do sindicalismo, assume. Nisso, parece que é,
hoje, o que Paulinho pode ser amanhã. O sindicalista ainda
encontra disposição para acordar todos os dias com
o céu ainda escuro e ora vai à periferia da cidade,
ora sobe num avião em razão das demandas de sua central
de trabalhadores. Mas não por muito tempo. É
cansativo, registra. Paulinho quer estar ao lado de outro
protótipo de classe média, o presidenciável
Ciro Gomes, como seu candidato a vice-presidente da República
em 2002.
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