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Foto: Gustavo Lourenção
MIYASHIRO, DA FATOR: Relatório,s reuniões, jornais, Internet, o analista passa seus dias atrás de dados que o ajudam a descobrir que companhias devem se valorizar
Detetive das ações
A incansável caça à informação é a rotina do analista de mercado, o responsável por indicar os melhores papéis para investir

Laura Somoggi

Busca incessante de informações. Em poucas palavras, esse é o cotidiano de João Miyashiro, analista de mercado da Fator Administração de Recursos, de São Paulo. Ele chega no escritório às 8 horas, lê quatro jornais e vai para o computador. São cerca de 50 e-mails por dia e muita navegação na Internet. Visita sites de jornais e revistas nacionais e internacionais, de empresas de consultoria, de bancos e corretoras, além de páginas e mais páginas com informações específicas sobre telecomunicações e Internet. Isso sem falar nas visitas a empresas e conversas com outros profissionais do mercado. Só assim ele consegue os dados que precisa para saber se determinada companhia é e continuará sendo um bom negócio. Com isso, pode recomendar – ou não – uma empresa para a carteira dos fundos de ações administrados pela Fator. Os analistas de mercado fazem o trabalho que qualquer um deveria fazer antes de comprar um papel. A diferença é que nem sempre temos tempo para isso.

Para o investidor comum, não é fácil ter detalhes sobre o desempenho de determinada empresa, quais são suas perspectivas de valorização ou quanto ela deve pagar de dividendos. Mais do que ler notícias em jornais e revistas e relatórios na Internet, é preciso conhecer profundamente a sua atividade para se ter certeza disso. Saber, por exemplo, como é a sua gestão, se ela atende bem os clientes, se está com uma boa saúde financeira etc. Nesta segunda reportagem sobre a rotina de trabalho daqueles que cuidam das aplicações dos investidores, DINHEIRO mostra como os analistas de mercado trabalham. Como eles acompanham de perto os diferentes setores da economia e dão informações confiáveis para os gestores dos fundos definirem a melhor carteira das aplicações.

Essa é função de profissionais como Miyashiro, que avalia o desempenho de empresas há sete anos. Formado em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas, ele começou como operador de mesa. Atualmente, aos 31 anos, é responsável por dissecar as empresas de telecomunicações para a Fator. Só com o trabalho de Miyashiro e de mais quatro analistas é que a gestora Roseli Machado pode definir quais papéis são bons e, com isso, conseguir que os fundos administrados pela empresa tenham bons retornos. Segundo um levantamento feito pela Agrif, empresa de acompanhamento de fundos, três dos quinze fundos com melhor desempenho nos últimos três anos estão nas mãos da equipe da Fator. O Plural Ações Carteira Livre, por exemplo, valorizou 146,9% no período. O Plural Ações, 126,6%. O Plural Institucional, 117,7%. O Ibovespa ficou em 55,6%.

Não é pouca coisa. Uma performance como essa só é possível com muito cuidado na hora de analisar uma empresa. “Temos de visitar as empresas, saber quanto elas vendem, os preços praticados, a demanda pelos seus produtos, sua saúde financeira”, conta. Mais do que isso. Miyashiro precisa conhecer também as políticas e a regulamentação do setor e a sua situação no Brasil e no mundo. E isso não se restringe às empresas negociadas em bolsa. “Sem uma noção do mercado como um todo, não tenho como fazer comparações”, diz. Por isso, Miyashiro tem de entender dos concorrentes, dos fornecedores e de tudo o que pode influenciar uma empresa.“Gosto de ler sobre tudo que está acontecendo”, diz. “E tudo que leio pode interferir no meu trabalho.” Outra fonte de informação são as conversas telefônicas, reuniões e almoços com outros analistas de mercado, os chamados analistas do sell side. Esses são os profissionais de bancos e corretoras que vivem de vender as suas análises, são os responsáveis por aqueles relatórios que recomendam a compra ou venda de determinado papel. É comum que esses analistas visitem Miyashiro para explicar a situação de algum setor ou de uma empresa.

Modelo próprio. A importância do papel de Miyashiro é justamente a de filtrar todas essas informações e fazer as recomendações corretas. Um dos instrumentos que ele usa são as planilhas de projeção de resultados das empresas. “É preciso desenvolver um modelo próprio para ver se todos os dados têm consistência”, diz. “Se eu fosse somar tudo o que as empresas de telecomunicações dizem que vão crescer, o PIB brasileiro teria de crescer três vezes o que as previsões atuais indicam.” Mas como um bom caçador de ações, ele não se baseia apenas em números para tirar as suas conclusões. “Pergunto para as pessoas, por exemplo, se o seu telefone celular funciona direito, ligo para os serviços de call center para checar como é o atendimento ao consumidor.” É preciso conhecer de perto o produto ou o serviço final. Logicamente, nem sempre a realidade corresponde às projeções. “Isso é o que mais me angustia. Às vezes, tudo o que você faz aponta para um lado e o mercado vai para o outro.” O segredo é conseguir acertar mais do que errar.

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