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FINANÇAS/AQUISIÇÃO
Foto: Biô Barreira
DISPUTA: O Itaú ficou em desvantagem porque, pelas regras do BC, imobilizaria muito capital e não aproveitaria créditos fiscais do Bandeirantes

O Bradesco, que era guiado em suas incursões a Lisboa pelo ex-sócio Antonio Carlos de Almeida Braga, não fez grandes esforços para vencer o leilão. Estava concentrado na compra do Boavista. Já o Itaú deu um lance inferior ao da concorrência por um motivo simples: uma das jóias mais brilhantes do pacote do Bandeirantes, os créditos fiscais, simplesmente não lhe interessavam. O banco português possui quase 90% de seu patrimônio líquido em créditos tributários, que totalizam R$ 350 milhões. Mas o banco da família Setúbal, que adquiriu o Banerj e o Bemge recentemente, ainda levará de cinco a sete anos para aproveitar os créditos que recebeu dessas instituições. A situação, já inoportuna, se tornaria muito desagradável com a compra do Bandeirantes. Desde o início do ano o BC exige que, em função do volume desses créditos, o banco imobilize proporcionalmente seu capital.

O Unibanco, por sua vez, não titubeou em oferecer bem mais do que o valor de mercado. O Bandeirantes parecia feito sob medida para ele. Líder de mercado no Rio de Janeiro, o banco dos Moreira Salles aumenta sua participação em São Paulo e quadruplica o número de agências no Nordeste, seu ponto mais fraco. A região é tida como a nova fronteira para o crescimento dos bancos de varejo, porque a renda per capita ali cresce anualmente 50% acima da taxa nacional. A instituição engorda sua carteira de poupança em 42%. Sua rede de atendimento cresce 49%, ficando à frente do HSBC e do ABN-Real. E, finalmente, o Unibanco ultrapassa o Itaú em volume de operações de crédito – critério que, em vários países, é levado em consideração para montar o ranking das instituições financeiras. Sua seguradora também cresce 39%, passando a 5o lugar no ranking, à frente da AGF. “Os correntistas do Bandeirantes na maioria não têm seguros do banco, nem cartão de crédito, nem planos de capitalização. O Unibanco, que é forte nessas áreas, poderá vender esses produtos para eles”, explica Rafael Guedes, diretor da Fitch, empresa que faz classificação de risco de bancos.

Montado em dois cavalos. Restam dois nós a serem desfeitos. Há três anos o Bandeirantes adquiriu o quebrado Banorte, sob pressão do Banco Central. Seu ex-controlador, Jorge Baptista da Silva, não concordou e vinha tentando um acordo para receber mais dos portugueses que o adquiriram. Agora, Baptista anuncia que entrará na Justiça para tentar cancelar a venda, o que pode melar a operação com o Unibanco. E, mesmo que isso seja resolvido, a operação gerou uma outra incógnita no mercado. A CGD, que já possuía 8% do capital do Itaú, passa agora a ser dona de 14% do Unibanco. Analistas acham que, para ambas as casas, essa situação parece insustentável. Mas a CGD não está preocupada em resolvê-la tão cedo. “Eles têm apostas em dois bons cavalos. Podem escolher com qual ficarão depois do leilão do Banespa”, comenta um banqueiro português. Não seria surpresa. A Caixa tem participações no capital de vários bancos portugueses e convive normalmente com isso. Na Espanha, o grupo também adquiriu três bancos pequenos.

Com a venda do Bandeirantes, 12a instituição privada do País em volume de ativos, vai-se fechando um ciclo nas finanças brasileiras. Os poucos bancos médios que restam – Finasa, Sudameris e mesmo o Safra – devem ser absorvidos por gigantes, nacionais ou estrangeiros. Na década de 80, antes da explosão globalizadora, pregava-se que havia sete bancos nacionais “too big to fail” (“grandes demais para quebrar”). Três deles, Bamerindus, Nacional e Econômico, faliram. Outro, o Real, foi vendido para o ABN. No início do ano, uma tese defendida na USP pelo economista Alberto Borges Matias, diretor da Austin Asis, deu conta de que mesmo os grandalhões ainda não têm escala para competir a longo prazo com os gigantes globais. O desdobramento é que, depois do leilão do Banespa, os bancões deverão se preparar para valer para comprar ou ser comprados. Na semana passada, o Unibanco ingeriu uma dose maciça de vitaminas para enfrentar esse desafio.

Com reportagem de
Lucia Kassai e Marcelo Aguiar

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