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ENTREVISTA
Foto: Kiko Ferrite
MACIEL: “Não será a redução de alíquotas que vai melhorar os hospitais”

EVERARDO MACIEL
“Não dá para reduzir impostos”
O secretário da Receita Federal diz que é impossível diminuir a carga tributária enquanto as despesas públicas se mantiverem altas

» Galeria de Fotos: chefes e xerifes das finanças públicas

Estela Caparelli e Expedito Filho

O secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, não está entrincheirado por acaso no sexto andar do Ministério da Fazenda, em um gabinete decorado com obras de arte confiscadas de sonegadores. Técnico renomado, Maciel tem a habilidade de transitar pelos labirintos do poder brasiliense com a mesma desenvoltura com que desce e sobe as ladeiras de Olinda, em Pernambuco, onde costuma brincar o carnaval. Faz dessa habilidade uma arma poderosa. Com ela, ruge como um leão quando a reforma tributária entra em pauta. “Este governo já fez mais reforma tributária que os que o antecederam”, diz. É dele também a defesa mais ferrenha dos impostos cumulativos. Reconhece que esta é uma fórmula de tributação pouco transparente, mas avisa que pela sua eficácia é um mal menor. “Os impostos não-cumulativos são sujeitos à sonegação e à elisão fiscal”, afirma. Por isso, acredita que parte do empresariado que condena a cumulatividade está, em última análise, forçando a criação de novos espaços para escapar das garras do Leão. Nas próximas semanas, Maciel volta a ganhar os holofotes com a decisão do governo de ressuscitar a reforma tributária. Será dele, certamente, a opinião técnica mais decisiva na equipe de FHC, para mostrar com que cara o projeto deve sair da esfera oficial. Ele recebeu a revista DINHEIRO para falar sobre os princípios que devem balizar sua escolha.

DINHEIRO – Muitos afirmam que o sr. adiou a reforma tributária para evitar o fim da cumulatividade de impostos. É verdade?
EVERARDO MACIEL – Neste governo se fez mais reforma tributária do que nos governos anteriores. Já eliminamos a correção monetária, instrumento que tornava o Imposto de Renda das empresas o mais complexo do mundo. Usualmente, com a correção monetária, as pessoas fingiam que pagavam impostos e a fiscalização fingia que fiscalizava. Além disso, houve redução das alíquotas. Do Imposto de Renda, a alíquota máxima era de 45%, caindo para um patamar máximo de 25%, que combinado com a contribuição social sobre o lucro, passou a ser de um patamar internacional.

DINHEIRO – E a reforma tornou-se desnecessária?
MACIEL – É necessário ainda uma revisão da tributação, sim. O problema é que há muita confusão entre reforma tributária e reforma de tributação de consumo. Na área de consumo, nós temos um problema enorme. Jamais o principal imposto sobre consumo deveria ser de titularidade de Estados, ao contrário do resto do mundo. O ICMS deveria ser de titularidade do governo federal. Temos que conviver com essa dificuldade, não há como superá-la. Essa mudança envolveria repactuar a federação brasileira, o que exigiria condições políticas extremamente exigentes.

DINHEIRO – Mas não há ainda o problema do acúmulo de contribuições sociais como PIS e Cofins?
MACIEL – As contribuições sociais são freqüentemente atacadas como cumulativas. Mas um tributo cumulativo não é necessariamente ruim.

DINHEIRO – Não é?
MACIEL – A forma cumulativa de arrecadação é extremamente simples, é quase invulnerável à elisão fiscal. Cerca de 90% das empresas brasileiras preferem a apuração de impostos no regime do Simples e não no sistema de lucro real porque o que elas pedem é simplicidade.

DINHEIRO – É fato que, com a cumulatividade de impostos, o empresário não tem controle do que paga para o governo?
MACIEL – Isso é falso. Ele não tem necessidade de dimensionar o imposto que ele pagou naquela operação. Claro que os impostos não-cumulativos são mais transparentes. Com eles, é possível desonerar as exportações com mais facilidade. Em compensação eles são mais complexos, mais sujeitos à sonegação, mais sujeitos à elisão. Cada sistema tem virtudes e tem defeitos.

DINHEIRO – Se o fim da cumulatividade dá mais transparência, por que não adotá-lo?
MACIEL – Essa opção favorece a elisão e a sonegação. Favorece, enfim, a indústria de liminares. Não há dúvida nenhuma quanto à simplicidade do modelo. Mas simplificar pela via de cumulatividade é uma contradição em termos. Não defendo a cumulatividade em qualquer circunstância. Fui eu quem fez com que o IPI fosse não-cumulativo. As empresas tiveram de pagar impostos que não costumavam nas suas aplicações no mercado financeiro. Toda essa polêmica tem uma única história: a tradição brasileira de privilegiar as aplicações no mercado financeiro. O tratamento tributário dispensado aos investimentos na atividade produtiva deve ter o mesmo tratamento das aplicações no mercado financeiro.

DINHEIRO – A irritação parte daí?
MACIEL – Sem dúvida nenhuma. A gritaria recai sobre os impostos que funcionam.

DINHEIRO – A carga tributária não é muito pesada?
MACIEL – Para reduzir a carga tributária é necessário ter em vista a despesa pública. Então, não há possibilidade de reduzir a carga tributária se a despesa fica do tamanho que está.

DINHEIRO – Mas ela não está sendo reduzida?
MACIEL – Nós olhamos de forma caolha para a questão do problema fiscal. Eu olho pelo lado do fisco num raciocínio até compreensivo. O Estado aloca riqueza: ele tira de você e passa para ele. Esse é o papel do Estado. O tributo se converte em despesa. Se eu quero reduzir esse tributo tenho que reduzir a despesa, senão ela vai ser reduzida com inflação.

 

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A carga tributária do País aumentou neste ano. O dinheiro arrecadado foi bem utilizado? Por quê?

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